Museum of Migration and Communities

Por via Terrestre

Viagem à Europa (1960-1975)

VIAGEM NO FIM DA NOITE

Os 84 portugueses pensaram que encontrariam o paraíso na França: condenados por entrada ilegal – multa de 100 francos.

“ESGOTADO, COM PÉS DE GELO, O EMIGRANTE CLANDESTINO CAIU EM UM PRECISO”.

“Sete noites de caminhada… era preciso continuar com os homens, senão eles nos abandonariam… nenhuma mulher aceitaria a viagem se soubesse… era preciso vencer montanhas, rios… caímos todos numa ravina, sei lá. nem sei como não morremos”.

“Fomos de prisão em prisão, algemados, como se fôssemos criminosos ou selvagens…”

“A neve não nos deixou ir… demoramos um mês para chegar. Não sei como não morri”.

“Prefiro morrer de fome em Portugal do que vir como vim. Se começasse de novo morreria… quando já tinha cruzado a fronteira espanhola, era capaz de voltar atrás se soubesse o caminho; mesmo que eu tenha perdido o dinheiro da viagem… nunca permitirei que um filho meu venha por aqui”.

“Eles queriam nos abandonar no meio da neve. Eles podem nos matar. Estávamos perdidos, não salvamos nada. Encontramos um português que estava doente, depois de 3 dias na montanha não conseguia engolir nada por causa da febre que tinha”.

“O contrabandista tinha prometido que não iríamos mais andar e andamos o tempo todo, 82 horas a pé… Eu estava tão cansada. Ele trouxe uma camisa e uma camisola. Deixei tudo… estava com tanto sono que abandonei tudo… atravessei três rios… tive que entrar na água…”

“Os animais vivos em carroça fechada eram clandestinos portugueses”

Jornal France Soir, 9 de fevereiro de 1964

“Viajar de camião é pior do que andar a pé… está tudo fechado, não consigo respirar, senti-me tão mal que até quis ser preso para regressar a Portugal”.

Para chegar a França, 21 portugueses (incluindo 5 mulheres, uma criança de 5 anos e 2 bebés) caminharam durante 27 dias.

 

EXPOSIÇÃO – O sonho português – Emigração portuguesa em França – Painel 3

A EMIGRAÇÃO

EM SENTIDO PROIBIDO

1603: Para parar a hemorragia humana após as descobertas, uma lei nas Ordenações de Filipe I proíbe a emigração. Dentro

1709 e 1711, dois decretos foram adotados expressando a mesma preocupação.

1720: Uma lei que só permitia que cidadãos investidos de funções fossem para o Brasil, e isso “para evitar que as numerosas pessoas que fogem todos os anos deste Reino de partir para as capitanias do Brasil, especialmente da província do Minho, que, sendo a mais populosa, está hoje em tal estado que não há mais gente para trabalhar as terras, nem para prestar serviços às populações.

1947: Decreto-lei nº 36199 que suspende a emigração. “Considerando a necessidade de regular a emigração portuguesa, tendo em conta a proteção devida aos emigrantes, os interesses económicos do país e a valorização dos territórios ultramarinos pelo aumento da população branca”

1954: Decreto-Lei nº 39.749, que classifica como crime a emigração clandestina, estabelecendo sanções penais e atribuindo poderes à PIDE para reprimi-la .

 

EXPOSIÇÃO – O sonho português – Emigração portuguesa em França – painel 13

O PULO

(canto superior esquerdo)

O Salto, filme realizado em 1967, por Christian de Challonges.

Principais intérpretes: Marco Pico, Antonio Passalia e Ludmilla Michaël, com a colaboração, em todas as outras funções, de emigrantes portugueses, atores não profissionais. “Este filme é a prova de uma situação escandalosa: a imigração de trabalhadores portugueses.”

(Ch.de C;)

( canto superior direito)

O salto é um filme sobre o olhar surpreso, divertido, por vezes superficialmente inquieto que António tem de Paris. Olhar onde aparecem o cansaço e a decepção da espera, das recusas grosseiras, dos fracassos. Um olhar que não nos julga e que, por isso mesmo, se torna ainda mais acusador.

Jean-Luc Pouillade, “Témoignage Chrétien” 4 de janeiro de 1968.

 

EXPOSIÇÃO – O sonho português – Emigração portuguesa em França – painel 12

O CAMINHO DA ESPERANÇA
“O pulo”. Transpõem “o grande passo”. Nos últimos seis meses, todos os dias, foram cerca de trezentas as que vieram juntar-se à colónia (portuguesa) em França, que já tem mais de quinhentas mil pessoas, e que aumentou dez vezes em dez anos, entre as quais 95% são “clandestino”.

“Quase todas as noites, em grupos de vinte ou trinta, atravessavam a pé o rio Bidassoa, a montante de Biriatou.” Diz um morador da região: essas expedições noturnas eram repletas de muitos perigos. No hospital de Bayonne, os portugueses vítimas de quedas ou do frio da montanha eram frequentemente tratados. Alguns morreram durante a viagem. Alguns “contrabandistas” aproveitaram a situação para saquear e saquear clientes. Foi o caso de três portugueses, encontrados estrangulados e outro chicoteado até a morte. Algumas sepulturas anônimas em cemitérios do País Basco espanhol testemunham essas atrocidades: “falecido em fraude”… e a um preço alto. De fato, há cinco anos, um “bilhete” custava em média 2.000 francos. Vários anos de economia.

Francisco CORNU

Le Monde, 2/9/1970

EX

HIBIÇÃO – O sonho português – Emigração portuguesa em França – painel 24

1970

O ANO DE TODOS OS RECORDES

1970:

135.000 portugueses entram na França.

110.000 são indocumentados.

47.000 são mulheres e crianças.

“A emigração estrangeira atinge um novo recorde em 1970: 2 emigrantes em 5 são portugueses”.