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No
"bairro de lata" de Champigny, no Val-de-Marne (departamento),
hà 700 Portugueses em 1961, três mil em 1962, para chegar aos dez mil
dois anos depois – Champigny, “capital dos Portugueses em França”
anunciam os jornais. Uma curiosa capital, construída por redes de
entreajuda e solidariedade, mas também por compatriotas “mercadores
de sono” e de cartas de trabalho que enganam e surripiam os recém
chegados.
Rapidamente,
o "bairro de lata" tornar-se-á um centro de emprego à
semelhança de um mercado de escravos, onde reinam grupos de autênticos
bandidos.
“As
nossas camas parecem autênticos ninhos de cães...Estamos todos
constipados e ficamos sem saúde. É o pior que se poderá encontrar...
quatro homens em nove metros quadrados... isto é para animais...Mas não
para homens. Gostaria que Salazar visse a miséria a que ele nos
reduziu...Somos oito e pagamos 40 francos cada um.”
“O
proprietário tem várias barracas...Como com os porcos, ele mete-nos
nas barracas... Nem nos quis comprar um cobertor e os jornais servem-nos
de lençóis.”
“ O melhor comércio é o das barracas e dos passadores...Há um que tem
aqui o secretário, e vem todos os meses buscar o seu dinheiro.
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“Para
nós, toda verdade, é a verdade toda inteira. E primeiramente, a falência
de uma ordem social que impõe uma vida abjecta e por vezes uma morte
atroz aos trabalhadores recrutados no estrangeiro.”
Jean-Paul
Sartre / 27 de Maio de 1970
Não
é estranho que a imigração siga o mesmo caminho que o vergonhoso tráfico
dos negros pois que sobre muitos aspectos existe uma semelhança. Depois
de ter sido usada, considerada como o único remédio às nossas
necessidades económicas e demográficas, a imigração transforma-se
numa série de equações sem saída. Os males que ela secreta são
incuráveis. Interesses e moral não são feitos para coabitar. Muitas
queixas! Muitas injustiças! Muitos crimes!
J.-Loup
Dariel
“O
Tráfico dos pobres” / 1975
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PEDREIROS
A VIVER EM BARRACAS
Uma
espécie de lixeira estende-se sobre vários hectares, mas descobre-se
que esses materiais de recuperação vão servir de abrigo a milhares de
seres humanos
Jornal
Le Monde
Cruel
ironia, esses trabalhadores são quase todos pedreiros e outros operários
da construçãocivil.
Jornal
Humanité, 4 Agosto 1964
Eles
vivem a quatro, seis ou oito nesse lamaçal. Cada um paga, pelo menos, 4
francos de aluguer por mês. Não há esgotos, nem retretes...
Jornal
Humanité, 4 Agosto 1964
Pelas
portas entre-abertas podem ver-se as tarimbas, por vezes simples molhos
de palha, onde dormem os ocupantes da barraca.
Jornal
Fígaro, 24 Abril 1964
A
água é rigorosamente utilizada, por vezes é preciso percorrer 1 km
para fazer uma “bicha” interminável na única fonte pública do
lugar...
Jornal
Fígaro, 24 Abril 1964
Texto
em baixo à esquerda
É
inadmissível que homens vindos trabalhar em França, onde têm um papel
económico inegável, estejam a viver em condições que ultrapassam o
entendimento! É? E no entanto...
Jornal
Fígaro, 24 Abril 1964
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OS
ANOS DE LAMA
(Em
cima à direita)
“As
autoridades francesas tornarão as disposições necessárias, para que
os trabalhadores portugueses encontrem em França o melhor
acolhimento”.
Acordo
Franco-português de 1963 artº 12
(Em
baixo)
“A
lama que cola às solas das botas. A cama gelada, as gotas de água que
pingam do teto. O fogo que arde a barraca duma só vez.
Sem
ter água quando gela. Sem luz no quarto. Mulherzinhas de 15 anos, na
solidão da barraca, sonham, ouvindo a canção”salut les copains”.
Ao Domingo, os homens cansados de construir os HLM (alojamentos
sociais), embebedam-se com cerveja e vinho. As mães que sonham com uma
casa grande, com aquecimento central e luz por todo o lado.
Passagem
do filme “Os anos de Lama” 1987
(Em
baixo – Título)
Atraídos
por melhores salários
Quase
cem mil operários portugueses instalaram-se nos "bairros de
lata" de Paris.
Jornal
Le Monde, 25 Abril 1964
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