Visconde de Sá [1]

No Álbum de CONTEMPORÂNEOS ILUSTRES [2]

Textos de Jofre de Lima Monteiro Alves

Se os pergaminhos herdados podem servir de apanágio a quem os usa, os que se adquirem pelos próprios mereci­mentos, se conquistam pelo trabalho e impõem aos dirigen­tes da sociedade pelas indicações da opinião pública, não são menos valiosos nem menos glorificadores.

O Visconde de Sá[3], se bem que pelo apelido tem o seu nome vinculado á mais brilhante tradição heráldica, é pela simplicidade do viver nos primeiros anos da sua existência um dos homens que, subindo consecutivamente, avançou e conquistou passo a passo a proeminência social em que merecidamente se encontra.

Mal poderiam profetizar aqueles que o viram ainda criança, que, mais tarde, acolitado pela honestidade e pelo amor ao trabalho, o tomariam a ver circundado de grandeza e opulência reivindicadas por muitos anos de incessante e custoso labor e conseguidas a troco de assiduidade própria de inesgotável energia! Tendo por bíblia os preceitos da mais inconcussa honestidade e por guia o roteiro da mais imaculada dignidade de carácter o Visconde de Sá atingiu essa posição livre, desafogada e honrosa que lhe consi­gna o geral respeito e consideração de quantos o conhecem

  Quando se obtêm semelhantes resultados, quando a actividade do homem assim redunda em exuberante e imprevisto prémio, são bem dispensáveis as convencionais honrarias que os dirigentes dos Esta­dos lançam sobre os ombros dos que, pelas suas qualidades pessoais, põem insensivelmente os seus nomes em evidencia. O mais honroso galardão, e o mais legítimo, provém da respeitosa estima e da honrosa deferência que a sociedade concede a essas distintas individualidades. Assim o compreende também o ilustre titular.

Modesto no viver e nas aspirações, modéstia natural que espontaneamente brota do seu ser e que é realçada por um lúcido espírito e por um esclarecido intelecto, sempre procurou viver na obscuridade e alheiar-se de honrarias que sistematicamente qualifica de escusada exterioridade; no entanto, há casos em que não se pode fugir ao aceite dessas honrarias, principalmente, quando elas são impostas por amigos e em condições que inibem qualquer recusa. Assim suc­edeu ao nosso ilustre biografado e se justifica a razão porque possui o título de Visconde.

Vejamos, pois, como se adquire a consagração das individualida­des, que, como o nobre Visconde de Sá ganham pelo trabalho, pau­tado pela mais inteira e irrepreensível honestidade, a sua elevada po­sição.

O Visconde de Sá é natural da vila de Paredes de Coura[4], na província do Minho. Ainda muito novo, mas já habilitado com indispensáveis noções literárias para seguir a carreira do comércio, foi para a vila de Arcos de Valdevez a fim de fazer tirocínio de caixeiro no estabele­cimento de mercador do abastado e acreditado comerciante Francisco Manuel Cerqueira.  

Inteligente e dotado de apreciáveis qualidades para o trabalho, adaptou-se facilmente ao meio comercial em que por tendência se havia lançado, e, a curto passo da sua aprendizagem tinha ganho a sim­patia e estima dos colegas e a mais afectuosa confiança de seu pa­trão.

Apesar dessa justificada mas cativante estima, o jovem empregado do comércio distanciava para além Atlântico os voos das suas legítimas aspirações. O comércio, mesmo em larga escala numa vila de província, não correspondia cabalmente ao movimento que apetecia para dar lar­gas á sua actividade e satisfação ao desejo de obter mais prontamente o grau de independência individual e de fortuna a que aspiram todos os caixeiros.

O Brasil, que de quando deixava escapar notícias de compatriotas nossos erguidos pela sua actividade ao apogeu de grande ou relativa riqueza, fez brotar no jovem caixeiro o pensamento fixo da emigração para essa terra que parecia chamá-lo a si. Já nesse tempo, a província do Minho, fornecia grosso contingente de emigrantes a essa nacionalidade da jovem América, muitos dos quais voltavam superiormente favorecidos da sorte.

Obediente ás suas tendências, o actual Visconde de Sá foi tentar fortuna no comércio do Brasil, embarcando para ali no ano de 1852, com direcção ao Pará; e chegado aí, seguiu para Manaus onde entrou no serviço comercial duma casa importante, e se estabeleceu mais tarde de conta própria. Fiel á sua divisa de honesto e activo trabalhador, como em Arcos de Valdevez cedo conseguiu o respeito e consideração de grande número de comerciantes da praça de Manaus.

Em 1863, sendo possuidor de considerável crédito e dalguns meios de fortuna, consorciou-se com a Ex.ma Sr.ª D. Ana Custódia da Silva Sarmento, hoje digna Viscondessa de Sá, irmã do distinto jornalista e actual Senador da República Brasileira, Joaquim José Paes da Silva Sarmento[5]. A Senhora Viscondessa de Sá, é possuidora das mais nobres qua­lidades como senhora, esposa e mãe. Sempre envolta na mais inexcedível modéstia e dotada dum espírito delicado, esclarecido e nobre, circunscreve a sua acção ao recato duma vida que tem por norte a mais acrisolada dedicação ao esposo, aos filhos e á família e a devoção pela caridade, que exerce sem ostentações e alardes que deprimem aqueles a favor de quem recai. O seu trato, duma simplicidade cativante, granjeou á nobre se­nhora as simpatias de todas as pessoas que dela se aproximam.

O capital com que o Visconde de Sá deu começo ao negócio de sua conta não era grande, mas pelo acerto das respectivas transacções foi progredindo até atingir soma avultada. No decurso de vinte e tantos anos em que o honrado negociante exercitou o comércio de sua conta própria na antiga província e hoje Estado do Amazonas, o seu crédito subiu a considerável importância.

Em toda a extensa área do referido Estado, o seu nome é conhecido; e o seu crédito estendeu-se não só ás praças brasileiras como a al­gumas da Europa com quem mantinha relações comerciais. Na cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas e sede da sua casa comercial, todos os negociantes tinham o ilustre titular na conta das pessoas de maior respeitabilidade e continuam a conside­rá-lo assim.

A colónia portuguesa de Manaus considera o ilustre Visconde de Sá como seu chefe; e em boa verdade este respeitável titular é talvez o mais antigo e sem dúvida o mais notável português daquele grande Estado da União Brasileira. Dada a influência e respeitabilidade do Visconde de Sá, o Governo do nosso País, depositando nele a maior confiança, encarregou-o do vice-consulado de Portugal em Manaus, cargo que exerceu durante quatro anos com dedicação paternal por todos os nossos compatriotas que se acolhiam á sua autoridade consular.

Devido a essa circunstância assaz nobilitante, por vezes a colónia portuguesa daquele estado enviou petições ao nosso governo, por ela firmados, em que a par dos maiores elogios ao ilustre Visconde pela maneira dedicada e zelosa com que servia o seu cargo, se pedia a sua conservação no exercício do referido cargo.

Como é de fácil concepção, as funções de representante consular da nossa nacionalidade na capital do Amazonas, em vez de con­ceder proventos a quem em tais condições as exercia, apenas lhe acar­retavam incómodos e despesas consideráveis como eram aquelas com que muitas vezes tinha de ocorrer ás necessidades de quantos, em péssimas condições de fortuna, eram impelidos a solicitar em seu benefício a humanitária intervenção do bondoso vice-cônsul.

O Visconde de Sá, depois de haver adquirido capital superior a 300 contos de réis, liquidou a sua casa comercial, trespassando-a e ficando apenas com escritório de descontos que também trespassou mais tarde convertendo os seus haveres monetários em propriedades urbanas das quais está colhendo rendimento deveras notável. O ilustre titular conta nove filhos, alguns já brilhantemente col­ocados e todos possuidores da mais aprimorada educação, compatível com as suas respectivas idades.

Em Abril de 1896, resolveu visitar a mãe Pátria da qual estava au­sente há tantos anos e fazer uma digressão pela Europa. Animado desse desejo de conhecer as principais cidades do con­tinente europeu, viajou pela Espanha, França, Itália, Suiça, Bélgica, Alemanha, Áustria, Rússia, Suécia e Inglaterra e ainda outros países.

  Em Portugal[6], onde como filho dilecto resolveu estacionar, também tem visto o que temos de mais notável, não esquecendo a sua província natal, o pitoresco Minho, onde se demorou algum tempo e prin­cipalmente na terra da sua naturalidade na vila de Paredes de Coura, aonde praticou principescas liberalidades: já socorrendo a ocultas os necessitados, já contribuindo para importantes melhoramentos locais.

 Um periódico da localidade, O LIBERTADOR DE COURA, de 26 de Agosto último[7], consagra ao ilustre Visconde de Sá um elogioso artigo, escrito com legítima paixão laudatória e de íntimo reconhecimento, no qual são enumerados, além de outros actos de piedosa benemerência praticados pelo nobre titular na ocasião da sua última visita, as dádivas seguintes: 200$000 réis para as obras da igreja de Mozelos; 260$000 ­réis para as obras do Novo Asilo da Infância Desvalida de Nossa Se­nhora do Conceição e 260$000 réis para o Hospital de Caridade[8], tudo da Vila de Paredes de Coura, e 20$000 réis para compra dum estandarte para a Irmandade de Nossa Senhora da Piedade da freguesia de Resende, a fim de figurar na festividade da mesma Senhora que anualmente se efectua no dia 8 de Setembro, além de outras dádivas de importância[9].

A estas obras de generosidade há a adicionar diversas que enaltecem a filantropia de tão bondoso titular, das quais sobressaem o socorro a muitos necessitados que tiveram na visita do seu benemérito conterrâneo dias de grande lenitivo á miséria em que viviam, ao mesmo tempo que o seu generoso benfeitor sentia o prazer e alívio que costumam sentir as almas benfazejas quando minoram as angústias da miséria.[10]

Uma nota de quanto o nosso biografado é querido dos seus conterrâneos está no facto da Câmara Municipal da vila de Paredes de Coura[11], por deliberação unânime dos seus membros, ter dado á Praça das Oliveiras [12] o nome de Praça do Visconde de Sá [13].

Este é o perfil moral desse homem que adquiriu pelo trabalho uma posição eminente na sociedade e um lugar entre a nobreza do nosso país14].

Do “Tesouro da Nobreza”,[15] obra onde se encontram os atributos de cada apelido em relação ás primitivas famílias que deles fizeram uso, destacamos o seguinte: «As famílias do apelido Sá, procedem de Paio Rodrigues de Sá, que viveu pelos anos de 1300 no reinado d'El-Rei D. Afonso IV e D. Pedro I e era senhor da Quinta de Sá, no termo de Guimarães».

Dos ramos divergentes do tronco de tão nobre família, resultou a obscuridade em que caíram muitas famílias que dele procedem, como aconteceu a todos os outros apelidos brasonados. O brasão de armas dos Sás, consta de escudo xadrezado de prata e azul, de seis peças em faixa e sete em pala; tendo por timbre um búfalo de negro nascente, axadrezado de prata e armado do mesmo metal com uma argola de ouro nas ventas[16]. É este o brasão de armas de que o Visconde de Sá pode fazer uso.[17]  

O título de Visconde de Sá foi criado por uma vida e para uso deste nosso compatriota ilustre; porém, os serviços por tão nobre titular prestados ao seu País e aqueles que continua a prestar-lhe; a generosidade que o guia no caminho do bem, auxiliando quantos se lhe abeiram com carência da sua protecção e da sua caridade; o grande número de institutos pios que sustenta com a sua quota e que tem beneficiado com importantíssimas ofertas; o socorro com que constantemente acode aos nossos patrícios pobres no Brasil, e a par de tão nobilíssimas manifestações da sua inesgotável filantropia o facto de se conservar fiel à sua Pátria não aceitando a grande naturalização brasileira, dando assim preferência à qualidade de cidadão português, concede-lhe jus a ser aumentado o título em mais uma vida, como mais sensível prémio das suas virtudes.

Estamos certos que o Governo Português não deixará de praticar este acto de verdadeira justiça, com tanta mais razão quanto o herdeiro dessa honra, o primogénito do Visconde de Sá, que em tal caso deverá partilhar da distinção concedida ao seu progenitor, é um cavalheiro dotado de superior ilustração e de qualidades morais, que, por assim dizer, estereotipam as de seu ilustre pai.

Expondo esta lembrança, que, quando convertida em prática, representará um incentivo à benemerência da sociedade, cumprimos um dever e procuramos contribuir por esse modo para a incidência duma graça régia em que por tão poderosos motivos dela é credor.[18]

 

 [1] Comentários, notas e actualização do texto por Jofre de Lima Monteiro Alves.

[2] Texto publicado no ÁLBUM DE CONTEMPORÂNEOS ILUSTRES, fascículo n.º 45, pela Empresa do Álbum de Contemporâneos Ilustres, Rua da Glória, n.º 14, Lisboa, e impresso na Tipografia do Sacramento ao Carmo, n.º 3, Lisboa; sem data, mas certamente do ano 1899.

 [3] O texto nunca refere o nome de baptismo do biografado, tratando-o sempre pelo título nobiliárquico de Visconde de Sá: chamava-se, contudo, Manuel Joaquim Pereira de Sá, embora muitas vezes se denomine somente Manuel Joaquim de Sá, e nasceu na freguesia de Mozelos, concelho de Coura, filho natural de Rosa Joaquina de Sá, solteira, moradora no sítio do Galão, lugar de Afe, freguesia de Mozelos, neto materno de Maria Quitéria de Sá, solteira, do então lugar do Galão, Mozelos.

[4] Informação incorrecta, na medida em que o Visconde de Sá era, isso sim, natural do então lugar do Galão, freguesia de Mozelos, concelho de Coura. 

[5] Joaquim José Paes da Silva Sarmento nasceu em Manaus a 7 de Outubro de 1845 e faleceu a 10 de Março de 1914, sendo filho de Joaquim José Paes da Silva Sarmento; foi inspector do ensino, tenente-coronel da Guarda Nacional, chefe da Fazenda Pública do Governo da Província do Amazonas, 2.º vice-presidente e presidente interino da Província do Amazonas (1884), Senador Federal da República do Brasil (1890-1903), Superintendente Municipal substituto de Manaus (1911-1913), e Prefeito interino de Manaus (1911).

[6] O Visconde de Sá esteve, pelo menos, três vezes em Portugal, sendo a primeira em Maio de 1897, a segunda em Agosto de 1899, e por fim em Agosto de 1903. Acerca da primeira passagem escreveu o jornal O LIBERTADOR DE COURA (n.º 15, 9.5.1897, p. 2), a seguinte notícia: «Visconde de Sá: Este ilustre titular, nosso respeitável patrício, antigo diplomata e estimável tio do benemérito restaurador da imprensa periódica em Coura e muito digno e activo administrador substituto deste concelho em exercício, empreendeu […], uma viagem de recreio em volta da Península…». 

[7] O Visconde de Sá esteve em Coura em Agosto de 1899, ocasião em que fez importantes donativos.

[8] Informação incorrecta, na medida em que o Hospital da Caridade foi demolido em 1885, sendo substituído pelo Hospital da Misericórdia, a quem o Visconde de Sá fez o importante donativo de 1.000 francos. 

[9] Ofereceu também 50$000 réis à Confraria do Santíssimo Sacramento da Vila de Paredes de Coura e 20$000 réis para as obras da igreja paroquial de Santa Maria de Cunha.

[10] Por proposta do provedor Miguel Dantas a Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia decidiu atribuir ao Visconde de Sá o título honorífico de irmão benemérito e mandar colocar o seu retrato na Sala dos Irmãos Benfeitores da Misericórdia.

  [11] Na sessão realizada a 21 de Setembro de 1899, a Câmara Municipal de Paredes de Coura e por proposta do dr. Bernardo Chouzal decidiu atribuir o nome de Largo do Visconde de Sá, ao espaço confinado entre o prédio da Casa Gonçalves Pereira e os muros do Solar da Casa Grande, e assim permaneceu durante longos 68 anos. A 10 de Novembro de 1967 e por proposta do dr. António Brás Regueiro, o largo compreendido entre a Casa Grande e a Rua do Dr. Custódio José Vieira, recebeu a nomenclatura errada de Largo de Frei Redento da Cruz, quando deveria constar de Largo do Beato Redento da Cruz.

 [12] Designação toponímica errada, na medida em que o nome correcto era Largo das Oliveiras, e não praça.

 [13] O espaço fronteiro à Casa Grande recebeu a designação de Largo do Visconde de Sá, e não de Praça do Visconde de Sá, que nunca existiu

.[14] Em 1997 propus que na placa toponímica do actual Largo de Frei Redento da Cruz constasse que anteriormente tivera a designação de antigo Largo das Oliveiras e antigo Largo do Visconde de Sá, apelo que renovei em 2004, fórmula para recordar as anteriores designações históricas do mesmo espaço toponímico.

[15] Tombo das Armas dos Reys e titulares e de todas as famílias nobres do reyno de Portugal, intitulado com o Nome de THESOURO DE NOBREZA Por Francisco Coelho Rey de Armas Índia, 1675, manuscrito depositado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

[16] As armas estão descritas incorrectamente: as armas desta família são, xadrezado de prata e de azul, de cinco peças em faixa – e não de seis peças – e seis em pala – e não de sete. Tal como estão no texto, com seis e sete peças do enxequetado são as armas diferenciadas que algumas famílias usaram, nomeadamente os Viscondes da Anadia e os Barões de Alverca. 

[17] O redactor da notícia não era de certeza heraldista: o Visconde de Sá não poderia nunca usar o brasão de armas da família Sá na sua forma plena, limpas, direitas e inteiras, direito que somente caberia ao chefe da geração ou chefe de linhagem, donde para estar conforme a lei heráldica deveria usar um escudo partido ou composto com armas de outro apelido, ou ainda diferenciadas com alteração de cores do escudo, adição duma nova peça, ou ainda com o recurso ao uso das armas diferenciadas com um anel, crescente, estrela, farpão, letra, merleta, etc.

[18] Entre outros foram irmãos do Visconde de Sá: D. Francisca Seabra de Sá, proprietária; Fortunato Albino Veiga de Sá, alfaiate; Emílio José Veiga de Sá, empregado público; dos sobrinhos destacamos Francisco Bento de Sá (1846+1922), proprietário, industrial, administrador do concelho de Paredes de Coura, vereador municipal de Paredes de Coura, proprietário e fundador do jornal O LIBERTADOR DE COURA, secretário da Santa Casa da Misericórdia, etc; e Manuel António Barreiros de Sá, armeiro e vereador municipal de Paredes de Coura, ambos filhos daquele Emílio José.

 

VISCONDE DE SÁ, UM COURENSE BANIDO E IGNORADO!

 

Por: Jofre  de  Lima  Monteiro  Alves

         É um lugar comum afirmar-se que a memória colectiva dos homens e dos povos é deveras curta e ingrata, em relação a factos do passado. E Paredes de Coura, como mui­tas outras terras, pratica no presente, uma política cultural de esquecimentos, ampla e com laivos de desleixo.

    Relembrados e decantados, actualmente só resta a memória de uma mão cheia de per­sonalidades justamente lembrados na toponímia ou nalguma lembrança mais pertinente e interessadas.

    Centenares de outros Courense ilustres jazem na mais sombria e obscura das mortes: a ignorância crassa, o esquecimento para o qual foram varridos vultos insignes, gigantes do seu tempo, soterrados hoje sobre o pó intemporal da história que eles mesmos cons­truíram e, gerações vindouras porfiadamente esqueceram.

    Vou procurar trazer aqui uma réstia de luz, um foco quiçá, pálido como campestre candeia, a uma figura, que no século anterior Paredes de Coura tanto venerou como «nosso respeitável patrício»: Manuel Joaquim de Sá, o Visconde de Sá.

    Mário Guerreiro meritoso jornalista do nosso meio, figura de plena valia cultural na sua época, no número 91 de 15.IV.960 e no número 92 de 30.IV.960 de O NOTÍCIAS DE COURA, advoga que o então “LARGO VISCONDE DE SÁ” que dava ingresso ao SOLAR DA CASA GRANDE na Vila de Paredes de Coura, deveria passar a ser desi­gnado LARGO BEATO FREI REDENTO da CRUZ.

    E esgrimia convictamente que:

«... nos fastos de Coura não encontro a menor referên­cia à personalidade ou feitos do Visconde de Sá, figura, por isso, absolutamente estranha á história e vida do nosso concelho ignorando, pois, os motivos que levaram à adopção daquele nome como designação toponímica da nossa Vila, visto, mesmo, nem ter sido, até, figura de grande projecção histórica na vida nacional» (O NOTÍCIAS DE COURA, p. 1, de 30.IV.960, in ”Toponímia da Vila, I-2.ª  Série - Largo Visconde de Sá).

    Quem era então este Visconde de Sá, que uma vereação anterior, consignou e perpetuou ao estampar o seu nome no conhecido Largo das Oliveiras?

    Transcrevo uma outra notícia dum periódico da centúria de oitocentos, que levanta um pouco o véu pesado da história:

«Visconde de Sá: Este ilustre titular, nosso respeitável patrício, antigo diplomata e estimável tio do benemérito restaurador da imprensa periódica em Coura e muito digno e activo administrador substituto deste concelho em exercício, empreendeu[...], uma viagem de recreio em volta da Península...» (O LIBERTA­DOR DE COURA, p. 2, n.º 15, de 9.V.1897).

    Não chega, dirão os cépticos, para ilustrar alguém. É preciso mais, senão...

    Se não chega, cá vai citado um histórico documento com a chancela, porventura do mais distinto de todos os Courenses, o respeitável Conselheiro Miguel Dantas Gonçal­ves Pereira:

«... tendo a Mesa Administrativa desta Santa Casa pleno conhecimento dos sentimen­tos humanísticos e altruístas do nobre e ilustre Visconde de Sá, sentimentos sobejamente manifestados nos poucos dias que esteve de permanência neste concelho que lhe foi berço, deliberou enviar-lhe uma mensagem pedindo o óbulo da sua inesgotável caridade em favor desta Santa instituição. Que o nobre titular num rasgo sublime de inexcedível filantropia respondera a essa mensagem com o valioso donativo de mil francos,[...] afirmando assim mais uma vez os finíssimos sentimentos do seu coração humanitário e as suas virtudes que se não exalçam nem traduzem porque são para sentir e não para comunicar. Actos desta natureza praticados pelo nobre e ao mesmo tempo modesto e simpático titular dão a medida justa do seu carácter e reflectem com precisão e nitidez a bondade sugestiva do seu coração sempre impulsionado para o bem[...]. Em face pois de tão importante donativo do prestantíssimo cidadão, a Mesa Administrativa desta Santa Casa não podia de maneira alguma permanecer indiferente e por isso ele Provedor deliberou que desde já fosse inscrito como irmão benemérito (ou benfeitor) [...] e que na sala dos retratos dos irmãos benfeitores se colocasse[...] o retrato de sua Excelên­cia...».

 

    O Provedor referido era o Conselheiro Miguel Dantas e com ele assinaram o Livro de Actas da Santa Casa da Misericórdia na sessão de 2 de Setembro de 1899, Júlio Cândido No­gueira, filho do 1.º Visconde de Mozelos, Comendador Bento José Antunes Guerra, José Luís Mendes, José Avelino Pedreira Bacelar e Joaquim António de Lima.

    Nesta curta estadia entre nós o Visconde de Sá espalhou o perfume da sua profusa bondade, em Agosto de 1899, com um importante donativo ao Asilo de Nossa Senhora da Conceição e outro ao Hospital da Misericórdia. Ofertou 50$000 reis á Confraria do Santíssimo Sa­cramento da freguesia de Paredes de Coura. E mais 20$000 reis para as obras da igreja paroquial da freguesia de Cunha. E claro os já documentados 1.000 francos à Santa Casa da Mise­ricórdia.

    Há cem anos Paredes de Coura e os nossos avoengos ficaram literalmente rendidos perante tanta bondade e magnificência.

    Manuel Joaquim de Sá, o futuro Visconde de Sá, emigrou para a Amazónia onde residiu, trabalhou e casou em Manaus; granjeou pelo árduo labor, fortuna e respeito dos seus contemporâneos, sendo um dos pioneiros da progressiva co­lónia portuguesa naquela cidade sertaneja Brasileira.

    Procuro nos meus muitos inúmeros papéis para encontrar o seu assento de baptismo, que muito me diz. Nascera no pequeníssimo lugar de Galão, freguesia de Mozelos, no dia 16 de Setembro de 1835 e recebeu a 22 de Setembro o nome de Manuel Joaquim Pereira de Sá e as águas lustrais do baptismo administradas na pia da igreja matriz de S. Paio de Mozelos pelo reverendo padre José Francisco Alves da Cunha, cura encomendado da paróquia, servindo de padrinhos João António Gomes da Silva, de Afe, e Mariana Rodrigues, solteira, da Lama, ambos lugares de Mozelos. Era o último rebento de Rosa Joaquina de Sá, senhora solteira e mãe de mais três filhotes, neto pela via materna de Maria Quitéria de Sá, solteira, por sua vez moradora em Afe.

    Era tio paterno de Francisco Bento de Sá, citado supra como restaurador da imprensa periódica e administrador do Concelho de Coura, filantropo e bondoso homem, herdeiro das virtudes e honradez do seu titular familiar.

    Quando emigrou para o Brasil não o sei, mas por aquelas alturas iam quase meninos, ali pelos 12 ou 14 anos de idade, o que certamente sucedeu com o nosso futuro nobilitado; contudo na década de 60 do passado século já era vice-cônsul de Portugal na cidade de Manaus, quando chamou para lá seu sobri­nho Francisco Bento, já aqui referenciado.

     Ignoro a data do óbito de tão preclaro Courense. Era, contudo, ainda vivente em Agosto de 1903, quando vindo de Manaus, arribou a Lisboa onde o foi esperar seu so­brinho Francisco Bento.

     Em Abril de 1905, provavelmente já falecido, constava da toponímia da Vila, pois relatam os jornais coevos que o capitalista António Ribeiro Guimarães, inaugurou um talho no «LARGO VISCONDE DE SÁ» onde esteve instalado o extinto comerciante Manuel Gonçalves Pereira.

     O título de Visconde de Sá não surge mencionado na nobreza titular de Portugal nem do Brasil, pelo que creio ser de origem pontifícia, adquirido quer por via da sua activi­dade diplomática ou por «tão bem fazer da sua avultada fortuna».

     Sei que em redor desta personagem no estádio actual das minhas investigações ainda persistem algumas dúvidas factuais cujas são: ano de nascimento e falecimento e do tí­tulo que ostentava.

    Mas verdade inegável é que ele era Courense. Afirma-o sem rebuços João de Sousa Lobo nas páginas de O LIBERTADOR DE COURA e Miguel Dantas nas Actas da Misericórdia e outros testemunhos.

    A benevolência e prodigalidade que dispôs em avultadas dádivas a instituições de ca­ridade, da qual jamais fez alarde balofo de novo-riquismo, foi lembrada aos seus conter­râneos até 1962. Em Novembro desse ano, a Câmara Municipal deliberou dar ao “Largo de Visconde de Sá”, o topónimo de Frei Redento da Cruz. Estava consumada a segunda e definitiva morte – a pior de todas: o vil esquecimento agravado de repúdio!

    Não foi afinal «absolutamente estranho á história e vida do nosso concelho». Pelo contrário; foi reconhecido e respeitado pelos seus próximos concidadãos, sendo posteri­ormente banido e apagado das páginas da história concelhia, onde a sua memória deve­ria – deve – perpetuar-se!

    Obviamente que Frei Beato Redento da Cruz está correctamente grafado no largo adjacente à Casa Grande e de lá não deverá sair; nem tal será defensável, em princípio.

     Talvez fosse mais correcto e justo, colocar uma nova placa toponímica a qual eluci­dasse que no início do presente século, o largo se chamou Visconde de Sá e, no século XIX fora o Largo das Oliveiras. E já agora seria historicamente recomendável proceder da mesma maneira para todas as artérias da nossa vila, lembrando aos presentes as suas anteriores designações.

    Seria uma imaginativa e magnífica lição de história ao vivo nas artérias da Vila, con­comitante ao legítimo preito de homenagem ao gentil titular, filantropo, benemérito, di­plomata e digno Courense bairrista. E a reposição – merecida – duma verdade.

 

Visconde de Sá, No Álbum de CONTEMPORÂNEOS ILUSTRES[1]

 

Comentários, notas e actualização do texto por

Jofre de Lima Monteiro Alves[2]

 

    Se os pergaminhos herdados podem servir de apanágio a quem os usa, os que se adquirem pelos próprios mereci­mentos, se conquistam pelo trabalho e impõem aos dirigen­tes da sociedade pelas indicações da opinião pública, não são menos valiosos nem menos glorificadores.

    O Visconde de Sá[3], se bem que pelo apelido tem o seu nome vinculado á mais brilhante tradição heráldica, é pela simplicidade do viver nos primeiros anos da sua existência um dos homens que, subindo consecutivamente, avançou e conquistou passo a passo a proeminência social em que merecidamente se encontra.

    Mal poderiam profetizar aqueles que o viram ainda criança, que, mais tarde, acolitado pela honestidade e pelo amor ao trabalho, o tomariam a ver circundado de grandeza e opulência reivindicadas por muitos anos de incessante e custoso labor e conseguidas a troco de assiduidade própria de inesgotável energia! Tendo por bíblia os preceitos da mais inconcussa honestidade e por guia o roteiro da mais imaculada dignidade de carácter o Visconde de Sá atingiu essa posição livre, desafogada e honrosa que lhe consi­gna o geral respeito e consideração de quantos o conhecem.

    Quando se obtêm semelhantes resultados, quando a actividade do homem assim redunda em exuberante e imprevisto prémio, são bem dispensáveis as convencionais honrarias que os dirigentes dos Esta­dos lançam sobre os ombros dos que, pelas suas qualidades pessoais, põem insensivelmente os seus nomes em evidencia. O mais honroso galardão, e o mais legítimo, provém da respeitosa estima e da honrosa deferência que a sociedade concede a essas distintas individualidades. Assim o compreende também o ilustre titular.

    Modesto no viver e nas aspirações, modéstia natural que espontaneamente brota do seu ser e que é realçada por um lúcido espírito e por um esclarecido intelecto, sempre procurou viver na obscuridade e alheiar-se de honrarias que sistematicamente qualifica de escusada exterioridade; no entanto, há casos em que não se pode fugir ao aceite dessas honrarias, principalmente, quando elas são impostas por amigos e em condições que inibem qualquer recusa. Assim suc­edeu ao nosso ilustre biografado e se justifica a razão porque possui o título de Visconde.

    Vejamos, pois, como se adquire a consagração das individualida­des, que, como o nobre Visconde de Sá ganham pelo trabalho, pau­tado pela mais inteira e irrepreensível honestidade, a sua elevada po­sição.

    O Visconde de Sá[4] é natural da vila de Paredes de Coura[5], na província do Minho. Ainda muito novo, mas já habilitado com indispensáveis noções literárias para seguir a carreira do comércio, foi para a vila de Arcos de Valdevez a fim de fazer tirocínio de caixeiro no estabele­cimento de mercador do abastado e acreditado comerciante Francisco Manuel Cerqueira.

    Inteligente e dotado de apreciáveis qualidades para o trabalho, adaptou-se facilmente ao meio comercial em que por tendência se havia lançado, e, a curto passo da sua aprendizagem tinha ganho a sim­patia e estima dos colegas e a mais afectuosa confiança de seu pa­trão.

    Apesar dessa justificada mas cativante estima, o jovem empregado do comércio distanciava para além Atlântico os voos das suas legítimas aspirações. O comércio, mesmo em larga escala numa vila de província, não correspondia cabalmente ao movimento que apetecia para dar lar­gas á sua actividade e satisfação ao desejo de obter mais prontamente o grau de independência individual e de fortuna a que aspiram todos os caixeiros.

    O Brasil, que de quando deixava escapar notícias de compatriotas nossos erguidos pela sua actividade ao apogeu de grande ou relativa riqueza, fez brotar no jovem caixeiro o pensamento fixo da emigração para essa terra que parecia chamá-lo a si. Já nesse tempo, a província do Minho, fornecia grosso contingente de emigrantes a essa nacionalidade da jovem América, muitos dos quais voltavam superiormente favorecidos da sorte.

    Obediente ás suas tendências, o actual Visconde de Sá foi tentar fortuna no comércio do Brasil, embarcando para ali no ano de 1852, com direcção ao Pará; e chegado aí, seguiu para Manaus onde entrou no serviço comercial duma casa importante, e se estabeleceu mais tarde de conta própria. Fiel á sua divisa de honesto e activo trabalhador, como em Arcos de Valdevez cedo conseguiu o respeito e consideração de grande número de comerciantes da praça de Manaus.

    Em 1863, sendo possuidor de considerável crédito e dalguns meios de fortuna, consorciou-se com a Ex.ma Sr.ª D. Ana Custódia da Silva Sarmento, hoje digna Viscondessa de Sá, irmã do distinto jornalista e actual Senador da República Brasileira, Joaquim José Paes da Silva Sarmento[6]. A Senhora Viscondessa de Sá, é possuidora das mais nobres qua­lidades como senhora, esposa e mãe. Sempre envolta na mais inexcedível modéstia e dotada dum espírito delicado, esclarecido e nobre, circunscreve a sua acção ao recato duma vida que tem por norte a mais acrisolada dedicação ao esposo, aos filhos e á família e a devoção pela caridade, que exerce sem ostentações e alardes que deprimem aqueles a favor de quem recai. O seu trato, duma simplicidade cativante, granjeou á nobre se­nhora as simpatias de todas as pessoas que dela se aproximam.

    O capital com que o Visconde de Sá deu começo ao negócio de sua conta não era grande, mas pelo acerto das respectivas transacções foi progredindo até atingir soma avultada. No decurso de vinte e tantos anos em que o honrado negociante exercitou o comércio de sua conta própria na antiga província e hoje Estado do Amazonas, o seu crédito subiu a considerável importância.

    Em toda a extensa área do referido Estado, o seu nome é conhecido; e o seu crédito estendeu-se não só ás praças brasileiras como a al­gumas da Europa com quem mantinha relações comerciais. Na cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas e sede da sua casa comercial, todos os negociantes tinham o ilustre titular na conta das pessoas de maior respeitabilidade e continuam a conside­rá-lo assim.

    A colónia portuguesa de Manaus considera o ilustre Visconde de Sá como seu chefe; e em boa verdade este respeitável titular é talvez o mais antigo e sem dúvida o mais notável português daquele grande Estado da União Brasileira. Dada a influência e respeitabilidade do Visconde de Sá, o Governo do nosso País, depositando nele a maior confiança, encarregou-o do vice-consulado de Portugal em Manaus, cargo que exerceu durante quatro anos com dedicação paternal por todos os nossos compatriotas que se acolhiam á sua autoridade consular.

    Devido a essa circunstância assaz nobilitante, por vezes a colónia portuguesa daquele estado enviou petições ao nosso governo, por ela firmados, em que a par dos maiores elogios ao ilustre Visconde pela maneira dedicada e zelosa com que servia o seu cargo, se pedia a sua conservação no exercício do referido cargo.

    Como é de fácil concepção, as funções de representante consular da nossa nacionalidade na capital do Amazonas, em vez de con­ceder proventos a quem em tais condições as exercia, apenas lhe acar­retavam incómodos e despesas consideráveis como eram aquelas com que muitas vezes tinha de ocorrer ás necessidades de quantos, em péssimas condições de fortuna, eram impelidos a solicitar em seu benefício a humanitária intervenção do bondoso vice-cônsul.

    O Visconde de Sá, depois de haver adquirido capital superior a 300 contos de réis, liquidou a sua casa comercial, trespassando-a e ficando apenas com escritório de descontos que também trespassou mais tarde convertendo os seus haveres monetários em propriedades urbanas das quais está colhendo rendimento deveras notável. O ilustre titular conta nove filhos, alguns já brilhantemente col­ocados e todos possuidores da mais aprimorada educação, compatível com as suas respectivas idades.

    Em Abril de 1896, resolveu visitar a mãe Pátria da qual estava au­sente há tantos anos e fazer uma digressão pela Europa. Animado desse desejo de conhecer as principais cidades do con­tinente europeu, viajou pela Espanha, França, Itália, Suiça, Bélgica, Alemanha, Áustria, Rússia, Suécia e Inglaterra e ainda outros países.

    Em Portugal[7], onde como filho dilecto resolveu estacionar, também tem visto o que temos de mais notável, não esquecendo a sua província natal, o pitoresco Minho, onde se demorou algum tempo e prin­cipalmente na terra da sua naturalidade na vila de Paredes de Coura, aonde praticou principescas liberalidades: já socorrendo a ocultas os necessitados, já contribuindo para importantes melhoramentos locais.

    Um periódico da localidade, O LIBERTADOR DE COURA, de 26 de Agosto último[8], consagra ao ilustre Visconde de Sá um elogioso artigo, escrito com legítima paixão laudatória e de íntimo reconhecimento, no qual são enumerados, além de outros actos de piedosa benemerência praticados pelo nobre titular na ocasião da sua última visita, as dádivas seguintes: 200$000 réis para as obras da igreja de Mozelos; 260$000 ­réis para as obras do Novo Asilo da Infância Desvalida de Nossa Se­nhora do Conceição e 260$000 réis para o Hospital de Caridade[9], tudo da Vila de Paredes de Coura, e 20$000 réis para compra dum estandarte para a Irmandade de Nossa Senhora da Piedade da freguesia de Resende, a fim de figurar na festividade da mesma Senhora que anualmente se efectua no dia 8 de Setembro, além de outras dádivas de importância[10].

    A estas obras de generosidade há a adicionar diversas que enaltecem a filantropia de tão bondoso titular, das quais sobressaem o socorro a muitos necessitados que tiveram na visita do seu benemérito conterrâneo dias de grande lenitivo á miséria em que viviam, ao mesmo tempo que o seu generoso benfeitor sentia o prazer e alívio que costumam sentir as almas benfazejas quando minoram as angústias da miséria.[11]

    Uma nota de quanto o nosso biografado é querido dos seus conterrâneos está no facto da Câmara Municipal da vila de Paredes de Coura[12], por deliberação unânime dos seus membros, ter dado á Praça das Oliveiras[13] o nome de Praça do Visconde de Sá[14].

    Este é o perfil moral desse homem que adquiriu pelo trabalho uma posição eminente na sociedade e um lugar entre a nobreza do nosso país[15].

    Do “Tesouro da Nobreza”,[16] obra onde se encontram os atributos de cada apelido em relação ás primitivas famílias que deles fizeram uso, destacamos o seguinte: «As famílias do apelido Sá, procedem de Paio Rodrigues de Sá, que viveu pelos anos de 1300 no reinado d'El-Rei D. Afonso IV e D. Pedro I e era senhor da Quinta de Sá, no termo de Guimarães».

    Dos ramos divergentes do tronco de tão nobre família, resultou a obscuridade em que caíram muitas famílias que dele procedem, como aconteceu a todos os outros apelidos brasonados. O brasão de armas dos Sás, consta de escudo xadrezado de prata e azul, de seis peças em faixa e sete em pala; tendo por timbre um búfalo de negro nascente, axadrezado de prata e armado do mesmo metal com uma argola de ouro nas ventas[17]. É este o brasão de armas de que o Visconde de Sá pode fazer uso[18].

    O título de Visconde de Sá foi criado por uma vida e para uso deste nosso compatriota ilustre; porém, os serviços por tão nobre titular prestados ao seu País e aqueles que continua a prestar-lhe; a generosidade que o guia no caminho do bem, auxiliando quantos se lhe abeiram com carência da sua protecção e da sua caridade; o grande número de institutos pios que sustenta com a sua quota e que tem beneficiado com importantíssimas ofertas; o socorro com que constantemente acode aos nossos patrícios pobres no Brasil, e a par de tão nobilíssimas manifestações da sua inesgotável filantropia o facto de se conservar fiel à sua Pátria não aceitando a grande naturalização brasileira, dando assim preferência à qualidade de cidadão português, concede-lhe jus a ser aumentado o título em mais uma vida, como mais sensível prémio das suas virtudes.

    Estamos certos que o Governo Português não deixará de praticar este acto de verdadeira justiça, com tanta mais razão quanto o herdeiro dessa honra, o primogénito do Visconde de Sá, que em tal caso deverá partilhar da distinção concedida ao seu progenitor, é um cavalheiro dotado de superior ilustração e de qualidades morais, que, por assim dizer, estereotipam as de seu ilustre pai.

    Expondo esta lembrança, que, quando convertida em prática, representará um incentivo à benemerência da sociedade, cumprimos um dever e procuramos contribuir por esse modo para a incidência duma graça régia em que por tão poderosos motivos dela é credor.[19]


 

[1] Texto publicado no ÁLBUM DE CONTEMPORÂNEOS ILUSTRES, fascículo n.º 45, pela Empresa do Álbum de Contemporâneos Ilustres, Rua da Glória, n.º 14, Lisboa, e impresso na Tipografia do Sacramento ao Carmo, n.º 3, Lisboa; sem data, mas certamente do ano 1899.

[2] Os comentários, notas e actualização do texto foram feitos em Abril de 2005.

[3] O texto nunca refere o nome de baptismo do biografado, tratando-o sempre pelo título nobiliárquico de Visconde de Sá: chamava-se, contudo, Manuel Joaquim Pereira de Sá, embora muitas vezes se denomine somente Manuel Joaquim de Sá, e nasceu na freguesia de Mozelos, concelho de Coura, filho natural de Rosa Joaquina de Sá, solteira, moradora no sítio do Galão, lugar de Afe, freguesia de Mozelos, neto materno de Maria Quitéria de Sá, solteira, do então lugar do Galão, Mozelos.

[4] Manuel Joaquim Pereira de Sá nasceu a 16 de Setembro de 1835 no Galão, lugar da freguesia de Mozelos, do então concelho de Coura, hoje Paredes de Coura, filho natural de Rosa Joaquina de Sá, e foi baptizado na pia baptismal igreja matriz de S. Paio de Mozelos a 22 de Setembro de 1835 pelo padre José Francisco Alves da Cunha, cura encomendado da paróquia, nos braços dos padrinhos João António Gomes da Silva, do lugar de Afe, e Mariana Rodrigues, solteira, do lugar da Lama, ambos de Mozelos.

[5] Informação incorrecta, na medida em que o Visconde de Sá era, isso sim, natural do lugar do Galão, freguesia de Mozelos, do então concelho de Coura.

[6] Joaquim José Paes da Silva Sarmento nasceu em Manaus a 7 de Outubro de 1845 e faleceu a 10 de Março de 1914, sendo filho de Joaquim José Paes da Silva Sarmento; foi inspector do ensino, tenente-coronel da Guarda Nacional, chefe da Fazenda Pública do Governo da Província do Amazonas, 2.º vice-presidente e presidente interino da Província do Amazonas (1884), Senador Federal da República do Brasil (1890-1903), Superintendente Municipal substituto de Manaus (1911-1913), e Prefeito interino de Manaus (1911).

[7] O Visconde de Sá esteve, pelo menos, três vezes em Portugal, sendo a primeira em Maio de 1897, a segunda em Agosto de 1899, e por fim em Agosto de 1903. Acerca da primeira passagem escreveu o jornal O LIBERTADOR DE COURA (n.º 15, 9.5.1897, p. 2), a seguinte notícia: «Visconde de Sá: Este ilustre titular, nosso respeitável patrício, antigo diplomata e estimável tio do benemérito restaurador da imprensa periódica em Coura e muito digno e activo administrador substituto deste concelho em exercício, empreendeu […], uma viagem de recreio em volta da Península…».

[8] O Visconde de Sá esteve em Coura em Agosto de 1899, ocasião em que fez importantes donativos.

[9] Informação incorrecta, na medida em que o Hospital de Caridade, construído por alvará do Governo Civil do Distrito de Viana do Castelo datado de 9 de Julho de 1860, foi demolido em Julho de 1885 por iniciativa do provedor Miguel Dantas, para ser substituído pelo Hospital da Misericórdia, a quem o Visconde de Sá fez o importante donativo de 1.000 francos.

[10] Ofereceu também 50$000 réis à Confraria do Santíssimo Sacramento da Vila de Paredes de Coura e 20$000 réis para as obras da igreja paroquial de Santa Maria de Cunha.

[11] Por proposta do provedor Miguel Dantas a Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia decidiu atribuir ao Visconde de Sá o título honorífico de irmão benemérito e mandar colocar o seu retrato na Sala dos Irmãos Benfeitores da Misericórdia.

[12] Na sessão realizada a 21 de Setembro de 1899, a Câmara Municipal de Paredes de Coura e por proposta do dr. Bernardo Chouzal decidiu atribuir o nome de Largo do Visconde de Sá, ao espaço confinado entre o prédio da Casa Gonçalves Pereira e os muros do Solar da Casa Grande, e assim permaneceu durante longos 68 anos. A 10 de Novembro de 1967 e por proposta do dr. António Brás Regueiro, o largo compreendido entre a Casa Grande e a Rua do Dr. Custódio José Vieira, recebeu a nomenclatura errada de Largo de Frei Redento da Cruz, quando deveria constar de Largo do Beato Redento da Cruz.

[13] Designação toponímica errada, na medida em que o nome correcto era Largo das Oliveiras, e não praça.

[14] O espaço fronteiro à Casa Grande recebeu a designação de Largo do Visconde de Sá, e não de Praça do Visconde de Sá, que nunca existiu.

[15] Em 1997 propus que na placa toponímica do actual Largo de Frei Redento da Cruz constasse que anteriormente tivera a designação de antigo Largo das Oliveiras e antigo Largo do Visconde de Sá, apelo que renovei em 2004, fórmula para recordar as anteriores designações históricas do mesmo espaço toponímico.

[16] Tombo das Armas dos Reys e titulares e de todas as famílias nobres do reyno de Portugal, intitulado com o Nome de THESOURO DE NOBREZA Por Francisco Coelho Rey de Armas Índia, 1675, manuscrito depositado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

[17] As armas estão descritas incorrectamente: as armas desta família são, xadrezado de prata e de azul, de cinco peças em faixa – e não de seis peças – e seis em pala – e não de sete. Tal como estão no texto, com seis e sete peças do enxequetado são as armas diferenciadas que algumas famílias usaram, nomeadamente os Viscondes da Anadia e os Barões de Alverca.

[18] O redactor da notícia não era de certeza heraldista: o Visconde de Sá não poderia nunca usar o brasão de armas da família Sá na sua forma plena, limpas, direitas e inteiras, direito que somente caberia ao chefe da geração ou chefe de linhagem, donde para estar conforme a lei heráldica deveria usar um escudo partido ou composto com armas de outro apelido, ou ainda diferenciadas com alteração de cores do escudo, adição duma nova peça, ou ainda com o recurso ao uso das armas diferenciadas com um anel, crescente, estrela, farpão, letra, merleta, etc.

[19] Entre outros foram irmãos do Visconde de Sá: Fortunato Albino Veiga de Sá, nascido em Mozelos em 1813, alfaiate; Emílio José Veiga de Sá, nascido em Mozelos em 1817, empregado público; D. Francisca Seabra de Sá, nascida em Mozelos em 1819, proprietária; dos sobrinhos destacamos Francisco Bento de Sá (1846+1922), proprietário, industrial, administrador do concelho de Paredes de Coura, vereador municipal de Paredes de Coura, proprietário e fundador do jornal O LIBERTADOR DE COURA, secretário da Santa Casa da Misericórdia, etc; e Manuel António Barreiros de Sá, armeiro e vereador municipal de Paredes de Coura, ambos filhos daquele Emílio José.