VIAGEM AO FIM DA NOITE

Os 84 portugueses pensavam encontrar o paraíso em França: condenados por entrada ilegal – 100 francos de multa.

"ESGOTADO, COM OS PÉS GELADOS, O EMIGRANTE CLANDESTINO CAIU NUM PRECIPÍCIO

 

 

   

 

“Sete noites a andar...era preciso continuar com os homens, senão eles abandonavam-nos...nenhuma mulher aceitava a viagem se ela soubesse...era preciso ultrapassar montanhas, rios...caímos todos numa ribanceira, nem sei como não morremos”.

“Nós íamos de prisão em prisão, algemados, como se fossemos criminosos ou selvagens...”

“A neve não nos largava...demorámos um mês para chegar. Não sei como não morri”.

“Eu preferia morrer de fome em Portugal do que vir como vim. Se recomeçasse eu morria...quando já tinha passado a fronteira espanhola era capaz de voltar para traz se conhecesse o caminho; nem que perdesse o dinheiro da viagem...nunca permitirei a um filho meu vir desta maneira”.

“Eles queriam abandonar-nos no meio da neve. Eles podiam matar-nos. Estávamos perdidos, não salvámos nada. Encontrámos um português que estava doente, depois de 3 dias na montanha ele não podia engolir nada de tanta febre que tinha”.

“O passador tinha prometido que não andávamos mais a pé e nós andámos todo o tempo, 82 hora a pé...estava tão cansado. Trouxe uma camisa e uma camisola. Deixei tudo...tinha tanto sono que abandonei tudo...atravessei três rios...era preciso entrar na água...”

“Os animais vivos num vagão fechado eram clandestinos portugueses”

Jornal France Soir, 9 Fevereiro 1964

“A viagem de camião é pior que a marcha a pé...sempre tudo fechado, sem se poder respirar, sentia-me tão mal que até desejava ser preso para voltar para Portugal”.

Para chegar a França, 21 portugueses (entre os quais 5 mulheres, uma criança de 5 anos e 2 bebés) caminharam durante 27 dias.

 

A ROTA DA ESPERANÇA

 

“O Salto”. Eles transpõem “o grande passo”. Durante os últimos seis meses, todos os dias, eram cerca de trezentos que vinham juntar-se à colónia (portuguesa) em França, que conta já mais de quinhentas mil pessoas, e que decuplicou em dez anos, entre os quais 95% são “clandestinos”.

“Quase todas as noites, em grupos de vinte ou trinta, transpunham a pé o rio Bidassoa, a montante de Biriatou.” Diz um habitante da região: estas expedições nocturnas revestiam-se de muitos perigos. No hospital de Bayonne, foram muitas vezes tratados portugueses, vítimas de quedas ou do frio da montanha. Alguns morreram durante a viagem. Alguns “passadores” aproveitavam-se da situação para espoliar  e saquear os clientes.

Foi o caso de três portugueses, encontrados esganados e um outro chicoteado até à morte. Algumas sepulturas anónimas de cemitérios do País Basco espanhol, testemunham estas atrocidades: “mortos em fraude”...e a preço alto. Com efeito, há cinco anos, uma “passagem” custava em média 2000 Francos. Vários anos de economias.

Francis CORNU

Le Monde, 2 / 9 / 1970

-------------------------------

1970

O ANO DE TODOS OS RECORDS

 

1970:

135.000 portugueses entram em França.

110.000 não têm documentos.

47.000 são mulheres e crianças.

 

“A emigração estrangeira atinge um novo record em 1970: 2 emigrantes em cada 5 são portugueses”.

Jornal La Croix, 28 Março 1970