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Miguel
Monteiro |
A VIAGEM
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Os principais portos usados pela
emigração portuguesa eram os das cidades de Lisboa, no rio Tejo e do
Porto, no
Rio Douro. Nos finais do século XIX é
construído o porto de Leixões, na
actual cidade de Matosinhos, distrito Porto.
Até à década de cinquenta a viagem
era feita em barco à vela, demorando cerca de 50
dias, para chegar ao Rio de Janeiro.
A partir de 1851, usando o vapor,
esta viagem passou a demorar apenas cerca de 24 dias.
Se o vapor não fizesse qualquer escala,
a viagem poderia fazer-se em 15 dias, de Lisboa ao Rio de Janeiro.
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A emigração, na primeira metade do século XIX, estava limitada aos que
podiam suportar o financiamento da viagem, cujo valor global era
aproximadamente de 33$415 réis, tendo sido este o custo da viagem
realizada em realizada em 1783, por João Pereira.
Constituiriam despesas de viagem, aquelas que foram
feitas em 1783, na cidade do Porto, com João Pereira, filho de
Inácio Pereira, por seu compadre Domingos Lopes, no embarque para o Rio de
Janeiro, no Navio Madre de Deus que saiu no dia 13 de Maio de 1783:
para o Contra Mestre, 24$000; uma caixa de madeira e fechadura,
$870; vir com tudo, 3$220; dois queijos, $655; colmo $85 e sabão $35,
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tudo $120; serapilheira para o enxergão, $250; uma manta, 1$260;
com barcos que conduziriam a caixa ao navio e ir lá algumas
vezes, $850; dinheiro dado ao João, para gastos, $600; três
regueifas (pão de trigo, $210; duas macetas de marmelada, $280;
meio cento de laranjas, $400; dois frascos, $180; vinho e
aguardente para os encher, 395; seis lancetas, $310; com o
galego para ir buscar a caixa e levá-la ao barco, $080; com
despesas da caixa na Alfandega, $180. Totalizam as
despesas, 33$590 réis, sendo acrescidos à conta $175 réis de
despesas, totalizando 33$415 réis. (Doc. arquivo privado - museu) |
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Para se entender a dimensão relativa desta importância, apresentamos
como referência a "jorna" ou jeira" salário
diário de um trabalhador rural
no
valor de $160 réis, sendo necessários cerca de 208
dias de trabalho para financiar a viagem para o Brasil.
Assim, se hoje o mesmo trabalho diário corresponder, no mesmo
contexto, a cerca de 40 Euros, o custo da viagem rondaria
os 8 320 euros.
Face às despesas da viagem, estamos perante um impedimento da emigração
generalizada, o que explica a emigração clandestina e a selectividade da
emigração aos que tinham capital disponível ou a possibilidade de
recorrer ao crédito.
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Ao mesmo tempo, o capital social de que estes proprietários
rurais
dispunham em Portugal, constituía-se como bastante para legitimar o
cumprimento de obrigações implicitamente estabelecidas e
inscreviam-se em valores próprios de origem: seriedade, honra e
palavra e davam sentido à forma como eram acolhidos e bem recebidos
no Brasil.
Estes valores eram inscritos em referências de legitimação social e familiar, tais como, o compadrio
e o apadrinhamento, reforçados nos laços de
parentesco, ainda que afastado, explicando-se, deste modo, muitos dos
casamentos entre "primos".
Segundo o relato autobiográfico de Leite Lage,
a viagem
do Porto para o Rio de Janeiro,
em 1827, demoraria cerca de 60 dias, incluindo os percalços
decorrentes dos ataques dos corsários.
Quase todos, à chegada ao Rio de Janeiro ou a outros portos
brasileiros, eram acolhidos por um parente ou vizinho instalado no
Brasil, que promovia a sua integração nas actividades
comerciais de destino, principalmente como caixeiros, para quem
levavam uma "carta de recomendação", como nos relata a
autobiografia referida.
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«O maior
desenvolvimento industrial dos Estados Unidos da América e dos
países setentrionais da Europa, assim como a importância, na
altura, das trocas comerciais com as ilhas do mar das Caraíbas,
fizeram convergir as atenções para as rotas do Norte, para aí se
estabelecerem naturalmente as primeiras carreiras
transatlânticas a vapor.
Só
passada mais de uma década as carreiras se estenderam para Sul,
ligando o velho continente com os vastos países da região, dos
quais se destaca o império brasileiros, de extensa costa e
imensas riquezas.
(...)
A Grã-Bretanha, velha aliada de Portugal, com interesses
crescente no Brasil, para onde navegavam os seus Paquetes
Correios Marítimos desde os começos do séc.XIX, foi a primeira
potencia europeia capaz de estabelecer com êxito, logo a partir
de 1851, careiras a vapor para América do sul.
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Na capital
portuguesa verifica-se com aquela região um intenso tráfego de
passageiros, mercadorias e, evidentemente de correspondências
postais.
(...)
Foram ao todo vinte e cinco as Companhias de Navegação a
estabelecerem carreiras de vapores para o Brasil, com escala por
Portugal, desde 1851 a 1877. (...) No tocante à América do Sul,
houve uma verdadeira corrida, por parte das empresas europeias,
ao lançamento de linhas até ao Brasil e Rio da Prata,»
(cf. Armando Mário Vieira)
tendo partido cerca de vinte vapores por mês, com destino ao
Brasil.
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As embarcações a vapor tinham
apenas três classes. A terceira classe era destinada ao emigrante que
fazia a primeira viagem. De 1920 em diante, muitos vapores ou paquetes,
como eram designados, passaram a dispor de de quatro classes: as três
primeiras possuíam cabines e, a última era reservada aos emigrantes,
onde vinham amontoados, em porões abafados, mal iluminados, e geralmente
superlotados, onde eram evidentes as más condições de higiene.
Muitas leis foram publicadas
obrigando a que os vapores dispusessem de certas condições para as viagens.
Contudo, raramente aquelas obrigações eram cumpridas
pelos armadores e capitães de navio.
No final do século XIX, os
principais portos de desembarque no Brasil eram os portos do Rio de
Janeiro e o de Santos, no Estado de São Paulo. Os Emigrantes que
entravam pelo Rio de Janeiro eram alojados na Hospedaria da Ilha das
Flores. Os que aportavam a Santos ficavam na cidade ou iam directamente
para os destinos, sendo na maior parte dos casos recebidos por parentes
ou familiares que os acolhiam à chegada.
Com a inauguração do Caminho de
Ferro, em 1867, que ligava Santos à jundiaí, passando por São Paulo, o
transporte passou a fazer-se de trem, até à capital, desembarcando os
emigrantes na Hospedaria dos Emigrantes, no Brás, onde aguardavam
destino.
A grande maioria dos emigrantes
portugueses não se alojava na hospedaria, por serem acolhidos, por
parentes, à chegado ao porto de Santos.
Segundo o relato autobiográfico de Leite Lage,
a viagem
do Porto para o Rio de Janeiro,
em 1827, demorou cerca de 60 dias, incluindo os percalços
decorrentes dos ataques dos corsários.
Quase todos, à chegada ao Rio de Janeiro ou a outros portos
brasileiros, eram acolhidos por um parente ou vizinho instalado no
Brasil, que promovia a sua integração nas actividades
comerciais de destino, principalmente como caixeiros, para quem
levavam uma "carta de recomendação", como nos relata a
autobiografia referida .
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