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Testamento cerrado do Senhor Português, António Joaquim Gomes da Cunha, falecido em Paris aos vinte e um dias do mês de Dezembro do ano de mil oito centos e noventa e três.
Acções do Banco Lusitano e em dinheiro corrente, tenham por minha morte uma justa e proveitosa aplicação, determino que deduzidas as despesas de meu enterro, legados e mais encargos o líquido ou remanescente de todos os meus bens presentes e futuros, seja qual for a sua natureza ou espécie, sejam averbados ou transferidos, em nome das instituições de instrução e caridade que abaixo designo, que todas subsistirão com o dístico a fachada, Escola A. J. Gomes da Cunha, da Casa do Souto.
Que no lugar de Gondarém freguesia de S. Nicolau, concelho de Cabeceiras de Basto, se compre o terreno necessário junto ou separado, para edificar casas suficientes para estabelecer duas escolas de instrução primária, uma para o sexo masculino, outra para o sexo feminino, onde serão admitidas todas as crianças do lugar de Gondarém, e igualmente todas as do resto da freguesia, porém quanto a estas se não houver espaço suficiente, nessa casa serão preferidas as pobres, mas sem prejuízo dos de Gondarém, nestas escolas será administrada a instrução por Professor ou Professora legalmente habilitado, escolhido por meio de concurso documental, preferindo-se os que tiverem curso completo das Escolas Normais e em igualdade de circunstâncias os que forem casados, devendo o ensino ser administrado sem distinção de crenças religiosas, que devem ser privativas das famílias, e com a parte complementar da moralidade.
Estas escolas regular-se-ão no que for compatível com os programas do ensino oficial.
Determino que contíguo à duas escolas acima mencionadas ou separado delas se assim o entenderem, mas nunca fora do lugar de Gondarém, se construa um outro edifício para uma escola Industrial e Agrícola onde se ensine os elementos indispensáveis à vida prática dos que quiserem seguir as carreiras do Comércio ou agrícola, na fachada se porá o dístico, “Escola industrial, Comercial e Agrícola de A. J. Gomes da Cunha da Casa do Souto”.
Outro ... ... determino
que se depois de fundadas e mantidas nas condições exaradas as referidas
escolas restarem bens suficientes, se funde com elas um posto médico e
uma botica para os pobres da freguesia de S. Nicolau e sendo possível um
hospital nas condições e local já referido. Determino que se compre no cemitério ocidental dos Prazeres desta cidade o chão para construir um jazigo em forma de capela, onde se porá e gravará o meu nome, e onde desejo ser enterrado ou sepultado; se morrer no estrangeiro ou em qualquer parte de Portugal o meu corpo será embalsamado e conduzido a esta cidade, o meu enterro será de 1ª classe feito em Lisboa.
Para a conservação de meu mausoléu, encarrego a Câmara Municipal de Lisboa, a quem deixo em compensação duas inscrições de cem mil Reis cada uma, valor nominal, que peço-lhe me aceite.
= rubricado Eça de Queirós.
Deixo a meu primo D Bernardino Alves de Carvalho e Barros a quantia de cem mil Reis, como prova de amizade para cumprir uma lembrança.
Para dar exacto cumprimento as instituições de beneficência acima criadas nomeio a Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, a quem peço olhe com zelo paternal pela prosperidade delas; e na sua falta uma comissão de três ... ... nomeados pelo Juiz da respectiva comarca de Cabeceiras de Basto com audiência de curador dos órfãos.
Determino que todos os
legados, que por qualquer motivo não sejam cumpridos, reverterão em
favor das instituições de beneficência acima criadas.
Compareceu José Maria d’Eça de Queirós, Cônsul de Portugal em Paris, comigo Constantino Domingues, empregado do Consulado, servindo de escrivão, afim de proceder à aposição de selos, nas malas e papéis do falecido, e depois de convocar o Comissário de Polícia do bairro o
Foram encontrados os
objectos seguintes representando o espólio do defunto. 1º Um testamento cerrado trazendo a seguinte subscrição escrita e assinada pelo defunto: Testamento do Ex.mº António Joaquim Gomes da Cunha, aprovado nesta cidade de Lisboa aos sete de Maio de mil oitocentos e setenta e sete, ... ... feito, assinado = (ilisível?) - 2º Seis notas do Banco de França, de cem francos cada uma: são seiscentos francos (600) – 3º Onze Libras esterlinas em ouro – 4º em prata francesa dez francos – 5º uma moeda brasileira de níquel de cem reis e vinte e cinco cêntimos em bronze franceses – 6º um relógio de ouro nº 94184 – 7º uma corrente de ouro com um lápis (dito?) – 8º Um par de botões de punho de ouro – 9º Um par de botões, dito, feito com moedas portuguesas de ouro – 10º Um anel de ouro com pedra jahade gravada – 11º Um binóculo quebrado de ouro – 12º Uma malinha contendo numeradas cartas e papéis de comércio – 13º Duas malas com roupa de uso – 14º Uma chapeleira, e mais nada continha o dito espólio.
E para constar lavrei este termo que depois de lido, perante todos, vai por todos assinado comigo José Maria d’Eça de Queirós e eu Constantino Domingues que o escrevi. O Cônsul – J. M. D’Eça de Queirós – Selo do Consulado, = R. Michel = Jean Ducourneau = C. Domingues.
... palavra ligeiramente ... ... ... que diz =falta=. E sendo-nos esta apresentação assim feita pelo modo que a lei ordena, e praticadas em acto contínuo todas as formalidades determinadas na mesma lei, de cujo cumprimento dou minha fé, lhe aprovo, e hei por aprovado este seu testamento, para que produza todos os seus efeitos, digo todos os seus devidos e legais efeitos, para constar logo em seguida ao mesmo , lavrei o presente acto, sendo testemunhas presentes a todo o conteúdo nele declarado os Srs. Manuel José Pereira de Araújo, casado, proprietário, morador na rua de S. Vicente à Guia nº 22, Francisco José Talaia, casado, caixeiro de comércio, morador na rua na rua do Corrião nº50 – Manuel Pereira, casado, marceneiro, morador na rua de S. José nº 104 – e António José Pereira de Araújo, casado, proprietário, morador na rua do Ferreirinho nº 67, todos maiores e Portugueses, os quais com ele ... ... aqui vão assinar depois deste lhes ser lido por mim ... ... ..., digo lido em voz alta por mim Tabelião, porque ele testado? O não quis ler. Adiante (rubricado – E. De Queiroz) – será pago por estampilha o imposto de selo de quinhentos Reis.
E eu José Maria de Barcelos, tabelião, escrivão de notas, o escrevi sem interrupção e vou assinar em P.M. Em testemunha da verdade = José Maria Barcelos - António Joaquim Gomes da Cunha – Manuel José Pereira de Araújo – António de Oliveira e Sousa – Francisco José Talaia – Manuel Pereira – António José Pereira de Araújo – Selo de 500 reis, assina José Maria de Barcelos, em testemunha da verdade = José Maria de Barcelos.
Feito em Paris aos 22
de Dezembro de 1893 – O Cônsul – J. M. d’Eça de Queirós – E tendo o dito
Juiz de Paz, Charles Jerôme Perrin exigido que fosse feita uma tradução
deste Termo em língua Francesa, para que ele o pudesse assinar em pleno
conhecimento, e fazendo as testemunhas a mesma exigência que julguei
justificada, passei a repetir o dito Termo em língua Francesa.
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Documento Cedido a este
Museu Por
José Ferreira Francisco de Assis
Dactilografado por Agostinho F. VAZ |