Miguel Monteiro

 

SEMINÁRIO INTERNACIONAL

MEMÓRIAS E MIGRAÇÕES

Museus, Educação, Diversidades e Direitos Humanos

FAFE: 5-8/Julho/2007

 

Organização

 

(M.F.) Município de Fafe (José Ribeiro, Antero Barbosa Fernandes)

(MEC) Museu da Emigração e das Comunidades (Miguel Monteiro, Maria Beatriz Rocha-Trindade)

(UNESC) Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, (Paul de Guchteneire)

(F.C.R.B) Fundação Casa de Rui Barbosa - Rio de Janeiro (Ana Pessoa)

(F.A.P.F) Federação das Associações Portuguesas de França  (José Maria da Silva, José Machado)

(I.E.S.F) Instituto de Estudos Superiores de Fafe (Dulce Noronha e Natália Fonseca)

 

Criação de uma rede internacional de museus das migrações

2007 será marcado pela abertura e pela inauguração de numerosos museus das migrações na Europa. Após os exemplos dos Estados Unidos (com Ellis Island), da Austrália e do Canadá, é a vez dos países europeus de criarem este ano estes lugares de encontro, de passagem entre terra de origem e terra de acolhimento, de transmissão entre gerações, para contribuir para a criação de uma identidade múltipla, individual e colectiva.

 O objectivo a alcançar pelos vários países é comum:

· Reconhecer o contributo dado à Nação pelas diferentes vagas de imigrações,

· Incluir e integrar, favorecendo o sentimento de pertença com um elemento federativo

· Sensibilizar o país de acolhimento e desconstruir os estereótipos da imigração.

Porque tais iniciativas podem favorecer a integração dos migrantes, a diversidade cultural e o diálogo, a UNESCO e a Organização Internacional das Migrações (OIM) decidiram apoiar esta dinâmica, facilitando os intercâmbios de experiências, de recursos, de conteúdos e, a prazo, de colecções entre uma vintena de países no mundo.

Se a organização de um primeiro encontro de peritos na Comissão italiana para a UNESCO em Roma em Outubro de 2006 permitiu a uma quinzena de directores de museus das migrações encontrarem-se pela primeira vez, um sítio na Internet dedicado ao tema e um fórum electrónico acabam de ser lançados pela UNESCO para facilitar as trocas, e uma proposta de projecto formulada para actividades de terreno.

O Museu da Emigração e das Comunidades, Fafe (Portugal), desempenha um papel de líder nesta rede internacional dos museus das migrações, devido não só à importância histórica das migrações para Portugal e às trocas concretas com os nossos parceiros brasileiros e franceses, mas também ao dinamismo que caracteriza este museu.

Pôr em prática a proposta de projecto com o lançamento de actividades de terreno constituirá a próxima etapa. Também existirão actividades de comunicação, nomeadamente com a publicação de um número especial da Revista MUSEUM INTERNACIONAL da UNESCO em Maio, o dia mundial da diversidade cultural a 21 de Maio e a inauguração da Cidade da história da imigração em França.

De 5 a 9 de Julho, a OIM e a UNESCO participarão activamente no Seminário Internacional organizado em Fafe pelo Museu da Emigração e das Comunidades sob o tema Memórias e Migrações, acontecimento que patrocinam.

unesco 

Paul de Guchteneire

 Carine Rouah

MENSAGEM

É com grande satisfação que a Fundação Casa de Rui Barbosa integra a comissão organizadora desse 1o. seminário Memórias e Migrações – Museu, História, Educação e Diversidades e Direitos Humanos, promovido pelo Museu da Emigração e das Comunidades e a Municipalidade de Fafe.

O elo inaugural da cooperação entre a Fundação e o Museu é o interesse comum pela figura do Comendador Albino de Oliveira Guimarães. Centro de pesquisa e documentação, vinculado ao Ministério da Cultura, a Fundação está instalada em propriedade que pertenceu ao Comendador, em meados do século XIX, antes de ser adquirida por Rui Barbosa, advogado e político, em cuja homenagem foi instituído um museu-casa, hoje patrimônio cultural brasileiro.

Por meio do estudo compartilhado da trajetória desse comerciante, está sendo possível às duas instituições percorrer as trilhas da cultural luso-brasileira formada pelas ondas emigratórias, para reunir a dimensão humana e singular a aspectos do fenômeno coletivo, e estabelecer renovadas perspectivas sobre os processos culturais transnacionais.

Essa colaboração se inscreve também no quadro de incentivos ao intercâmbio entre instituições brasileiras e portuguesas de pesquisa, ao qual essa iniciativa vem fortalecer.

Ana Pessoa

Fundação Casa de Rui Barbosa

Rio de Janeiro

MENSAGEM

Memórias e Migrações: Quadro Disciplinar de Abordagem

 

A História económica, social e cultural, associada às migrações, constitui hoje uma das mais amplas formas de conhecimento do ser humana.

A amplitude, riqueza e particularidades do fenómeno, decorrentes da dimensão quantitativa das movimentações humanos e da qualitativa que é visível nas biografias, bem como no que é a história particular de carácter local e regional, constitui uma das centralidades mais vincadas da inquietação científica dos nossos dias, nas quais se inscreveram as expressões maiores da vivência humana.

As grandezas e tragédias vivenciadas nos territórios de saída e de destino, onde se experimentou a ruptura e o sofrimento; violando, muitas vezes, os Direitos Humanos, promoveram, pela transformação, o cruzamento de culturas e definiram a perspectiva da Historia Moderna e Contemporânea, marcando forte e positivamente o presente na sua visibilidade material e simbólica.

A sociologia e a antropologia têm dado contributos significativos para o estudo das migrações, face à grande complexidade do fenómeno da mobilidade humana, bem como no que ela tem de significativo na interacção social e cultural, e a educação procura abordagens do ensino da multiculturalidade para o diálogo intercultural.

Os museus e arquivos, como lugares de estudo, preservação e defesa da memória histórica e social, possibilitam a valorização da identidade cultural dos que são migrantes, procurando novos sentidos e perspectivas.

Por fim, a conjugação entre a ciência e as novas tecnologias permite novas abordagens ao fenómeno das migrações, articulando conteúdos, métodos e procedimentos, nomeadamente pela sua aplicação a grandes volumes de informação e pela sua utilização nos domínios das técnicas da comunicação em web.

 

Coordenador do Museu da Emigração e das Comunidades

Coordenador Geral do Seminário Internacional

Miguel Monteiro

 

 

MENSAGEM

RAZÕES HISTÓRICAS PARA UM MUSEU DA EMIGRAÇÃO E DAS COMUNIDADES E PARA A ORGANIZAÇÃO DE UM SEMINÁRIO INTERNACIONAL EM FAFE

 

O Brasil, na segunda metade do século XVIII e durante o século XIX foi o lugar propício para a acumulação de fortuna e o laboratório para o que veio a ser a ampliação de pequenos e modestos Solares do Minho, a construção das novas vilas e a ampliação das cidades.

Em Portugal, mas com particular destaque para as cidades do Norte do país, permanecem vivas inúmeras evidências materiais e simbólicas da emigração para o Brasil. Tais evidências são a consequência visível dos investimentos feitos pelos "Brasileiros" em tempo de "vai e torna", ou no seu regresso definitivo, principalmente dos que emigraram a partir da década de vinte do século XIX.

O Norte de Portugal é, assim, um local privilegiado para observar as representações desse fenómeno, particularmente, porque com os primeiros lucros do Brasil, o emigrante de sucesso, regressava à terra para ampliar a casa mãe ou construir uma nova e  “cobrir de arrecadas as irmãs queridas e a continuar, aqui, a vida laboriosa que nas terras do Brasil foi a sua glória”.[1] 

Dos que emigraram no século XIX predominavam os filhos de proprietários e agricultores, constituindo a classe média e média alta do Minho, solteiros, menores de 14 anos de idade e alfabetizados, regressando, muitos deles, definitivamente para se instalarem na terra natal, na vila ou cidade mais próxima, ou no Porto e em Lisboa.

Estes emigrantes de retorno, ao participarem no processo de desenvolvimento local com iniciativas de carácter individual ou de grupo e ainda, ao integrarem-se na vida das instituições públicas e particulares, denotam comportamentos sociais de afirmação e confirmação de lideranças, através das quais se distinguem e afirmam como parte integrante da burguesia, necessária ao processo de afirmação de uma vivência urbana, liberal e capitalista.

Os que os viram partir reconheceram  os efeitos de uma dinâmica económica nova e de uma abundância estranha aos homens do Norte de Portugal e, ainda segundo António Figueirinhas, foi ”ele quem faz arrotear os montes, agricultar os campos, podar as vinhas, levantar as elegantes ramadas. [...] Promovendo o progresso agrícola, dando nas suas quintas o exemplo da cultura inteligente, espalhando dinheiro a juro, não só beneficia as populações com seu exemplo e com seu labor, como exerce uma importantíssima função económica suprindo a falta de estabelecimentos de crédito.”[2]

Depois de uma longa estadia no Brasil, regressavam com sucesso: eram filhos de proprietários, que confirmam, reproduzem e reforçam os estatutos sociais dos ascendentes, deslocando-se para a Vila onde são chamados de Barões, Condes, Viscondes e mais vulgarmente de Comendadores. 

No entanto, a representação mais evidente do “Brasileiro” ficou particularmente marcada na paisagem arquitectónica das cidades, vilas e aldeias do Norte de Portugal,  dado que, no século XIX, foi a época em que se verificou o retorno do emigrante português enriquecido no Brasil, sendo especialmente visiveis em Fafe as expressões da sua presença.

Este retorno reflectiu-se na arquitectura, no urbanismo e na industrialização do país, provocando a aceleração da actividade comercial, afirmando-se o “Brasileiro” e seus descendentes como constituintes de uma classe burguesa que se envolve activamente na vida pública em tempo de transformação de regime.  

Os "Brasileiros de Torna-Viagem" são os edificadores de palácios, casas apalaçadas, palacetes e possuidores de um espírito filantrópico que os leva à construção de edificações cívicas: Hospitais, Asilos, Escolas, Igrejas, Passeios Públicos, Teatros.

A casa do “Brasileiro” de “Torna - Viagem” constituiu uma das representações mais evidentes do retorno, quer na estrutura e fachada das edificações, quer nas novas demarcações internas, dividindo espaços e pessoas, evidenciando novas hierarquias e novas fronteiras sociais.

Nas fachadas dos Hospitais, Asilos, Escolas encontramos ainda o nome dos que os instituíram e nos bustos, o rosto da filantropia benemérita ao serviço da instrução e da pobreza como actos com sentidos de distinção individual e vínculos às origens, com raízes no princípio maçom de auxilio mutuo.

Nos cemitérios poderá ver-se aqueles que optaram por mandar fazer uma capela de granito fino ou escolheram uma elegante coluna para implantar o seus busto e detectar o sentido ideológico das suas vidas: católico, ateu e maçom.

Nos teatros que mandaram fazer mesmo nos centro das vilas, exibiram o seu gosto pelas artes e o desejo de promover-se e promover a cultura, completando, na época, os elementos de cultura necessária a este grupo social formado de emigrantes do Brasil, que  se  destacou do conjunto da população rural local.

A imprensa local e regional da época dá, por todo o lado, notícia das obras filantrópicas que o “Brasileiro” ia promovendo, das ideias que defendiam e do partido que tomavam no tempo em que a queda de um governo era vivido como uma revolução.

Na construção das primeiras indústrias a Vapor, desenha o que veio a ser o tecido industrial português da região do Norte de Portugal, particularmente nas fábricas têxteis do Ave, Vizela e Porto, as quais se afirmaram como grandes centralidades sociais de gente que se arrumou em bairros operários em pobrezas prolongadas até à década de sessenta do século XX.

Na segunda metade do século XIX, as vilas ganham uma acrescida importância, iniciando uma configuração urbana marcada pela abertura de novas ruas e praças, bem como pela disposição e modelos das novas edificações.

As vilas receberam as novas elites que davam sentido aos novos ideários políticos e os “Brasileiros” aí estavam a ocupar os lugares públicos que foram dos seus ascendentes, agora reforçados por constituições, códigos, decretos e deliberações municipais.

A estruturação e o desenvolvimento urbano estão intimamente ligados, quer à implantação do liberalismo, quer à República, dado que o capitalismo liberal facilitou a acumulação e circulação de recursos financeiros disponíveis.

Os recursos financeiros dos capitalistas tomam, nas vilas, importância peculiar por se constituírem, quase exclusivamente, de capitais dos “Brasileiros de torna-viagem” como o actor instruído de um Portugal moderno, das viagens e do contacto com o mundo, sendo o Brasil cosmopolita o centro da aprendizagem para jovens saídos de um país pequeno e rural. 

Os sinais de retorno de sucesso e as marcas expressas nas novas formas de capital social, cultural e simbólico, fazem dele o centro da paisagem social, promovendo a chegada do Comboio à Vila, a ampliação da praça principal, a instalação da energia eléctrica e, finalmente o telegrafo que o ligava ao mundo.

Podemos ver os "Torna-Viagem" na liderança das primeiras agremiações de interesse social, nomeadamente nas confrarias e nas Irmandades da terra. No Clube, discutiam as últimas novidades chegadas da Europa e o calor da política incendiava paixões com raiz nos ideários liberais maçónicos e se fazia política, tecendo estratégias de poder.

Aí se forjavam sentidos de descendência, na colocação em lugares na administração pública, para gente que vivia de rendimentos e que fazia das cidade de Lisboa e do Porto o lugar de eleição para demoradas estadias, instalados em hotéis ou procurava a sua residência definitiva.

Uma personagem que circulou num tempo que ainda se expressa amarelecido em postais com remetente de várias regiões do Brasil, que testemunham a vida de homens viajados e cultos. 

A cidade era assim o lugar privilegiado para o retorno dos que possuíam projectos de investimento comercial e continuação de urbanidade, sendo a sua figura o referente de uma nova existência social e simbólica, a qual lhe oferece o estatuto correspondente a uma nova vivência económica. Lugares privilegiados para a construção da casa do “Brasileiro” foram as Vilas Novas, sedes da nova administração liberal, localizadas em sítio de passagem e circulação, que tinham a sua matriz fundadora em lugares de feira ou cruzamento de vias.

Aqui os novos modelos arquitectónicos e o empenhamento na vida política, reflectido nos acesos combates entre progressistas e regeneradores, testemunhados na imprensa local, são sinais de retorno de sucesso e marcas de novas formas de capital social, cultural e simbólico, que faz dos “Brasileiros” o centro da paisagem, reflectida na vivência de frequentadores de casinos, praias, termas, cafés e teatros, como homens que fazem do ócio a expressão de um novo estatuto social.

A república municipalista estimulou a acção e a iniciativa dos cidadãos para a participação autárquica e a promoção de iniciativas cívicas, continuando o processo de desenvolvimento liberal “o elixir da fortuna a remoça deveras; as construções particulares aí estão em abundância para o comprovar, tanto mais que se lê o sorriso da abastança alegre, que deve animar a fisionomia dos seus proprietários» (Vieira:1886, 567).

 

Director do Museu da Emigração e das Comunidades

Coordenador Geral do Seminário Internacional

Miguel Monteiro

 

MENSAGEM

Fafe, Paços do Concelho, 18 de Abril de 2007

José Ribeiro

Portugal é um país estruturalmente ligado à emigração. Entre 1834 e 1919 emigraram cerca de um milhão e trezentos mil portugueses. Como dado ilustrativo em 1970 emigraram 135 mil portugueses para França, constituindo esta comunidade na mesma década a primeira comunidade estrangeira em França estimada em 860 000 pessoas. Em 1999 os portugueses no estrangeiro somavam 4 806 353, repartidos pelos cinco Continentes.

A cidade e o concelho de Fafe estiveram ligados a este fenómeno da emigração, uma vez que participou deste movimento migratório, tal como aconteceu noutras localidades do país, particularmente no Norte.

Conscientes da importância do fenómeno e verificando que a nível Nacional não existe qualquer projecto que realce o papel destes homens e mulheres que contribuíram significativamente para o desenvolvimento do país, decidimos avançar com um projecto que tornasse visível o seu papel na transformação da sociedade portuguesa, com evidentes efeitos nas famílias e nas comunidades, tornando-se transversal a todo o território.

Em 2001, por deliberação municipal, demos corpo ao projecto de criar um museu -  “Museu da Emigração: Comunidades e Luso-Descendentes”, genericamente designado por “Museu da Emigração e das Comunidades”, baseado no princípio estratégico de que o futuro das localidades e o bem estar social assentam no conhecimento da História, na valorização do património material e simbólico pelas comunidades e na assunção da identidade social e cultural pelos cidadãos.

Este território local, tal como a maioria dos territórios periféricos, apresenta uma identidade à qual pretendemos dar sentido e valor.

 É essa IDENTIDADE própria que procuramos construir, numa dimensão social da história que é hoje assumida com sentidos de futuro e se constitui, simultaneamente, como um indicador estratégico para o desenvolvimento.

Neste âmbito de acção, o município iniciou a valorização da cidade ao identificar, estudar e proteger o que de substancial temos em relação à sua cultura material, na qual assenta a sua história.

Detectamos que a nossa cidade se afirma como paradigma para o estudo da História de Portugal, sendo possível revisitar aqui todas as dimensões de estudo do Século XIX, a partir da figura do emigrante e da valorização da emigração.

Foram os emigrantes do século XIX os edificadores de palácios, casas apalaçadas, palacetes, teatros, definindo um padrão arquitectónico que hoje é objecto de interesse académico.

Promoveram por outro lado o desenvolvimento do Município, investindo nas primeiras indústrias do concelho e ofereceram à comunidade o Jardim Público, o Hospital, Asilos e Escolas.

Estiveram envolvidos, como vereadores, nas principais iniciativas de transformação e modernização da actual cidade, promovendo a chegada do Comboio e a edificação da Central hidroeléctrica.

Como homens viajados empenharam-se na divulgação das ideias, financiando os jornais da cidade e a então muito polémica construção dos cemitérios. 

Fafe é, pois, um lugar particular para se estudar o século XIX, havendo já projectos de salvaguarda, conservação e reabilitação para todos estes espaços da História e da Cultura Nacional.

Através do MUSEU DA EMIGRAÇÃO E DAS COMUNIDADES, como mecanismo conceptual de articulação, é nossa intenção dar corpo a este ambicioso projecto.

Nessa medida, promoveremos a criação de Núcleos e Sítios ligados à Emigração e ao Retorno” e o Centro Internacional de Estudo da Mobilidade Humana, com apoio técnico e científico da UNESCO.

 

Este apoio, definido no Encontro de Peritos sobre Museus de Emigração que ocorreu em Outubro de 2006, em Roma, onde estiveram presentes o coordenador do Museu da Emigração e das Comunidades, Miguel Monteiro e a Professor Doutor Maria Beatriz Rocha-Trindade, Consultora Científica do Museu, em representação do Município, insere-se numa rede de protocolos de apoio, estudo e divulgação que agrega já centros de estudo e universidades a nível nacional e internacional.

Fafe, Paços do Concelho, 18 de Abril de 2007

José Ribeiro

Presidente da Câmara Municipal de Fafe

MENSAGEM

MUSEUS DE MIGRAÇÕES

O Museu Português da Emigração e do Retorno

 

A recente implementação de numerosos museus que têm como principal interesse as migrações, adoptadas como o fio condutor da constituição dos respectivos acervos e inspiradoras das acções de animação que se desenvolvem no seio dos respectivos espaços, traduz a importância que cada vez mais é atribuída, nos quatro cantos do Mundo, aos fenómenos migratórios.

Assumindo-se como Museus da Emigração, em países que foram (ou são ainda) emissores de fluxos migratórios, ou como Museus de Imigração, para aqueles essencialmente receptores, encontram-se hoje tais instituições na Suécia, na Finlândia, na Itália, na Alemanha, em São Marino, em Portugal; em França, na Austrália, nos Estados Unidos da América, no Canadá ou no Brasil, sem que estas enumerações tenham carácter exaustivo.

Nessa perspectiva, constitui pano de fundo da «narrativa» que estes museus propõem ao seu público a análise das inúmeras formas que pode revestir a mobilidade humana: mostrando os itinerários traçados entre espaços de origem (na partida e no regresso) e os que foram procurados como destinos; as formas e os diversos processos pelos quais tal mobilidade se concretizou; os actores migrantes e as suas histórias de vida, em parte influenciadas pelas determinantes estruturais de cada um dos espaços envolvidos, embora também pelas conjunturas de cada local e de cada momento histórico.

É este percurso complexo que visam ilustrar e fazer conhecer, iluminando o caminho do visitante por entre os meandros das expectativas e das decisões individuais e as consequências decorrentes das tendências colectivas que enformam os distintos fluxos migratórios, em cada país e em cada época.

Mas afinal, o que procura um museu desta natureza — um Museu de Migrações —  qual a sua arquitectura conceptual e quais os fins que essencialmente prossegue?

Sem qualquer dúvida, registar factos que, por relevantes, a memória seleccionou e há que fazer perdurar; organizar os documentos que os situam e caracterizam; apresentar, em benefício de um público-alvo previamente definido, objectos que se considerem significativos, tanto os de utilização quotidiana como os utilizados em momentos especiais e cuja existência ajuda a recriar ambientes, a situar celebrações, a reconstituir rituais e a dinamizar as recordações do vivido.

Para além de documentos e de objectos, têm presença indispensável as imagens, fixas ou animadas, que ajudam a visualizar tempos passados e a melhor entender contextos e ambientes. Todos estes componentes do acervo museal podem hoje, graças aos progressos das tecnologias de comunicação e de processamento de dados, assumir forma digital, não só tornando acessível a quaisquer distâncias a informação neles contida, como permitindo formas sofisticadas de manuseio interactivo dos correspondentes conteúdos.

Obedece a esta lógica o Museu Português da Emigração e do Retorno, sedeado em Fafe. A uma implantação física poli-nuclear, instalada em edifícios e espaços da cidade e acessíveis aos visitantes, associa-se a vertente «virtual» do Museu, organizada em «salas» temáticas (www.museu-emigrantes.org ) e dotada de um sistema de navegação claro, apelativo e eficaz.

É esta componente do Museu a que melhor serve a sua vocação de colheita de documentos provenientes de qualquer ponto do Globo, bem como a dinâmica da sua indispensável actividade de pesquisa, levada a cabo pelo Centro de Investigação do Museu e partilhada entre investigadores residentes e os numerosos investigadores associados, residentes em diversos países, que com ele colaboram.

De facto, esta rede de pesquisa, centrada em Portugal e articulada com numerosos países connosco relacionados por serem destinos clássicos da nossa emigração, possibilita o cruzamento das perspectivas, das percepções e dos conhecimentos provindos de cada um deste pólos de migração, contribuindo para o enriquecimento do espólio, das competências  e das actividades do Museu.

Prof. Doutor Maria Beatriz Rocha-Trindade

Consultora Científica do Museu da Emigração e das Comunidades

Coordenação Científica do Seminário Internacional

Abril de 2007

MENSAGEM

(Instituto de Estudos Superiores de Fafe)

Os Académicos estão entre os primeiros migrantes na Europa e entre os primeiros a cumprir um dos maiores destinos dos migrantes: impulsionar o desenvolvimento e uma consciência universalista e cosmopolita.

As Escolas do Século XI e XII, com os seus mestres viajantes e os entusiasmados alunos que os procuram de toda a parte (uns e outros migrantes na busca do saber), no seu questionamento e diversidade de abordagem, na abertura a novas fontes – com destaque para o pensamento Árabe – diversificam e enriquecem os países que os acolhem. Movimentos migratórios que as universidades dos séculos seguintes, melhor ou pior, ao sabor de guerras ou da paz, não deixarão de aprofundar.

Tendo Bolonha como cenário - nestes dias novamente referencial de destino para o Ensino Superior Europeu –, Frederico I, Barba Roxa, afirmava já o valor preeminente do saber científico e a necessidade de proteger os que fora das suas terras se ocupam do ensino e dos estudos. Após três quartos de milénio, os governos europeus reconhecem o papel fundamental desempenhado pela mobilidade na produção de conhecimento e no desenvolvimento Europeu. Através da Declaração da Sorbonne, 1989, da Declaração de Bolonha, 1999, ou pela Estratégia de Lisboa, 2000, a mobilidade de investigadores, docentes e estudantes, assume-se como causa maior (e incumprida) da generalidade dos governos Europeus.

Enquanto Escola de Educação o conhecimento da memória colectiva das comunidades locais é uma preocupação primeira, e o seu estudo e investigação instrumento para devolver aos alunos, de qualquer nível etário ou formativo, a dimensão de serviço ao outro e da partilha com o outro, justificação fundamental do saber, frequentemente esquecida no acumular de conhecimento e currículo.

A Escola Superior de Educação de Fafe não poderia deixar de se associar com entusiasmo a esta iniciativa: na celebração dupla da investigação científica, aplicada a uma área tão rica e com grande poder de contextualização das realidades da globalização, e da evocação de memórias tão caras ao nosso viver local e matricial.

O Seminário, constitui exemplo vigoroso de querer local e abertura ao mundo e uma fonte perene de informação para alunos das escolas, das universidades, e para a generalidade dos membros da comunidade local e regional.

11 DE ABRIL DE 2007

A Presidente do IESF

Dulce Noronha e Sousa