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Seminário Internacional MEMÓRIAS E MIGRAÇÕES Museus, História, Educação, Diversidades e Direitos Humanos FAFE- 05-08 julho 2007
MEMÓRIAS EM MOVIMENTO: MADEIRENSES EM SANTA CRUZ - história e memória de imigrantes ilhéus no Rio de Janeiro Odalice Miranda Priosti UNIRIO/PPGMS – Memória Social ABREMC – Associação Brasileira de Ecomuseus e Museus Comunitários Walter Vieira Priosti NOPH – Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica Ecomuseu do Quarteirão Cultural do Matadouro Rio de Janeiro – BRASIL
RESUMO: Entre as décadas de 1930 e 1950, famílias portuguesas procedentes da Ilha da Madeira - Portugal, se instalaram na Zona Rural do Rio de Janeiro( capital do Brasil) e inscreveram um capítulo na história econômica , social e cultural no extremo-oeste da cidade do Rio de Janeiro. Encontraram no cultivo da laranja em Santa Cruz um novo modo de vida e se desenvolveram, criaram seus descendentes a eles transmitindo a cultura trazida nas lembranças para o novo país transplantadas. A vivência de deixar a terra natal e adotar definitivamente um novo território, e conseqüentemente a cultura dos autóctones, sem olvidar os bens imateriais mais simbólicos trazidos na bagagem das memórias, faz da experiência desses imigrantes em solo santacruzense uma contribuição significativa para o estudo não só da mobilidade humana como do destino dessas memórias, cujos detentores não mais retornaram à terra de origem . Valorizam-se, portanto, os resíduos e marcas que deixaram na constituição da multiculturalidade e na riqueza da trama da diversidade cultural brasileira, ao se adaptarem ao seu tempo e espaço, ao criarem subjetividades, ao produzirem resistências , fazendo conviver culturas diferentes. Um lugar de reflexão no Ecomuseu de Santa Cruz. À SOMBRA DOS LARANJAIS ________________________________________________________________________ As décadas do 30 a 50 do século XX, especialmente nos períodos pós- guerras ( I e II Guerra mundiais) trouxeram novas configurações no cenário migratório dos portugueses . Levas de famílias de diversa procedência começaram a aportar nas grandes cidades brasileiras, entre elas Rio de Janeiro, São Paulo, Santos. No Rio de Janeiro, na então Zona Rural, em Campo Grande e em Santa Cruz, a agricultura foi intensificada com o cultivo de frutas cítricas ( citricultura). À Santa Cruz chegaram portugueses, provenientes da Ilha da Madeira, que se fixaram nos sítios entre Santa Cruz e o bairro de Guaratiba e se dedicaram ao cultivo da laranja. Ali cresceram os descendentes dos Rego, Rodrigues, Priosti, Batista, Barbosa, Nóbrega Vieira, Pereira , entre outros , cuja memória registramos em depoimentos e fotografias da época em que toda a região citada se tornou um imenso e produtivo laranjal. Imagens podem ser recuperadas no relato dos remanescentes : o imenso e perfumado jardim de delicadas flores brancas, onde, à sombra dos laranjais embranquecidos, se pressentia a farta colheita. Os morros e vales amarelados de frutos e a própria imagem das caixas tipo exportação, cheias de laranjas de primeiríssima qualidade, estão gravados na memória dos que viveram essa época de grande produção e comercialização de frutas cítricas. Além dos mais variados tipos de laranjas( lima, pêra, Bahia, seleta, pele- de -moça, laranja- da- terra), cultivaram-se também a tangerina e o limão e os enxertos deles derivados. Mas sobretudo cultivaram-se nessa comunidade valores herdados da tradição madeirense: a solidariedade e a cooperação. HISTÓRIA : Primeiros movimentos migratórios da Madeira para o Brasil ________________________________________________________________________ A presença de madeirenses em território brasileiro remonta aos primeiros movimentos do povo português por estas paragens, pois a posição estratégica da Ilha da Madeira no Oceano Atlântico, entre o continente europeu e as novas terras descobertas naquele que seria o continente americano, muito cooperou para isso. No século XV, saídas de Portugal, as naus faziam da Ilha seu entreposto, preparando-se para a longa viagem com destino às novas terras desbravadas. Isso pode ser constatado pela importância do Funchal, capital da Ilha, tornando-se um ponto de grande relevo.Esta posição se manteve ao longo de toda a fase das grandes navegações e foi fator primordial para o sucesso dos portugueses nessa aventura. A Ilha da Madeira manteve um bom intercâmbio com o Brasil, através de inúmeras façanhas, seja no setor comercial, seja no aporte de mão- de- obra chegada ao novo continente nos últimos 400 anos. Sua posição geográfica, a meio caminho das rotas comerciais da cana-de açúcar, favoreceu a mobilidade característica da sociedade insular e a emigração se projetou para além do Atlântico e povoou os arquipélagos de Açores e Canárias e por fim , partiu rumo aos novos continentes e demais ilhas. Desiludidos com as limitadas possibilidades das ilhas, muitos partiram para a aventura de sucesso comercial em novas terras brasileiras e na costa africana. Mas um segundo surto migratório para o Brasil aconteceu no séc. XVI, quando trazidos pelo fascínio da terra tropical chegaram mestres, lavradores, mercadores, funcionários e militares, os quais deixaram a marca de sua labuta e organização na agricultura , nas instituições e na defesa do território da colônia portuguesa. De tal modo foi essa contribuição que se chegou a definir a capitania de São Vicente como a “ Nova Madeira “ ( cit. Conf. de Evaldo Cabral de Mello (p.14) Esta situação só chegou ao Rio de Janeiro, ao bairro de Santa Cruz, muito mais tarde, no decorrer do século XX, a partir do estímulo dado pelo Governo de Getúlio Vargas à agricultura e à imigração, como provedora de mão-de-obra para o campo. Inúmeras famílias se localizaram naquela região, constituindo uma pequena comunidade. Ali mantiveram todas as suas tradições, abraçando simultaneamente o modo de vida das novas terras que começavam a ser trabalhadas no Sertão Carioca, a chamada Zona Rural do Distrito Federal.
O êxodo dos madeirenses ________________________________________________________________________
A saída dos madeirenses de suas terras se acentuou a partir do século XX, tendo em vista as dificuldades de empregar na localidade a mão- de- obra que chegava a cada ano, sempre num crescendo e representando um problema para os governantes. Por suas características, a mão- de- obra oferecida obedecia a uma determinada qualificação, restrita às atividades da pesca e do turismo, da prestação de serviços nas áreas da educação, da saúde e da questão social, o que foi muito pouco para assimilar o crescimento populacional da Ilha. Portanto, o exterior foi a válvula de escape para absorver esse contingente em disponibilidade. Dessa forma, o Brasil, pela facilidade da língua e pela relação histórica, sempre absorveu uma grande parcela dessa mão- de- obra exportada pela Madeira. E, a partir da terceira década do século XX, Santa Cruz começa a receber as primeiras levas de madeirenses.
Comunidade de destino ________________________________________________________________________
A questão do destino estava muito presa às origens daqueles que traziam as levas de novos imigrantes, pois, desse modo, a entrada no Brasil era muito facilitada, pela presença de um responsável pelo novo personagem em terras brasileiras.
“Eles vinham por intermédio da Carta de Chamada, documento assinado por patrícios ou parentes, que era submetida à aprovação e registro do Consulado de Portugal. A Carta de Chamada assegurava emprego e acomodação por algum tempo, despesas que seriam reembolsadas pelo favorecido algum tempo depois. Em geral, os homens vinham primeiro e, depois de arranjada a vida, mandavam buscar mulher e filhos” (NASCIMENTO, 1992).
Tendo um conhecido, o imigrante abraçava o campo de trabalho dessa pessoa e, com o tempo, dependendo da qualificação, podia aspirar a novas frentes de trabalho e melhorar sua vida, tornando-se um novo fator de buscar parentes na Madeira. Uma peculiaridade de Santa Cruz favoreceria o trabalho dos madeirenses no campo: a vocação agrícola trazida dos tempos de Fazenda de Santa Cruz, próspera propriedade dos padres da Companhia de Jesus que a adquiriram por doação de Marquesa Ferreira, viúva do capitão Cristóvão Monteiro. As terras, que se localizavam na Capitania de São Vicente, haviam sido recebidas em 1567 como prêmio pela participação heróica do capitão no episódio da expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, ocorrido em 1565. A partir de 1589, a presença jesuítica marcou a região transformada pelos inacianos na Fazenda de Santa Cruz, implementando nela as características de próspera produção agrícola, durante cento e setenta anos , até sua expulsão do Brasil pelo Marquês de Pombal, quando foi agregada ao patrimônio da Coroa Portuguesa. A Fazenda de Santa Cruz, após conhecer o apogeu dos tempos jesuíticos, conheceu também o declínio e o abandono até a chegada do Príncipe Regente D. João ao Brasil , ao Rio de Janeiro , onde fixou a Corte Portuguesa. A presença joanina no Brasil, cujo bicentenário será celebrado em 2008, mudou também a configuração política da antiga Fazenda de santa Cruz, um das duas únicas propriedades da Coroa a serem preservadas por D. João, que fez dela seu refúgio. Escolhida por ele para residência de verão, transformou o antigo convento no Paço Real de Santa Cruz , revitalizou a Fazenda , deu a ela destaque político que se estendeu ao período imperial com D. Pedro I e D. Pedro II., com importantes intervenções econômicas, sociais, culturais na região. A proclamação da República condenou mais uma vez a Fazenda ao ocaso político e ao abandono. Só no Governo Vargas , a então Fazenda Nacional de Santa Cruz recuperou parte de seu prestígio, perdido na intermitência do poder, próximo ou distante da Fazenda. Portanto, até a primeira metade do século XX, o futuro de Santa Cruz estava praticamente no campo e os primeiros imigrantes aqui chegados foram alocados na área rural do antigo Distrito Federal, cujas terras dependiam de lavradores, pois a região apresentava grandes áreas ainda com matas virgens , necessitando de muito trabalho para torná-las produtivas e capazes de dar sustento às famílias que ali aportavam. Foram dias muito difíceis, mas a maioria, com muita força de vontade e aproveitando o momento, conseguiu arrancar da terra o melhor. A terra foi fator preponderante na vida dessas pessoas em face de, na Ilha da Madeira, estarem, constantemente, em harmonia com ela e dali tirando o sustento das famílias. Contudo, em terras brasileiras, eram estranhos e tudo precisava ser iniciado. Dependiam de se adaptar e do convívio em comunidade, necessitando de se ajudarem mutuamente. Esta característica fez com que vencessem as adversidades. As terras ocupadas em Santa Cruz, no antigo Distrito Federal, capital do Brasil, ficavam na periferia do bairro, distante de tudo e de todos os serviços, que já eram bem deficientes na região. As viagens para o Centro da Cidade eram feitas nos famosos trens “Maria Fumaça”, movidos a carvão , cuja fuligem, ao longo da viagem, deixava as roupas cheias de resíduos daquele material. Tudo ficava muito longe e não havia outro meio de transporte de um local para outro.
Adaptabilidade e prosperidade ________________________________________________________________________
No princípio, a adaptação era muito difícil, considerando-se que a forma de vida era totalmente diferente e a sobrevivência dependia de um grande esforço e vontade de vencer as adversidades num mundo novo e totalmente desconhecido. As pessoas tinham que ter disposição e abrir mão de muitos atrativos, tais como: convívio familiar, isolamento, distâncias grandes para a aquisição de bens comuns à sobrevivência, como escolas, hospitais, compra e venda de produtos alimentícios, transporte, entre outros. Tudo era feito a pé e com meios precários. As crianças andavam quilômetros e mais quilômetros para chegarem às escolas, a maioria com seus tamanquinhos de madeira, que eram colocados quando estavam próximos da unidade escolar que distava 8 km de suas residências. As mães tinham que carregar seus filhos no colo para buscarem atendimento médico, muitas das vezes no centro da Cidade do Rio de Janeiro, a dezenas de quilômetros de seus lares, voltando para casa, na maioria das vezes, tarde da noite, com as ruas sem iluminação elétrica, cansadas e com a criança ao colo. Era muito difícil. Mas eles prevaleceram sobre a adversidade da época e conseguiram formar uma nova vida , apesar das dificuldades. A terra exigia muito dessas pessoas e elas venceram tudo isso. Da terra desbravada arrancavam o precioso sustento, como legumes, hortaliças, raízes (batata, aipim), cuidavam com grande carinho dos rebanhos bovinos, caprinos, suínos, da criação de aves. A produção era toda destinada ao Mercado do Produtor no bairro de Madureira, sendo retirada cedo do sítio em caminhões fretados, que recebiam uma determinada quantia pelos volumes transportados. Os laranjais foram a grande coqueluche da época, lá pelos idos de 1930 a 1960, incrementando o crescimento da região, que se estendia de Santa Cruz aos limites de Campo Grande. Foi uma fase de grande fartura para todos os sitiantes da localidade. O mercado externo absorveu grande parte da produção da região..
Vida em comunidade ________________________________________________________________________
A dependência entre as famílias madeirenses chegadas à Santa Cruz era muito grande, pois só poderiam recorrer àqueles com quem já mantinham laços de amizade na terra de origem. Por isso, viviam constantemente se visitando, principalmente aos domingos, pois a semana dos madeirenses acontecia de segunda à sexta-feira, muitas das vezes se prolongando pela noite a dentro. Na época da colheita das laranjas, a semana era totalmente ocupada, esquecendo-se qualquer tipo de repouso ou folga para algum tipo de lazer. Em primeiro lugar, o trabalho árduo, pois a vida de todos dependia disso. E todos se ajudavam mutuamente, sem qualquer remuneração ou forma de endividamento. Quando a situação do ajudado melhorava, ele pagava em trabalho o apoio a outra família em necessidade. Era o chamado regime de mutirão em que os pontos fundamentais eram a solidariedade e a cooperação. Assim, progrediram e venceram mesmo com a falta de meios externos. Contudo, a vida em sociedade acontecia sempre que dispunham de algum tempo ou em épocas especiais, como pelo Natal, Ano Novo, Folia de Reis, Páscoa e outros. Graças ao sistema de ajuda mútua, punham em prática esse processo e comemoravam suas datas festivas, dividindo as despesas e percorrendo as distâncias entre os sítios em caminhadas alegres, reunindo velhos, jovens, crianças, sendo recebidos em cada casa que chegavam com muita alegria, encontrando mesas fartas de alimentos retirados da terra. Ali se reuniam festivamente até altas horas da noite, quando todos dormiam, espalhados pelas humildes casas e, pela manhã, iniciavam nova jornada para outro local, previamente previsto. Levavam seus instrumentos musicais e cantavam as músicas da santa terrinha, sempre acabando em “desafios”, onde cada um cantava e procurava falar de sua superioridade sobre o desafiante. Tudo era muito alegre e divertido Ninguém era mais importante que o seu semelhante. A harmonia e a defesa dos direitos de cada um preponderava. O bom viver sobrepujava todas as outras atividades. O bem-estar era fundamental para que essa harmonia fosse marcante. As dificuldades geraram uma comunidade unida e vitoriosa. A tripla jornada das mulheres madeirenses em Santa Cruz. ________________________________________________________________________ A mulher madeirense em solo brasileiro teve que mostrar fibra e determinação . Se , durante o dia não podiam se esquivar do cuidado doméstico, além dele, as esperava o duro trabalho na lavoura. As calosidades das mãos embrutecidas pelo cabo da enxada ou do ancinho, à noite , se amenizavam na sua terceira jornada, à luz de lamparinas, quando metros e metros de tecidos de linho e cambraias importadas passavam por suas mãos na atividade que trouxeram de seu passado na Madeira - o bordado. Desde muito meninas, as madeirenses aprenderam a arte do bordado e essa atividade artesanal abriu na Madeira um precioso mercado de exportação, fazendo-se conhecido no mundo inteiro. A qualidade desse bordado era verificada pelo avesso. Quanto mais difícil descobrir o avesso, mais perfeito era o trabalho. Em Santa Cruz, a tradição do bordado teve continuidade. Era como se, bordando, estivessem tecendo naquela nova terra o vínculo com a terra natal, revivendo suas mais caras tradições. Muitas delas recebiam os tecidos já com os riscos e as meadas de linhas nas cores determinadas, sob encomenda, para as intermediárias , moradoras em outros bairros do Rio, responsáveis pela venda das peças. O bordado não tinha apenas o simbolismo da tradição, mas era um suporte econômico nas épocas da entressafras.
Tempo de crise ________________________________________________________________________ Porém, nem tudo foram flores na vida dessa comunidade. Houve tempos em que a adversidade só foi vencida, graças ao denodo e a força de vontade conseguida ao longo do convívio em dificuldades. Uma dessas fases foi representada pela crise da laranja, que teve início a partir de 1940 e que trouxe para os madeirenses residentes em Santa Cruz, problemas quase insolúveis, pois todos dependiam, essencialmente, da produção da laranja e de sua colocação no mercado consumidor. Os laranjais se distribuíam de Santa Cruz a Senador Camará, na antiga Zona Rural do Distrito Federal, representando a grande produção de toda a região e fator de equilíbrio de todos que ali residiam e que tinham seus sítios todos plantados. A razão dessa “débâcle” teve como principal causa a questão do início da Segunda Guerra Mundial que irrompeu na Europa em 1939, envolvendo praticamente todos os países daquele continente. Como o mercado consumidor brasileiro não absorvia toda a produção de laranjas do país, a Europa era a grande consumidora, o que alimentava e expandia a produção cítrica, muito apreciada por todos pelas suas propriedades e, também, por ser uma fruta de bom sabor e geradora de um suco muito apreciado. Com a guerra em desenvolvimento, o mercado europeu foi fechado às exportações pelas dificuldades em se enviar o produto para aquela região, pois as vias marítimas estavam sofrendo o bombardeamento dos navios que se aventuravam pelos oceanos e, com isso, reduzindo em muito o comércio entre os continentes. A produção de Santa Cruz não pôde escapar a esse fato. O grande mercado foi fechado, gerando o desespero de todos os sítios que viviam da laranja. Foram tempos muito difíceis. Outro fator veio a aumentar a crise de todos. Contando com o fim em breve da guerra, os produtores precisavam manter seus laranjais em condições e, por isso, passaram a usar um tipo de adubo vindo dos Estados-Unidos para serem colocados nos pés das laranjeiras. Esta atividade foi fatal para a preservação do cítrico na região. Uma espécie de praga, denominada fumagina, vindo embutida no adubo, passou a atacar as laranjeiras, destruindo suas folhas e aniquilando, desse modo, os novos frutos que iam surgindo. Os laranjais da região estavam condenados. Uma nova etapa começava para todos: a busca de novas formas de sustentabilidade. Alguns a buscaram no comércio, outros , com maior autonomia em função dos recursos acumulados e bem empregados, puderam viver de suas próprias rendas . Muito poucos continuaram com a produção do sítio, canalizando-a para a criação de animais ( gado leiteiro, suíno e avicultura ) A MEMÓRIA DO CICLO DA LARANJA EM SANTA CRUZ ________________________________________________________________________ Colher memórias, entendido como um exercício ou processo de solidariedade e sobrevivência das sociedades, nos remete ao capítulo 1, Memória-sonho e Memória-trabalho( BOSI, 1995 ), no qual Bosi inicia com uma análise sobre os estudos de Henri Bergson sobre a fisiologia da conservação do passado: sua natureza e a função da memória, à luz da relação entre ela e os conceitos que a delimitam (memória, tempo, devir, élan vital, energia). De Bergson, Bosi extrai o que precisa para explicar fisiológica e analiticamente o suporte por ela escolhido, ou seja, as lembranças de velhos e, com esses argumentos, provoca a reflexão sobre a relação entre o presente (consciência atual) e a reserva de idéias e representações que constituem o cerne da ideologia. Os processos de ação e representação, a constituição da lembrança e a sua conservação são por ela esmiuçados, a partir de Bergson, examinando o que acontece no ato de lembrar, o nível de consciência daquele que lembra, o caráter fragmentário e seletivo da lembrança, embasando teoricamente suas reflexões para concluir sobre o trabalho de construção da memória que se realiza no presente. Bosi delimita seu objeto no espaço e no tempo, seu campo de ação e a interseção da memória no presente real, percebendo-a como resposta do sujeito, individual ou coletivo, a um estímulo da realidade, o que comprova a atualidade do trabalho de lembrar. Mostra, então, que a memória é prática: contém os pensamentos e ações transformados em experiência vivida e aprovada. Memória é construção sempre atualizada que se utiliza de um repertório de lembranças, onde, selecionadas, emergem ou afloram para responder a necessidades atuais daqueles que as recordam e da sociedade onde estão inseridos. Volta-se, também, a autora para a constatação da existência de duas memórias, a memória-sonho e a memória-trabalho. Estabelece um paralelo entre elas, buscando entender a relação entre a conservação da memória e a sua inserção no presente, bem como o papel da consciência nesse processo, em seus diversos níveis. Busca ainda nos trabalhos de Maurice Halbwachs e no seu universo os argumentos para a compreensão das relações entre a memória individual e memória coletiva, vinculando a memória das pessoas à memória do grupo. Com isso, redescobre a memória como instrumento de socialização de experiências vividas, reconstruindo o passado no presente, criando uma identificação cultural e fazendo uma releitura do mundo, a partir das memórias de velhos. No capítulo 2 - Tempo de lembrar, a autora analisa o processo de socialização da memória em si, através da relação entre uma geração e outra, mostrando a vida como um contínuo exercício de treinar a geração mais nova para a substituição da mais antiga na sociedade. Observa, ainda, o tratamento dado à velhice na sociedade industrial, servindo ao arraigamento de preconceitos e rejeição ao velho, como membro não mais atuante na sociedade da produção e do lucro. Bosi se torna solidária a essa categoria, para mostrar que a sociedade que os desarma é a mesma que tem que lutar pelo “trabalho que fazem” - trabalho de lembrar - para não se perder o conteúdo cultural acumulado que assegura a continuidade da própria sociedade no seu processo de transformações. Mas não é só isso a memória. Compete a ela o papel primordial de selecionar nesse conjunto e no tempo as marcas mais significativas que serão por certo guardadas e das quais a sociedade poderá lançar mão, fazendo-as reaparecer aqui e ali, atualizadas por novos arranjos e interpretações, portadoras que são do simbólico que atravessa gerações. Cabe, portanto, à memória a seleção dos valores que a sociedade quer guardar e o faz à revelia de qualquer manipulação da indústria cultural, norteada por critérios qualitativos de escolha. Apreender a realidade e nela expressar-se é um aprendizado que se realiza porque somos capazes de acumular experiências. Uma vez que a memória, como fenômeno psíquico, interfere na vida do indivíduo, pois sem ela não há vida psíquica, depreendemos a ausência de vida significativa no plano cognitivo, se o indivíduo não tem suporte ( memória) para acumular suas experiências. “A partir das relações do homem com a realidade, resultantes de estar com ela e estar nela, pelos atos de criação, recriação e decisão, vai ele dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade. Vai humanizando. Vai acrescentando a ela algo de que ele mesmo é o fazedor. Vai temporalizando os espaços geográficos. Faz cultura.” (Paulo Freire : 1983 : 43) Desse fato, podemos transferir a afirmação para o plano social e percebermos a importância da memória coletiva - um repertório das experiências sociais acumuladas, transformada então em patrimônio coletivo, o qual o indivíduo e a sociedade utilizam para responder aos processos atuais. Na medida em que seleciona o passado, localizado cronologicamente, não apenas para contemplá-lo, mas para dele extrair subsídios para reconstruí-lo no presente, a sociedade busca reconhecer situações análogas e, por comparações ou deduções, chegar à chave do enigma. Se a história registra o passado, onde a memória já não tem resposta fácil e natural, cabe à memória o registro do presente, embora fragmentário. A aceleração das mudanças sociais, com a industrialização, evidencia a necessidade cada vez mais imperiosa de preservar os fragmentos de experiências vividas. Vem daí a necessidade da criação e manutenção de arquivos, museus, bibliotecas e toda e qualquer organização com a função de documentar e preservar a memória coletiva, fator de coesão e integração dos grupos. É nesse contexto que vamos encontrar um processo museológico comunitário, gestado em Santa Cruz, bairro distante cerca de 70 km do epicentro cultural do Rio de Janeiro, que, a partir das ações sócio-culturais do NOPH, Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica, fundado em 1983 , por membros da comunidade numa abrangência da antiga Fazenda de Santa Cruz que desaguaram noprocesso hoje denominado Ecomuseu do Quarteirão Cultural do Matadouro. Desde então, vem assumindo a missão de valorizar e difundir o patrimônio integral dessa mesma comunidade, criando e fortalecendo laços, produzindo subjetividades e sentido de pertencimento, promovendo a coesão social, na trama cultural tão rica e diversificada nessa região. A investigação no ecomuseu volta-se nesse momento para a memória , como integrante do patrimônio integral a ser preservado e transmitido e , nela, a memória dos imigrantes, de variada procedência, que, em diferentes períodos, vieram constituir a comunidade atual. Portugueses, chineses, sírio-libaneses, italianos, espanhóis, austro-húngaros, japoneses trouxeram sua contribuição cultural em diferentes épocas , somando-se à dos nativos e a dos negros, vindos no rastro da escravidão no Brasil. Em especial, essa pesquisa volta-se para a presença dos imigrantes madeirenses que, em Santa Cruz, aportaram entre as décadas de 30 e 50 , trazendo sua cultura e memórias desterritorializadas e transplantadas para as terras da antiga Fazenda, onde hoje seus descendentes ritualizam seu cuidado e guarda no gesto de lembrar . Trata-se, portanto, de avaliar como e até que ponto, no movimento de um ecomuseu, museu comunitário e em processos museológicos similares, a construção de memória em Santa Cruz por imigrantes que, em diferentes períodos, aportaram nessa região. Particularmente , nessa pesquisa, o caso dos madeirenses chegados entre os anos 30 e 60 do século passado, que criaram novos modos de produção de subjetividade em resposta às mudanças, resistindo ao padecimento de abandonar a terra natal e à tendência homogeneizadora da globalização que, muitas vezes, impõe uma única forma de memória. A presente investigação busca explicar ainda o exercício de subjetivação e construção de memória como mecanismos de libertação na sociedade de controle, reproduzindo em suas ações uma obediência estratégica temporária e paralelamente uma resistência afirmativa aos poderes predominantes e a não acomodação à imposição do establishment. Além disso, pretende-se sublinhar como estas comunidades, tomando a sua qualidade de vida e as diversidades culturais como patrimônio e a sua memória como ferramenta de mudanças, buscam soluções para uma preservação processual de sua cultura viva e para o próprio desenvolvimento local e comunitário. Várias questões se apresentam nesse museu diferenciado: Que estratégias as comunidades utilizam na contemporaneidade para construir memória social? De que modo as sociedades criam museus diferenciados e para quê os criam ? Como as comunidades podem afirmar sua singularidade através dos museus? É possível o “museu do ser( devir)” numa sociedade capitalista ? Como a população constrói seus mecanismos de resistência ao “ establishment” ? Qual o destino das memórias transplantadas com a imigração ou a remoção de comunidades de seu lugar e seu assentamento compulsório em outro território? Na busca de respostas às indagações, é necessário buscar na História os elementos fundantes dessa comunidade de imigrantes, a bagagem de lembranças por eles trazida e a sua própria cultura viva retomada nos ritos de lembrar que realizam no novo país adotado. Sua saga de transformar matas virgens em terras produtivas- lavoura de laranjas- certamente os fizeram criar novos vínculos com a região, onde, paralelamente , desenvolveram a criação de animais: rebanhos bovino, caprino, suíno, avicultura , entre outras e a agricultura de subsistência: hortaliças, legumes, raízes como batata e aipim. Não se questiona que elementos próprios da localidade facilitaram essa apropriação do novo espaço. A herança agrícola da Fazenda de Santa Cruz , as características do espaço, tais como terra fértil e fartura de água, e da população ( religiosidade, tradições, história local, cordialidade, simpatia ) permitiram que as famílias madeirenses enfrentassem com bravura as adversidades , a dor de deixar para trás traços laços familiares, a saudade do convívio na Madeira e se fizessem renascer entre o trabalho no campo e o trabalho manual ( confecção de instrumentos , bordado) Reagir a tantas dificuldades significou renascer em terra estranha e o elemento facilitador desse processo, no caso dessas portuguesas, foi o trabalho manual. ARENDT (1983) considera que “a ação é a atividade mais intimamente relacionada com a condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se sentir no mundo, somente porque o recém-chegado pode iniciar algo novo, isto é, agir” . Kodja,2004 Fizeram conviver a memória da cultura original, traduzida nas principais festas - o Natal, as festas de Reis, cantigas, encontros familiares, festas juninas, o gosto pelo trabalho, festas familiares (batizados , aniversários, casamentos) com os principais traços da terra adotada e, nessa interação, contribuíram e contribuem para a multiculturalidade da sociedade santacruzense com a importância da experiência vivida , o significado dos relatos, a cultura viva trazida nas lembranças, que emergem nos ritos cotidianos de reconstrução da identidade. Manifesta-se, portanto, uma memória criativa, responsável por uma nova atitude diante das mudanças. Resistência, afirmação, identidade, trocas / partilha, produção de subjetividade, cultura viva são as linhas que tecem esse bordado social dos madeirenses em terras de Santa Cruz, onde História e Memória se completam, compondo o direito e o avesso da arte de viver e de ser- com -os -outros. Esse é apenas um fragmento da História das Imigrações em Santa Cruz, que tem no Rei D. João VI o fomentador da 1ª imigração planejada , com a vinda de chineses para a criação no Brasil da cultura do chá, em 1817, e da qual ainda hoje resistem marcas na toponímia: Morro do Chá é um logradouro que remonta a esse tempo, 200 anos após a instalação da colônia. Há também a colônia dos japoneses, chegados em 1938 e que em seus quase 70 anos na região mantêm ainda a atividade agrícola , cultivando o aipim Santa Cruz e desenvolvendo o Projeto Coco Verde. Em setembro, na Semana de Santa Cruz, na II FEIRA DA CULTURA VIVA os descendentes dos imigrantes cumprirão mais um rito de reconstrução dessas culturas, participando ativamente de exposições, barracas com culinária típica e mostra de danças numa variada demonstração de valorização de todos os saberes construídos e enriquecidos no exercício da partilha, reiterando Paulo Freire, pedagogo brasileiro , cujos princípios filosóficos de educação popular e libertadora embasaram as discussões da Mesa Redonda de Santiago do Chile em 1972 e nutrem hoje as experiências de ecomuseus, museus comunitários e museus territórios, abrigadas sob a Nova Museologia ( MINOM – Movimento Internacional da Nova Museologia ) desde 1985: “ Não há saberes maiores e saberes menores. Há saberes diferentes.” Paulo Freire OBRAS DE REFERÊNCIA: BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. São Paulo, 1995. Cia das Letras,4ª. Ed. GONDAR, Jô. Memória, Poder e Resistência.In: Gondar, Jô e Barrenechea,Miguel Angel de (Orgs.). Memória e espaço: trilhas do contemporâneo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003 ___________. Quatro proposições sobre memória Social. In: Gondar, Jô e Dobedei,Vera(Orgs.) O que é memória social? . Rio de Janeiro: Contra Capa ( Livraria/ Programa de Pós –Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), 2005 FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983. KODJA , Gisela. Bordadeiras do Morro São Bento: memória, trabalho e identidade. Dissertação apresentada à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Gerontologia. São Paulo, 2004 NASCIMENTO, F.R., org. Bordados da Madeira nos morros de Santos. Santos, SP, Editora D.O. Urgente, 1992. NEGRI, T. Exílio, seguido de valor e afeto. São Paulo, Ed. Iluminuras, 2001. NIETZSCHE, Friedrich. Segunda Consideração Intempestiva – Da utilidade e desvantagem da história para a vida. Tradução Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003- ( Conexões;20) SECRETARIA REGIONAL DO TURISMO E CULTURA-CEHA. A Madeira e o Brasil- Colectânea de Estudos. Coord. Alberto Vieira. Coimbra, 2004. THOMPSON, P. Memória oral. In: Seminário Internacional: memória, rede e mudança social, São Paulo, 2003, Anais. THOMSON, A. Recompondo a memória: questões sobre a relação entre a história oral e as memórias. Proj. História VARINE, Hugues de. Partilhar o patrimônio: Por que? Como? . In: Atas do III Encontro Internacional de Ecomuseus e Museus Comunitários- Comunidade, Patrimônio compartilhado e Educação- NOPH/MINOM , Rio de Janeiro:2004
Anexo
PROPOSTA DE GESTÃO PATRIMONIAL E DESENVOLVIMENTO LOCAL
HEXÁGONO DE AÇÃO DO ECOMUSEU COMUNITÁRIO DE SANTA CRUZ ( Plano Diretor da Ação Ecomuseológica para o Desenvolvimento)
1. Núcleo Gerador - NOPH / Ecomuseu do Quarteirão Cultural do Matadouro (EMQ) 2. Núcleo Residência da Fazenda de Santa Cruz 3. Núcleo Agrícola - Ponte dos Jesuítas 4. Núcleo Base Aérea de Santa Cruz 5. Núcleo Sepetiba 6. Núcleo Comunidades 7. Núcleo Comercial e Industrial
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