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A Migração Nordestina e a Construção da Identidade Cultural: uma Análise da Realidade Coxinense à Base de A hora da Estrela, de Clarice Lispector Marta Francisco de Oliveira (Mestre em Estudos Literários, Professora do Curso de Letras da UFMS, CPCX)
Observar a realidade coxinense traz-nos à atenção como a construção da cidade e formação da população deveu-se ao processo migratório. Se, por um lado, a região era ponto de passagem para as expedições monçoeiras, por outro aqueles que aqui se estabeleceram com o fim de prover os bandeirantes de víveres, apetrechos e descanso logo viram o potencial da localidade, situada na confluência de dois rios abundantes em águas e peixes. O estabelecimento de famílias, portanto, e conseqüentemente de uma cidade, foram apenas questão de tempo. Atualmente, a população coxinense é composta basicamente de imigrantes, com grande representação de nordestinos. Caminhar por Coxim é deparar-se constantemente com nordestinos que por razões variadas trocaram o sertão pela promissora idéia de trabalho mais gratificante rumo ao Sul, e que aqui encontraram uma nova forma de construir sua identidade cultural, aliando novas experiências à sua tradição. Em muitos casos, é uma história de sucesso. Prova disso é o espaço destinado às representações do Nordeste, hoje chamado “Centro de Tradição Nordestina”, no qual se realiza anualmente a “Festa Nordestina”, um evento de três a quatro dias e conhecido em toda a região norte do estado de Mato Grosso do Sul. Foi esta presença marcante que nos chamou a atenção. Aliás, a leitura de A hora da estrela, da escritora Clarice Lispector nos remete à história de qualquer imigrante e sua relação com o novo espaço. Nestes primeiros passos de uma pesquisa que apenas se inicia, nos deteremos nos elementos da novela de 1977 que podem nos fornecer subsídios para a análise da realidade do migrante coxinense e a construção de sua identidade cultural.
A questão da identidade em A hora da estrela É paixão minha ser o outro. No caso a outra. Estremeço esquálido igual a ela.Clarice Lispector.
O processo de escrita de A hora da estrela – que coloca em foco os três ‘protagonistas’ e causadores da criação do texto, a saber, Macabéa, Rodrigo S.M. e a própria escritora, Clarice Lispector – apresenta a estrutura característica de novelas, desenvolvendo a narrativa em células sucessivas formadas em histórias dentro da história, todas ao redor do eixo central do texto: o escritor-narrador que, às voltas com os desafios e problemas encontrados ao lidar com as palavras, com a escrita[1], tem uma certeza: “essa narrativa mexerá com uma coisa delicada: a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu” (p. 33). Como em nosso estudo são de grande relevância os postulados da crítica biográfica, e visto que há estudos que consideram que muito da ficção clariciana está pautada em elementos de sua vivência, podemos dizer, metaforicamente, que os personagens de A hora da estrela são na realidade desdobramentos da própria escritora. Este fator, aliado aos constantes questionamentos que, dentro da novela, podem ser considerados de ordem pessoal (ou seja, questionamentos da autora, da escritora Clarice Lispector, porém camuflados atrás da voz dos personagens), remetem ao problema da “crise de identidade” percebida na pós-modernidade e responsável pelo declínio das velhas identidades antes estabilizadoras da ordem social; identidades estas que consideravam o sujeito como unificado, não fragmentado como ora se vê, o que provoca mudanças que desestruturam e abalam os quadros de referência dos indivíduos nas sociedades modernas. Claro está, muitos autores se valem de suas próprias vivências ao compor o texto ficcional, não apenas a escritora aqui em questão; porém, como uma obra sua é nosso objeto de estudo, nos convém destacar os aspectos a ela referentes, embora não os tomemos como únicos e singulares no caso clariciano.
Tal afirmação parte do princípio de que a fase atual de mudanças tão dramáticas, iniciada nas décadas finais do século XX, ocasiona a transformação da própria sociedade humana, com reflexo nas identidades pessoais e na noção de si mesmo dos indivíduos. Segundo Stuart Hall[2], a perda de um estável “sentido de si” como indivíduo ou de seu lugar no mundo pode ser definida como deslocamento do sujeito, ou sua descentração.
Desde o ponto de vista do descentramento do sujeito, conforme apresentado por Hall, A hora da estrela é um livro bastante revelador. Nele, Clarice Lispector pela primeira vez aborda de maneira explícita a questão social, de forma a levar ao questionamento a identidade social do sujeito, ao apresentar Macabéa, uma alagoana que pode ser considerada uma alegoria, vivendo desajustada em uma cidade que, contraditoriamente ‘com os braços abertos no cartão postal’, fecha-se para esta imigrante, não a recebe, e é “toda feita contra ela” (p. 29). A partir deste momento inicia-se a construção de uma identidade que ilustra de forma bastante esclarecedora o sujeito pós-moderno. A moça agrega em si a história de todo e qualquer retirante nordestino que atravessa a literatura, a cultura brasileira, além de espelhar, com não menos intensidade, a história de todos aqueles que se encontram na condição de margem, socialmente e culturalmente falando. (Lembramos que na década de Macabéa, segundo fontes do IBGE, apenas 30% aproximadamente da população do campo tinha emigrado para os grandes centros urbanos como ela, ao passo que em 2005 já se somam mais de 80% aproximadamente).
Assim, Macabéa representa a figura de um sujeito isolado, segregado, marginalizado por um sistema social que o conduz a um exílio, excluído, mesmo que geograficamente se encontre dentro de sua cultura, de seu país. Ou seja, pertence por não pertencer. É um estar dentro que espelha um ser fora. Literalmente à margem. Clarice, mais do que escancarar tal condição, a questiona, quando, ao construir “sua” identidade, não se esquece de dizer que Macabéa é um subproduto, um mero rebotalho social, isto é, uma pária da sociedade e, por extensão, da alta cultura oficial.
Macabéa demonstra a índole passiva de alguém inadaptado e despreparado para a vida em uma grande cidade, mas que precisava adaptar-se para viver “satisfatoriamente” em um lugar diferente, inusitado e pouco receptivo. Na verdade, que espaço, que lugar não o seria para ela, não é mesmo? Aliado a isso, ela própria era “incompetente para a vida”, “faltava-lhe o jeito de se ajeitar”(p. 39) e, talvez por essa condição, como nordestina, conformava-se, não reagia, não percebia sua infelicidade; era, antes de tudo, paciente, sem ambições; chegou mesmo a dizer que achava que não tinha que vencer na vida, contente que estava com apenas seguir vivendo. Era isto: ela vivia, e só, como nos diz Rodrigo S.M logo no início da novela: “quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa” (p. 29). Uma moça sem ambições nem pretensões, inclusive no que diz respeito a si mesma, por isso não se preocupa em saber com exatidão quem é:
Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto. (p. 29-30)
Não é `a toa que a autora dialoga com toda uma tradição da literatura e da cultura brasileiras ao nos dizer que o sertanejo é antes de tudo um paciente. Macabéa, em nenhum momento do livro, dá-nos a impressão de ser uma forte, como o sertanejo retratado por Euclides da Cunha em Os Sertões. Muito pelo contrário, essa anti-heroína padece da falta de esperança, sofre de um mal social incurável, desprotegida que é e, como se não bastasse, literalmente improdutiva (tinha ovários secos). A raça-anã da qual Macabéa faz parte, e que é assim retratada, desenhada no livro por Clarice, não possui ainda o direito ao grito reivindicador tão esperado. A escritora, enquanto intelectual e sabedora de tais problemas, almeja, vislumbra o direito ao grito pelos marginalizados, mas, por nenhum momento da narrativa, sequer ventila a idéia de que Macabéa, ou qualquer outro, abra a boca. Em outras palavras, o interdito não carece de ser dito no livro. Essa, pelo menos, parece ser a proposta crítica inicial de Clarice Lispector.
Além de toda a problemática social do grupo marginalizado ao qual pertence Macabéa por sua total falta de recursos, condição que lhe permite um ou outro “luxo” de vez em quando, como ir ao cinema, e porque, como já dito, não esperava nada da vida, culturalmente (considerando o que diz Raymond Williams ao analisar a história e os usos do termo cultura, como nome de um processo, a saber, o cultivo ativo da mente humana[3]) esta alagoana também encontra-se à margem: não é uma “pessoa culta”, “de cultura”, em “um estado mental desenvolvido” e, sendo assim, tampouco é detentora dos meios e “processos desse desenvolvimento”. A nordestina não é exatamente uma personagem leitora, sua paixão não são as belas-letras, mas os anúncios que desde cedo começou a ler e colecionar. Talvez esta seja uma forma de proteger Macabéa, uma vez que em muitos casos, na literatura universal, ler conduz à loucura, ao adultério, à morte, à solidão[4], ou até mesmo à consciência dilacerada do estranho. Por exemplo, perder o interesse na leitura, ou no conteúdo do livro Humilhados e ofendidos a poupa de pensar em sua própria condição desta forma, enquanto imaginava, de modo simplista, que nunca havia passado por uma situação que pudesse ser descrita como humilhante ou ofensiva. Os anúncios, ao contrário do livro que rechaça, despertam seu desejo, como deixa claro a delícia que sente ao imaginar poder algum dia possuir o que anuncia seu recorte mais precioso: um pote de creme para pele, que anseia, não usar, mas comer - “Que pele, que nada, ela o comeria, isso sim, às colheradas, no pote mesmo” (p. 54). É um desejo inconsciente, entendemos, de digerir literalmente a cultura, nos moldes do antropofagismo de Oswald de Andrade, de torná-la legitimamente sua por possuí-la e tragá-la. Nesse aspecto, seu despreparo a torna , como aos demais retirantes, presa fácil dos meios de comunicação que disseminam uma cultura voltada para as massas, a indústria cultural que necessita vender seus produtos e manipular hábitos de consumo.
Se essa crítica à cultura industrializada, massificada e construtora de identidades a partir de formas de consumo material e simbólico é pertinente, por outro lado é inevitável. Basta lembrarmos que a ascensão da cultura de massa no Brasil se dá por volta da década de 70. Desse modo, a escritora, por estar pensando e escrevendo o livro nesse contexto, não poderia deixar de fora tais diferenças culturais tão importantes, sobretudo para o descentramento de uma cultura letrada da época. Daí ser altamente significativo, no livro, considerar fatos aparentemente insignificantes, como Macabéa (moça que “a maior parte do tempo tinha sem o saber o vazio que enche a alma dos santos” p. 54) ouvir a Rádio Relógio, ir ao cinema, colecionar anúncios e sonhar em ser como as estrelas hollywodianas Marylin Monroe e Greta Garbo, criando uma identidade que se estabelece multifacetada e espelhada no outro: “só que precisava dos outros para crer em si mesma, senão se perderia nos sucessivos e redondos vácuos que havia nela. Meditava enquanto batia à máquina e por isso errava ainda mais” (p. 54).
O desejo de Macabéa reaparece em outras ocasiões, como quando cobiça um livro de seu chefe e um homem bonito que um dia vira em um botequim. Porém, como flashes ou anúncios sucessivos rapidamente substituídos, são vistos, desejados e descartados; o título do livro – Humilhados e Ofendidos – a fez pensar, para logo em seguida concluir que não o leria porque não se enquadrava, por jamais ter sido ofendida por alguém e que não há porque lutar se não há luta possível, uma vez que as coisa são como são; e o homem, bonito demais, “além do possível equilíbrio de uma pessoa” (p. 57), já casado, a deixaria envergonhada. O desejo passa pela impossibilidade material de realização, e é substituído por outro, também irrealizável, como o de ser Marylin Monroe, que certa vez confessara a Glória, sua colega de trabalho na fábrica de roldanas.
O título do livro de Dostoiévski posto dentro de A hora da estrela acaba revelando mais um retrato de sua protagonista. Diríamos que a autora não o insere ali por acaso: o livro é um objeto mágico. Além de todo um diálogo literário e até mesmo biográfico que se instaura, a presença material do livro russo denuncia a condição miserável na qual se encontra Macabéa. Seria, grosso modo, um mundo ao qual ela pertencia (o dos humilhados e dos ofendidos) mas ao qual não sabia, não tinha consciência que pertencia. O pensamento de Macabéa ao ver o livro do patrão sobre a mesa é significativo, e permite a contemplação do momento em que ela própria se situa no mundo, tendo uma rápida percepção de uma possível identidade: “Talvez tivesse pela primeira vez se definido numa classe social. Pensou, pensou e pensou!” (p. 56), para mais adiante esquecer e, em todos os sentidos, ‘perder-se na multidão’. Parece-nos que o que a salva é sua alienação permanente.
Digno de nota é o fato de que, exatamente no momento em que a cultura de massa avança no país, como já dissemos, Clarice trata explicitamente da questão cultural em sua obra. Como escritora, realmente está atenta às transformações que ocorrem a sua época, como a urbanização acelerada que se transforma em desumana, reflexo de um processo industrial com as mesmas características, o que contribuiu para a formação de grupos de miseráveis e esquecidos, porém expostos à ânsia do consumo, muito embora não possam realizá-lo por total falta de recursos, esmagados que estão pelo capitalismo selvagem e predatório, pela invasão crescente de multinacionais, pelo sistema de inculcação de valores e comportamentos levados a cabo pela mídia, sobretudo a televisão. A partir do final dos anos 60 e durante os anos 70, percebe-se certo aumento de interesse pela cultura popular, e as artes e a educação buscam, de alguma forma, exprimir as aspirações da massa, bem como suas reivindicações. Tais questões não podem passar ilesas a qualquer leitura de A hora da estrela. Afinal, nunca é demais lembrar, toda escrita é política mesmo quando não o é.
Por ser uma na multidão (“que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só. A nordestina se perdia na multidão” p. 56), Macabéa é alegoria da sociedade brasileira dentro do contexto acima descrito, reflexo de uma maioria exatamente porque não se dá plena conta de suas condições de vida:
a datilógrafa vivia numa espécie de atordoado nimbo, entre céu e inferno. Nunca pensara em “eu sou eu”. Acho que julgava não ter direito, ela era um acaso. Um feto jogado na lata de lixo embrulhado em um jornal. Há milhares como ela? Sim, e que são apenas um acaso. Pensando bem: quem não é um acaso na vida? (p. 52)
Tinha o que se chama de vida interior e não sabia que tinha. Vivia de si mesma como se comesse as próprias entranhas. (p. 53)
Marginalizada, ignorante, miserável, já nascida com “maus antecedentes”, sua “herança do sertão” (p. 43), dividindo um quarto de cortiço com outras quatro moças, todas de nome Maria e balconistas das Lojas Americanas, faminta a ponto de às vezes mastigar papel antes de dormir, pensando em carne de vaca, e ouvinte da Rádio Relógio, concentrava-se em pequenos prazeres, os anúncios principalmente. Permanecia atenta ao que era dito na rádio e guardava as informações – talvez tivessem uso no futuro. Influenciável e fácil de ser manipulada, obedecia, à sua maneira, ao que ouvia:
Outra vez ouvira: “Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade”. Então ela se arrependera. Como não sabia bem de que, arrependia-se toda e de tudo. O pastor também falava que vingança é coisa infernal. Então ela não se vingava (p. 53).
Várias vezes, porém, deparava-se com palavras cujos significados lhe eram desconhecidos, empreendendo a seguir uma busca ingênua dos possíveis significados, invariavelmente perguntando a seu namorado Olímpico, que tampouco possui conhecimentos muito além de mera informação.
De acordo com os elementos acima descritos, que compõem a identidade social e cultural de Macabéa, pode-se perceber que, na modernidade, o sujeito, e também o sujeito marginal, que já não pode ser ignorado, sofre o descentramento de sua identidade. Para melhor compreensão deste processo, Hall procura definir identidade, o que a nosso estudo revela-se bastante esclarecedor. Numa primeira concepção, há a identidade do “sujeito do Iluminismo”, tido como centrado e unificado, geralmente tomado como masculino, e em uma segunda há a do “sujeito sociológico”, uma concepção interativa pois “a identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade”, quando o indivíduo coloca em contato seu “eu real” com “os mundos culturais exteriores e as identidades que esses mundos oferecem” através do diálogo contínuo, o que forma e modifica o “núcleo ou essência interior do sujeito”. Segundo esta concepção, a identidade une o sujeito à estrutura. Porém, como enfrentamos mudanças – e estas não fariam referência exatamente a mudanças nas coisas, mas ao sujeito – logo, é este sujeito que
está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens sociais ‘lá fora’ e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as ‘necessidades’ objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático.[5]
Sob o prisma da história, no pensamento moderno, os princípios do Humanismo e do Iluminismo desencadearam o individualismo, concepção a partir da qual o indivíduo é indivisível e singular e, conforme postulado por Descartes[6], composto por matéria ou substância espacial, e mente, a substância pensante. O sujeito individual é, portanto, cartesiano: situado no centro da mente e do conhecimento, é racional, consciente e pensante. Daí provém a noção de “indivíduo soberano”, aquele que não mais possui um apoio estável em tradições e estruturas imutáveis porque estabelecidas divinamente. A partir do colapso da ordem social, econômica e religiosa medieval que acarretou uma nova visão do homem individual, não mais mediado por um senhor feudal ou pela Igreja, vai-se construindo uma nova concepção de homem e sua individualidade, da qual derivariam categorias coletivas, regidas por submissão ou por consentimento (como no caso de contrato comercial, na qual indivíduos separados decidem suas ações pelo cálculo das conseqüências possíveis).
A seqüência natural dos eventos concorreu para a complexidade gradativa das sociedades, chegando até às estruturas de nação, estado e massas nas democracias modernas, cujas leis reguladoras de qualquer ordem, sobretudo econômicas, políticas e de propriedade deveriam contemplar as classes que surgiram decorrentes do capitalismo praticado nos moldes mais recentes, que atualmente permitem até mesmo a existência de grandes conglomerados empresariais. E no meio de toda esta parafernália industrial ou administrativa e burocrática do estado moderno encontra-se enredado o sujeito individual, agora cidadão, no momento avaliado com base em uma visão social e interativa do sujeito. Quando surgem os movimentos intelectuais e estéticos que precedem o Modernismo, entra em cena uma nova visão do indivíduo, agora isolado frente a uma multidão de anônimos e transitando por uma metrópole totalmente impessoal.[7]
Existem alguns descentramentos principais, segundo o que postula Hall, que afetam diretamente a visão de sujeito e de identidade e que mapeiam as mudanças conceituais que, para alguns teóricos, foram responsáveis pela desestabilização dos conceitos antes estabelecidos e aceitos, e que tiveram como resultado a passagem de uma noção de identidade para a noção de identidades (múltiplas) abertas. Como indica Hall, uma releitura de Marx em sua afirmação de que ‘os homens fazem a história apenas sob condições dadas’, portanto ‘impostas’, tal como faz Althusser, indica a rejeição, por parte de Marx, da essência do homem como sua base teórica, gerando consigo a rejeição de todo o “sistema orgânico de postulados”, o que desloca a idéia de essência universal de homem como atributo de cada indivíduo singular. Além disso, quando Freud apresenta sua teoria do inconsciente formador de nossa identidade, desejos, sexualidade, através de processos psíquicos e simbólicos na contramão da lógica racional, cai por terra a noção do sujeito cartesiano.
Mesmo a leitura que Lacan faz de Freud contribui para a construção deste pensamento, pois para ele o indivíduo forma sua noção do eu inteiro e unificado desde sua infância, com o tempo e suas relações com o outro, como quem interage e em quem se espelha. A identidade é formada e prossegue em formação durante toda a vida, sempre incompleta e contraditória, visto que no decorrer dos anos pensamentos não resolvidos e conflituosos persistem e mantém o sujeito dividido, embora de forma fantasiosa vivencie e “imagine” a unidade de sua identidade. Segundo Hall, o mais apropriado seria falar em identificação, um processo em andamento e dependente do exterior, do outro. Vale mencionar que trabalhos psicanalíticos sobre o inconsciente e a formação da identidade, embora sejam questionados, são também bastante considerados por seu impacto no pensamento moderno.
Outro trabalho a ser considerado como responsável pelo deslocamento e descentramento do sujeito racional e da noção de identidade fixa e estável é, segundo Hall, o realizado por Ferdinand de Saussure no campo da lingüística estrutural. Uma de suas afirmações é que a língua, usada pelos indivíduos para produzir significados dentro das regras e sistemas de sua própria língua e cultura, é um sistema social que preexiste a seus usuários, a eles repassado e não por eles criado. Ela não é individual e seus significados, móveis, são ativados por similitudes e diferenciações. Neste ponto, há uma analogia com a própria noção de identidade: “ eu sei quem ‘eu’ sou em relação com o ‘outro’ (por exemplo, minha mãe) que eu não posso ser. Como diria Lacan, a identidade, como o inconsciente, está estruturada como a língua.”[8]
De acordo com essa linha de raciocínio, filósofos modernos e pós-modernos da linguagem argumentam que, como as palavras são “multimoduladas”, nenhum falante individual tem controle quanto ao significado final de suas proposições. Na emissão de um enunciado, vários significados são postos em movimento, e no seu desenvolvimento temporal deixa uma ‘margem’ tanto ‘antes’ quanto ‘depois’, a qual outros podem povoar de sentidos. Assim, o significado escapa ao falante pela imprecisão de seu fechamento, perturbado constantemente pela diferença. A essa falta de controle dos significados que subverte as tentativas de criação de um mundo fixo e estável podemos comparar a falta de controle do indivíduo no processo de formação de sua identidade, que da mesma forma impede que esta seja estável e imutável.
Vale ressaltar que Macabéa se “constrói” como sujeito a partir do outro e baseada em suas relações sociais, o que acarreta essa característica mutante da identidade: ainda em Alagoas, seu primeiro parâmetro foi a tia, na falta dos pais, e já no Rio, entre seus pontos de referência podem ser apontados Glória, a companheira gorda e “carioca da gema”; o amado chefe, como nos conta Rodrigo S.M, de quem tentava copiar a letra redonda e linda, e por quem era maltratada, embora também dele recebesse certa compaixão, visto que apesar de sua incompetência não era demitida; a própria Rádio Relógio que lhe dá “cultura” e o livro de Dostoiévski, embora por oposição, uma vez que Macabéa não se considerava nem humilhada nem ofendida. Dessa forma, partindo de seus referenciais para constituir sua identidade, Macabéa não pode determiná-la, já que na maior parte do tempo não sabe ou prefere não pensar em quem é, embora consiga simplificar uma definição de si mesma e com ela contentar-se:
E quando acordava? Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser. (p. 52)
Para ela, era suficiente definir-se simplesmente como virgem (“sou moça virgem! Não sou mulher de soldado e marinheiro” – p. 79), datilógrafa (“a tia é que lhe dera um curso ralo de como bater à máquina. E a moça ganhara uma dignidade: era enfim datilógrafa” –p. 29), e que gosta de coca-cola, único refrigerante que tomava. Ela, que ‘nunca pensara em quem é’, confessa não saber quem ou o que é, em uma conversa com Olímpico, após o passeio que fizeram no zoológico – ela pagou a própria entrada. A datilógrafa contava-lhe sobre o que ouvira na Rádio Relógio e ele insistia ser mentira dela:
- Quero cair morta nesse instante se estou mentindo. Quero que meu pai e minha mãe fiquem no inferno, se estou lhe enganando. - Vai ver que cai mesmo morta. Escuta aqui: você está fingindo que é idiota ou é idiota mesmo? - Não sei bem o que sou, me acho um pouco... de quê? ... Quer dizer não sei bem quem eu sou. - Mas você sabe que se chama Macabéa, pelo menos isso? - É verdade. Mas não sei o que está dentro do meu nome. Só sei que eu nunca fui importante... (p. 73).
Uma idéia bastante descentralizadora, com desenvolvimento máximo nas décadas iniciais do século XX, é a baseada na noção de poder disciplinar exercido pelas instituições da pós-modernidade sobre o sujeito moderno, que manteria toda e qualquer manifestação ou atividade individual sob controle e vigilância. As técnicas utilizadas pelo poder administrativo aplicariam o poder e o saber dentro das instituições coletivas de modo tal que o resultado paradoxalmente seria a “individualização” e isolamento do sujeito. Porém, um movimento de grande impacto na teoria crítica atual e nos movimentos sociais de modo geral é o feminismo, que a partir dos anos 60, juntamente com tantas outras manifestações sociais, revoltas, lutas, revoluções, opostos à política liberal capitalista, a políticas consideradas mais opressoras e às formas burocráticas de organização, fazem dessa década o grande marco da modernidade tardia. Possuíam, todos, forma e ênfase cultural muito fortes, apelando, cada um, para sua própria ‘política de identidade’, conformada a seus sustentadores e objetivos, o que definia a “cara” de cada movimento. A contribuição do feminismo torna-se evidente ao questionar a clássica distinção entre dentro/fora, público/privado e politizar a subjetividade, a identidade e o processo de identificação em si mesmo, como a maneira como o indivíduo é visto e se apresenta perante outros, mesmo dentro do círculo familiar , abrindo para o debate e contestação política a forma como são produzidas as identidades generificadas. Pode-se dizer que foi direto ao ponto, ao âmago da questão de descentramento, ao lançar dúvidas quanto a se “humanidade” é o traço identificador e unificador de homens e mulheres e trabalhando a questão da diferença sexual como substituto desta que seria anteriormente uma identidade única e condensadora[9].
O que se pode depreender, portanto, é que o sujeito pós-moderno deixa de ser incontestavelmente encarado como tendo uma identidade permanente, fixa; ao contrário, ela é histórica, contraditória, múltipla, fragmentada e inacabada, formada e transformada de acordo com sua atuação (do indivíduo) nos sistemas culturais dos quais participa. Tal ‘personalidade’ cambiante é, na realidade, um reflexo do que Hall chama de “caráter da mudança na modernidade tardia”, compreendida como rápida e permanente, ou constante, mas que conduz à reflexão sobre as práticas sociais, como é o caso de um processo em particular, o da globalização.
Aparentemente a palavra de ordem nas sociedades da ‘modernidade tardia’ é a diferença, geradora das mais variadas posições, ou identidades, para o sujeito. As diferenças convivem e freqüentemente podem ser articuladas dentro das sociedades (seria esta a razão de sua subsistência), no entanto a estrutura das identidades permanece aberta, o que, de acordo com Laclau[10], possibilita a existência da história, uma vez que o ‘deslocamento’ do centro de cada estrutura acarreta sua substituição por centros múltiplos de poder, e isso mantém as sociedades em movimento. E tais conceitos como deslocamento, fragmentação, descontinuidade, ruptura são básicos para o estudo da globalização, processo que nos interessa muito por ter sido de certa forma ‘antecipado’ por Clarice Lispector no final dos anos 70 no Brasil.
Para Hall, a fragmentação ou ‘pluralização’ das identidades traz conseqüências políticas bastante visíveis. Um mesmo sujeito pode ser interpelado ou representado de várias formas, e para cada situação apresenta uma determinada identidade. Isso ocorre porque já não se pode pensar em uma identidade única e abrangente que valha para todas as situações políticas e sociais entre as quais o indivíduo transita, mobilizando todos os variados interesses e representando todas as variadas identidades das pessoas. É a pluralidade que atravessa a construção do ser, como bem representado na ficção de Clarice Lispector através de Rodrigo S. M. e Macabéa. E para a construção de sua identidade, a narrativa situa-se no elemento urbano, constituinte de uma cultura e de uma identidade nacionais, dos quais trataremos a seguir.
Cultura e identidade nacionais Como as culturas entram em contato por meio dos homens, a base referencial deve ser um agrupamento, uma coletividade de indivíduos que se desloca espacialmente. O choque ou a assimilação cultural se faz sempre no seio de um território, a nação, a cidade, o bairro. Renato Ortiz
A questão da identidade perpassa o problema da cultura ou culturas que de certa forma intervêm na formação do indivíduo. Por esta razão, é possível falar de identidades culturais que num momento ou noutro o sujeito moderno assume ou apresenta em sua prática social. A título de exemplificação, se pensarmos no caso da escritora Clarice Lispector, ou mesmo de seu heterônimo Rodrigo S. M. ou ainda de sua personagem Macabéa, tais identidades culturais múltiplas se apresentam definidas de acordo com o papel que desempenham em determinadas situações.
A escritora é imigrante, mas se reconhece como brasileira; é mulher, mãe, cronista, jornalista, nordestina, intelectual, divorciada. Rodrigo, o personagem escritor, é homem, intelectual, nordestino, socialmente ‘deslocado’, social e politicamente marginalizado; quanto a Macabéa, todos os seus ‘antecedentes’ parecem conduzi-la a uma única condição: um ser marginal, esfomeado literal e simbolicamente, improdutivo (de acordo com os padrões capitalistas que consideram o lucro acima de tudo, uma vez que Macabéa tende mais ao prejuízo, pois é lenta, borra o papel, é ‘parafuso frouxo’que compensaria muito mais ser substituído), porém dentro da dinâmica estonteante da vida moderna nos grandes centros urbanos. O traço que os uniria dentro de um contexto mais amplo, para que se definissem como sujeitos sociais, possuidores de uma identidade cultural, seria o que se denomina cultura nacional.
Utilizar o adjetivo pátrio como fonte principal de identificação cultural, embora não seja algo inato, na modernidade aparece como inerente ao ser, porque de maneira efetiva essa é a forma do sujeito identificar-se com algo mais amplo – um grupo, um ‘lar’; ter uma nacionalidade tornou-se uma necessidade essencial. Na esteira de Canclini, podemos dizer que ao passo que
muitos movimentos sociais e políticos absolutizam o enquadramento territorial originário das etnias e nações, fixam dogmaticamente os traços biológicos e telúricos associados a essa origem como se fossem alheios às peripécias históricas e às mutações contemporâneas e permaneçam tendências que se obstinam em conceber cada identidade como núcleo sólido e compacto de resistência; por isso, exigem lealdades absolutas dos membros de cada grupo e satanizam os que exercem a crítica ou a dissidência;[11]
ou, em outras palavras, enquanto defendem a ‘pureza’ nacional, num discurso fundamentalista, novas formas de pensamento dentro das humanidades permitem compreender que as identidades são “historicamente constituídas, imaginadas e reinventadas em processos constantes de hibridização e transnacionalização, os quais diminuem seus antigos enlaces territoriais.”[12] O que essas correntes buscam, segundo Canclini, é que o específico de cada etnia e nação seja relativizado para que se possam ‘construir formas mais democráticas de convivência, complementação e governabilidade multicultural’. Dentro desde debate, que Canclini convencionou definir como “discurso construtivista dos estudos culturais versus doutrinas fundamentalistas dos movimentos étnicos ou nacionais”[13], percebe-se que a literatura manteve vínculos com o fundamentalismo durante os últimos dois séculos, trabalhando para a construção de uma cultura homogênea e de uma identidade única distintiva através, por exemplo, do romantismo folclórico e de um certo nacionalismo político, aliados para ordenar as tradições de um povo num espaço territorial, a nação. Quanto à ‘cultura própria’ produzida por grupos assim constituídos,
se formaria em relação a um território e se organizaria conceitual e praticamente graças à formação e coleção de objetos, textos e rituais, com os quais se afirmariam e reproduziriam os signos que distinguem cada grupo. Estabeleceu-se que ter uma identidade equivalia a ser parte de uma nação, uma entidade espacialmente delimitada, onde tudo aquilo compartilhado pelos que a habitam – língua, objetos, costumes – os diferenciaria dos demais de forma nítida.[14]
Este é um modelo que foi amplamente aceito, identificando e delimitando vários aspectos culturais, sociais e mesmo zonas do saber com determinadas nações. Uma vez que as artes, a literatura e o folclore foram os que, durante séculos, produziram os signos de distinção das nações, sua história é com freqüência descrita como nacional, e até mesmo os movimentos mais transgressores, como os de vanguarda, são identificados com seus países de origem, como é o caso do futurismo italiano ou do novo romance francês, dando a impressão de que tal perfil de nacionalidade talvez ajudasse a definir seu projeto. A produção artística resultante permanece como fonte do imaginário e dos cenários nacionalistas, consagrando a identidade regional, e geralmente circula dentro deste espaço territorial delimitado, embora os chamados ‘grandes artistas nacionais’ promovidos pelo mercado e pela ‘diplomacia cultural’ apresentem um senso mais cosmopolita em suas obras e tenham maior visibilidade internacional.
O que faz Clarice Lispector, então, no que se refere à questão cultural, ao construir a identidade de seus personagens Macabéa e Rodrigo S.M. como marginais e excluídos (cada um a seu modo), é questionar o significado de cultura, se não trazer à tona que conceitos fundamentalistas de identidade e cultura nacionais talvez se apresentem como simplistas, reducionistas, insuficientes para satisfazer os anseios do sujeito híbrido da pós-modernidade, acenando para a necessidade de revisitar o próprio processo de sua construção? Sobretudo no caso de Macabéa, o sujeito que ‘não sabe gritar’, de modo a encontrar-se exilado dentro de uma cultura nacional à qual pertence e não pertence, pois embora pareça estar dentro, na realidade encontra-se fora, à margem. Nesse caso, como se dá sua identidade? Obviamente de forma distinta ao conceito de simplesmente ser ‘parte de uma nação, compartilhando hábitos, língua, cultura’, embora Macabéa sequer se dê conta da existência de outra nação, culturalmente falando, se podemos interpretar assim sua falta de conhecimento de línguas diferentes da sua: quando ouve Una furtiva lacrima, de Caruso, na Rádio Relógio, somos informados de que “ ela achava que ‘lacrima’ em vez de lágrima era erro do homem da rádio. Nunca lhe ocorrera a existência de outra língua e pensava que no Brasil se falava brasileiro” (p. 68).
A essa visão fundamentalista da cultura nacional se contrapõe uma visão mais multiculturalista. Para iniciar, consideremos a atual concepção, para as ciências sociais, de nação. A nação ( tanto o estado-nação, como a palavra é atualmente compreendida, quanto o conceito de comunidade ou a noção de pertencimento[15]) , de acordo com o que as considerações anteriores expuseram, é uma comunidade simbólica; mais do que uma entidade política, é um “sistema de representação cultural” produtor de sentidos para todo o conjunto de significados idealizados em seu interior. Como diz Hall, “as pessoas... participam da idéia da nação tal como representada em sua cultura nacional”[16], visto que sabemos o que significa ser de determinada nacionalidade ( no caso por ele citado, ser inglês) apenas devido ao modo como tal ‘ser desta nacionalidade’ (‘inglesidade’) veio a ser representada por sua cultura nacional. E a ela são transferidos os sentimentos de lealdade e identificação que anteriormente eram dados à tribo, ao povo e à religião em sociedades mais tradicionais, sendo, portanto, uma característica-chave da modernidade e da sociedade industrializada. O processo de construção de identidades ocorre, pois, pelo discurso, ou melhor, pelo modo das culturas nacionais produzirem sentidos sobre a nação, o que influencia nossas ações e concepções que temos de nós mesmos e do grupo com o qual interagimos: somos brasileiros se falamos o português brasileiro e privilegiamos (ou pelo menos conhecemos) aspectos que são próprios aos habitantes deste vasto país, como o futebol, o samba, o carnaval, por exemplo. Não podemos esquecer que mesmo a literatura já contribuiu em muito para a construção de um discurso da cultura nacional.[17] A identidade nacional é, sob esse ponto de vista, uma comunidade imaginária e imaginada, visto ser o resultado de sentidos produzidos no decorrer do tempo, nas memórias e estórias contadas sobre a nação e seu povo, suas relações sociais e produções culturais; daí se depreende que formas diferentes de imaginar as nações definem as diferenças culturais entre elas.
Não apenas a literatura nacional, bem como a mídia, a cultura popular e a história contribuem para que seja contada a narrativa da cultura nacional, pois narram as estórias, imagens, cenários, símbolos, etc. da nação em si, representando as experiências partilhadas em seu interior e que lhe dão sentido, conectando a vida de seus membros a um destino nacional preexistente e que prossegue geração após geração. Apesar do tempo e das mudanças gerais, o caráter nacional da identidade tem um elemento imutável, baseado na origem e na tradição que o perpetua, tradição esta que pode ser moderna, ou mesmo inventada, construída a partir da repetição intencional para a inculcação de valores e comportamentos. Dito de outra forma, a constituição da cultura nacional como anteriormente apresentada baseia-se no tripé memórias, desejo de vida em conjunto e perpetuação da herança[18]. Ela une a condição de cidadão – membro de um estado-nação político – a de sujeito que se identifica com a cultura nacional. (Clarice Lispector questiona tal condição de cultura nacional homogênea em Macabéa, que nem ao menos compreende o que vem a ser cultura, portanto sequer imagina que ela também possua algo que se enquadre como cultural. Além disso, a herança que traz consigo, longe de ser uma tradição cultural, reflete-se no aspecto físico doentio, raquítico, ‘seco’.)
Cabe a ressalva, porém, de que a cultura nacional é também uma “estrutura de poder cultural”, se considerarmos que em muitos países – como é o caso do Brasil – a cultura unificada que agora identifica seu povo é o resultado das tentativas de supressão de muitas subculturas ( segundo a definição de Williams[19]), da eliminação forçada da diferença por conquista violenta (literal ou simbólica), desde o processo de colonização, passando pelas diferenças étnicas e de classes sociais, até o neoimperialismo, a hegemonia cultural de potências mundiais capitalistas. Sobre isso, vale um comentário exemplificativo: o crítico Raul Antelo, ao falar do interesse da ABRALIC pelos estudos culturais, afirma que os politeístas literários “não fingem ignorar o fato de que no Brasil, por exemplo, além do português , são falados o iorubá e 180 idiomas indígenas.”[20] Como no mundo moderno praticamente inexiste uma nação composta de um único povo, cultura, raça ou etnia, a conclusão a que se chega é que todas são culturalmente híbridas[21] e não unificadas. Não existe uma identidade nacional que impeça a sobreposição de diferenças e contradições internas, bem como os jogos de poder que se operam, mas as culturas nacionais contribuem para que tais diferenças sejam costuradas, formando uma identidade única, que agora tem sido deslocada pelo que se convencionou chamar de globalização.
A globalização, que compreende os processos de escala global que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades, organizações, e mesmo o mundo, instaurando novas combinações e compreensões de tempo e espaço, desvia a atenção agora para o caráter polifônico, imaginário e híbrido do multiculturalismo. Em vista disso, percebe-se que é hora de revisitar certos conceitos canônicos, à luz das mudanças na configuração do mundo moderno, das imposições de mercado e do avanço da indústria cultural. Parece ser esta uma tarefa-chave dos estudos culturais, como afirma Canclini, de considerar a mediação do mercado e “entender como as indústrias culturais e a massificação urbana se articulam para preservar culturas locais e, ao mesmo tempo, fomentar uma maior abertura e transnacionalização dessas culturas”[22].
A partir de tais estudos, por exemplo, surge a atual concepção de identidade, a saber, uma “construção imaginária que se narra”, cujos referentes se formam “em relação com os repertórios textuais e iconográficos gerados pelos meios de comunicação e com a globalização da vida urbana”. [23] A leitura de A hora da estrela, sob a perspectiva cultural, permite a possibilidade de revisão do processo de construção de uma identidade nacional que traga a margem para o centro, ou que pelo menos reconheça que a margem também produz o seu centro. A função de denúncia que a escrita de Rodrigo S.M., um narrador masculino – de acordo com Silviano Santiago, S.M. pode ser lido tanto como ‘substantivo masculino’ quanto como ‘sua majestade’, além de considerar a “possibilidade de as ler também como sado-masoquismo, na linha de expressão baudelaireana de ... o carrasco de si mesmo”[24] – exerce ao contar-nos a história de Macabéa, e a do autor, ‘na verdade Clarice Lispector’, conforme aparece na Dedicatória (p. 21), pode ser entendida como direcionada à necessidade de nova compreensão da realidade que o advento da indústria cultural e dos processos mais amplos de contato entre povos e culturas (aos quais hoje denominamos globalização) exigiriam no futuro próximo quanto à noção de sujeito e nação.A crise de identidade desencadeada na novela é bastante significativa: Rodrigo S. M. é aparentemente um escritor isolado, escrevendo em um local fechado, num cubículo, e não se identifica com nenhuma classe social:
Antecedentes meus do escrever? Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto. E só minto na medida exata da mentira. Mas quando escrevo não minto. Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim (p. 33).
Tampouco se identifica com sua personagem, Macabéa. A nordestina, a seu modo, enfrenta a mesma crise: é imigrante, despossuída, órfã, ingênua e profundamente solitária, deslocada em contraste com Glória, sua colega de trabalho, uma autêntica “carioca da gema”, em oposição a quem constrói sua identidade: Glória, a gorda, ela, a magra, e todas as implicações que as comparações podem acarretar. “É paixão minha ser o outro” (p. 45), diz Rodrigo; esta é uma paixão compartilhada não apenas com Macabéa, mas com Clarice. Ambos, Rodrigo e Macabéa, possuem traços identificadores semelhantes, conforme lemos em A hora da estrela:
É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste (p. 26)
Clarice Lispector também confessou sua identificação com o início da história de sua personagem alagoana, bem como os traços biográficos nela presentes, em entrevista ao jornalista Júlio Lerner:
_ Que novela é essa, Clarice? _ A história de uma moça tão pobre que só comia cachorro-quente. A história não é só isso. A história é de uma inocência pisada, de uma miséria anônima. _ Quando você foi buscar dentro de si mesma... _ Eu morei no Recife; eu morei no Nordeste; eu me criei no Nordeste. E depois, no Rio de Janeiro, tem uma feira no Campo de São Cristóvão e uma vez eu fui lá e peguei o ar meio perdido do nordestino no Rio de Janeiro. Daí começou a nascer a idéia. [25]
A inocência pisada e a miséria anônima de Macabéa resultam no desassossego da escritora, do narrador, e se reflete no leitor. Traz à tona a culpa (‘poderia ter sido eu’) e faz repensar a questão social bem como a dita alta cultura, que reavivam as injustiças e a exclusão que comprometem a subsistência de seres miseráveis como Macabéa. No entanto, é significativo que na maior parte do tempo o narrador Rodrigo S.M. se distancie da personagem por oposição, talvez para estabelecer sua própria identidade a partir de Macabéa ou para não se contaminar com a nordestina: ele é escritor e seu mundo está povoado por livros, letras e palavras que, se por um lado lhe causam dúvida quanto à significação, por outro ele pode invariavelmente buscar formas eficazes de compreender; no entanto, a pobre moça nordestina é quase analfabeta, travando uma luta diária com as palavras que não sabe escrever nem entender, e não é propriamente uma personagem leitora, embora o livro de Dostoiévski inserido na novela possa sugerir que Macabéa provavelmente lesse alguma coisa. Além disso, Rodrigo assegura-nos que apenas ele mesmo a ama, embora não lhe devote nenhuma piedade: “bem, é verdade que também eu não tenho piedade do meu personagem principal, a nordestina: é um relato que desejo frio” (p. 27). Clarice deixa claro, por toda a narrativa, apesar do desejo do escritor Rodrigo S.M. de se transfigurar em sua criatura, que o que separa mesmo e radicalmente criador e criatura é o fato inconteste de eles atuarem em classes completamente diferentes entre si. Inclusive os ‘desejos’ e ‘vontades’ cotidianos do intelectual Rodrigo já contribuem para mostrar as diferenças e a existência das diferenças de classes entre eles.
Rodrigo S.M. encara como um dever seu revelar a vida de Macabéa “porque há o direito ao grito” reivindicador de seu pertencimento cultural. Este é, inclusive, um dos catorze títulos que Clarice dá a esta novela (a autora considera treze, mas a presença de sua própria assinatura na página onde os títulos são elencados, e entre os demais, obviamente lhe confere o status de um décimo quarto título). E ainda como possível título encontramos “Ela não sabe gritar”, razão pela qual o narrador se converte em seu representante. Neste ponto, é interessante notar que, a despeito do desprezo que possa ter pela moça (“Ela que se arranje”, “Eu não posso fazer nada”), a alagoana impõe sua presença, embora desagradável, e não é possível ignorá-la. Cria, mesmo, um sentimento de culpa que o move a agir em seu favor (“A culpa é minha”, ou, como diz dentro do texto, “quando eu penso que podia ter nascido ela – e por que não? – estremeço. E parece-me covarde fuga o fato de eu não a ser, sinto culpa como disse num dos títulos” - p. 54). Como em outras obras de nossa literatura que abordam o tema da migração dos retirantes nordestinos, como Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, e Essa Terra, de Antônio Torres, pode-se perceber que o que ocorre é um problema no modo como o imigrante pode ou não integrar-se, em nosso caso específico, culturalmente, ao novo cenário. A falta de integração de Macabéa conduz ao isolamento que não a identifica com a cultura nacional. Macabéa é, na realidade, uma peça solta, inócua, inútil, na engrenagem cultural nacional.
Esta exclusão é até mesmo reforçada pelo fato de ser uma personagem que não tem, realmente, voz dentro do texto. A voz que se estabelece é uma voz declinada no masculino, que não ‘lacrimeja piegas’; voz curiosamente ciente de sua própria fragilidade frente ao padrão estabelecido pela dita alta cultura , conforme aponta o próprio Rodrigo ao escrever que
aliás – descubro eu agora – também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas (p. 28).
Talvez por isso seja possível entender que o que se diz não é ( ou não é apenas) sobre a própria nordestina às voltas com seus problemas de moradia, alimentação e trabalho, aliás, desde sempre, problema comuníssimo dentro da sociedade urbana brasileira. Ao contrário, é sobre sua autora, “sobre a elite intelectual brasileira que, muitas vezes insensível ao que parece não lhe dizer respeito, também se debate, vez ou outra, com a desconfortável necessidade de tomar uma posição diante de nossa realidade social. Ou, ao menos, de explicitar o próprio desconforto.”[26] É como se tivesse uma sensação de ter que prestar contas a alguém pelo privilégio de pertencer à elite intelectualizada que não padece privações, ao passo que a pobre moça recebe apenas parcas informações que provavelmente nunca aproveitará (embora sejam úteis para entabular conversas com Olímpico, seu namorado) e, triste constatação, até mesmo um cachorro do intelectual Rodrigo S.M. tem mais comida que ela. Comparativamente, Macabéa é como uma “cadela vadia” (p. 32) que perambula pela cidade, teleguiada apenas por si mesma, reduzida a si mesma, culturalmente alienada quando pensamos na cultura como produção social, fruto do contato e do convívio entre seres ( o que não a impede de ser produtora de sua cultura particular, única, reduzida a si mesma, mas que não deixa de ser cultura). Mas apesar de tal miserabilidade, e de ser, como diz Rodrigo, inócua, café frio, ela é também capim, rasteira, insignificante, porém de certa forma forte, pois segue, persistente, embora apenas vivendo, apenas respirando, até o final, tal qual o capim que, enquanto em agonia vê esgueirar-se pelas rachaduras do asfalto, insiste em viver. Tal resistência, porém, não é fruto de um esforço consciente, pois nada há em suas ações que a distinga como pessoa que demonstra reação. Por sua impessoalidade, perde-se no mundo : é um elemento diluído na multidão, assim como tantos outros culturalmente ignorados. Deve-se pontuar, no entanto, que todos esses seres insignificantes que pululam em A hora da estrela mas que são encontrados em alguns outros textos menores da autora, como crônicas e contos, bem como no livro A via crucis do corpo, têm e sempre tiveram seu lugar de eleição dentro da literatura clariciana. A constatação de que até bem pouco tempo tais seres continuavam em estado de margem deve-se tão-somente à crítica tradicional – quer esta seja de cunho filosófico-existencialista, quer esta seja de cunho feminista – que por nenhum momento descentrou seu olhar crítico descritível do centro da letra. Só muito recentemente estudos que tomam o existencial e o realismo na mesma proporção e importância dentro da obra da autora têm se voltado para os seres e coisas aparentemente insignificantes que povoam o “centro” da margem da narrativa – a exemplo de A hora da estrela[27].
Quanto à escritora Clarice Lispector, ucraniana de nascimento ( embora o negue com freqüência), concebida para um propósito que não pôde cumprir ( salvar a saúde e a vida de sua mãe), aproxima-se da alagoana pela dificuldade de estabelecimento de sua própria identidade cultural. Sendo também uma imigrante, e além disso judia e estrangeira (aos vinte anos escreveu uma carta ao então presidente Getúlio Vargas para que lhe concedesse mais rapidamente a nacionalidade brasileira, a princípio negada, porém concedida pelo processo burocrático mais lento, como podemos ver em suas biografia, como a feita por Teresa Cristina Montero Ferreira), aliado ao fato de, como esposa de diplomata, ter vivido muito tempo fora do Brasil, para Clarice Lispector talvez fosse preciso com freqüência convencer-se e aos demais que se identificava plenamente com a cultura nacional. Mas seu questionamento “que quer dizer cultura?” bem como a resposta “Cultura é cultura” que coloca dentro de A hora da estrela são indicativos de que a própria escritora compreendia que restrições conceituais e classificatórias (isso é cultura, isso é nacional) desconsideravam o processo complexo e híbrido que resulta na construção da identidade e de tudo o que pode abarcar a cultura nacional. Além disso, com A hora da estrela, Clarice chama-nos à reflexão do momento pós-moderno no qual a cultura, com todo seu hibridismo, se expande por todo o domínio do social, que precisa ser teorizado. Embora o debate possa ser amplo e praticamente inesgotável, como tentamos mostrar, o estudo da cultura como produção de sentido de tudo o que o social abarca, produzida pelos mais variados grupos, e com fronteiras borradas entre o que antes se considerava cultura superior ou inferior, não permite que se fechem os olhos para o diálogo que existe – e deve haver – entre a literatura e a cultura.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AVELAR, Idelber. Alegorias da derrota: a ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina. Trad. Saulo Gouveia. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996. _______ . Culturas híbridas. Estratégias para entrar e sair da modernidade. Trad. Ana Regina Lessa, Heloísa Pezza Cintrão. São Paulo: Edusp, 4 ed, 2003. CHIPPIANI, Ligia. Pelas ruas da cidade uma mulher precisa andar. In: Literatura e sociedade I, 1996. DTLLC- FFLCH- USP. CEVASCO, Maria Elisa. Dez lições sobre Estudos Culturais. Boitempo Editorial: São Paulo, 2003. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2004. IANNACE, Ricardo. A leitora Clarice Lispector. São Paulo: Edusp, 2001. JAMESON. Fredric. Pós-modernismo ou a lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 2002, 2 ed. LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 22 ed., 1993. NOLASCO, Edgar Cézar. Restos de ficção. São Paulo: Annablume, 2004. _______. Quando a moeda literária vale 1,99 no mercado clandestino de Clarice Lispector. In: Revista Brasileira de Literatura Comparada – 6. Belo Horizonte, 2002. OLIVEIRA, Marta Francisco de. Que quer dizer cultura? – Uma leitura de A hora da estrela, de Clarice Lispector. Dissertação de Mestrado, UFMS/CPTL, 2006. ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994. _______ . A moderna tradição brasileira. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988. SANTIAGO, Silviano. A aula inaugural de Clarice Lispector. In: MIRANDA, Wander Melo (org.). Narrativas da modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. WILLIAMS, Raymond. Cultura. São Paulo: Paz e Terra, 2000. [1] “Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas, mas voam faíscas e lascas como aços espelhados” ( p. 33). [2] Ver HALL. A identidade cultural na pós-modernidade, p.34-46. [3] WILLIAMS. Cultura, p. 10-11. [4] Ver IANNACE. A leitora Clarice Lispector, p. 29-35. [5] HALL. A identidade cultural na pós-modernidade, p. 12. [6] DESCARTES, apud HALL. A identidade cultural na pós-modernidade, p. 12-13. [7] Ver HALL. A identidade cultural na pós-modernidade. [8] HALL. A identidade cultural na pós-modernidade, p. 40,41. [9] Ver HALL. A identidade cultural na pós-modernidade. [10] LACLAU, apud HALL. A identidade cultural na pós-modernidade, p. 16. O termo deslocamento é de Laclau, crítico que, vale lembrar, esteve presente na última ABRALIC, em Porto Alegre, UFRGS (2004), quando proferiu uma conferência que desenvolvia a questão da diferença. [11] CANCLINI. Consumidores e cidadãos, p. 120. [12] CANCLINI. Consumidores e cidadãos, p. 120. [13] CANCLINI. Consumidores e cidadãos, p. 120. [14] CANCLINI. Consumidores e cidadãos, p. 121. [15] C.f. BRENNAN, apud HALL. Identidade cultural na pós-modernidade, p. 58. [16] HALL. Identidade cultural na pós-modernidade, p. 49. [17] Podemos fazer referência aqui aos vários Manifestos de nosso modernismo vanguardista e, anteriormente, a romances de cunho nacionalista. A referência à língua, de forma mais direta ou indireta, faz-se presente em Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, bem como no poema Pronominais, de Oswald de Andrade, quando fala do ‘bom negro’ e do ‘bom branco’ da ‘Nação Brasileira’. [18] Ver ORTIZ. A moderna tradição brasileira, e Mundialização e cultura. [19] Ver WILLIAMS. Cultura. [20] ANTELO, apud CEVASCO. Dez lições sobre estudos culturais, p. 173. [21] Aqui fazemos clara referência a CANCLINI. Culturas híbridas. [22] CANCLINI. Consumidores e cidadãos, p. 123-124 . [23] CANCLINI. Consumidores e cidadãos, p. 124. [24] SANTIAGO. A aula inaugural de Clarice Lispector, p. 29, nota dois. [25] LISPECTOR, apud IANNACE. Entrevista. A leitora Clarice Lispector, p. 115. [26] AVELAR. As alegorias da derrota, p. 57. [27] Vale a pena conferir o importante ensaio de CHIAPPINI. Pelas ruas da cidade uma mulher precisa andar.
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