Vestígios de cá
e de lá: traços de emigração e retorno entre o Rio de Janeiro e Fafe
As trajetórias de retorno de
emigrantes na segunda metade do século XIX não deixarão de estar
inscritas num fenômeno de regresso de capitais, conhecimento e modelos
econômicos, sociais, culturais, industriais e ideológicos com
apropriação em contexto Brasileiro, dos que saíram nas primeiras décadas
do século XIX.
Este artigo é
uma contribuição à homenagem ao comendador Albino de Oliveira Guimarães
promovida pela municipalidade de Fafe (Portugal), sua cidade natal, por
ocasião do seminário
Memórias e Migrações – Museus,
História, Educação, Diversidades e Direitos
Humanos.
O texto apresenta algumas das questões em estudo em
Formas de morar, sociabilidade urbana e a presença portuguesa no Rio
de Janeiro oitocentista: uma chácara em Botafogo.
A pesquisa tem por objetivo a análise
das condições materiais e simbólicas, compreendidas também as
circunstâncias e motivações pessoais, que cercaram a ocupação de uma
chácara da rua São Clemente, no período anterior à chegada da família
Rui Barbosa. O estudo privilegia o período em que a propriedade foi
sucessivamente ocupada por dois comerciantes portugueses: Bernardo
Casimiro de Freitas, futuro barão da Lagoa, de 1849 a 1879, e o
comendador Albino de Oliveira Guimarães, de 1879 a 1890.
A propriedade hoje abriga a Fundação Casa de Rui
Barbosa, cujo núcleo original foi o Museu Casa de Rui Barbosa, criado em
1930, pelo presidente Washington Luís, em homenagem ao seu antigo líder,
e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -
Iphan em 1938.
Em 1879, aos 46 anos, o comendador
Albino de Oliveira Guimarães ocupa, com esposa e sete filhos,
o número 98 da rua São Clemente, situada em Botafogo, na freguesia da
Lagoa. É uma extensa chácara, com 8.000 m2, composta por
jardim e uma ampla casa assobradada –
com oito vãos, entre portas e janelas, na fachada principal
–,
adquirida por 60 contos de réis, do barão da Lagoa, o capitalista
português Bernardo Casimiro de Freitas.
Nascido em Fafe, em 1833, Albino
chega ao Brasil ainda adolescente, como mais um integrante do
contingente de jovens portugueses, em especial do Minho, que parte para
o Brasil em meados do século XIX, em busca de novas oportunidades de
vida.
No Rio de Janeiro, ele se instala como caixeiro na casa comercial de
Antonio Mendes Oliveira Castro, seu conterrâneo, dedicado ao ramo “de
fazendas secas por atacado, e comissões”,
perto da rua Direita,
principal artéria comercial da cidade.
Ao longo dos anos, Albino ascende
na companhia, torna-se pessoa de confiança do patrão, e casa-se, em
1858, aos 25 anos, com uma Mendes de Oliveira Castro, Luísa (1840-1937).
A união segue a tradição de consolidação, pelos laços de parentesco, dos
vínculos profissionais entre comerciantes, fortalecendo assim os
interesses e a confiança mútua. Nesse ano, Albino abre seu negócio de
secos e molhados, no bairro da Saúde,
e, em pouco tempo, se estabelece como negociante de importação e
exportação na rua do Rosário, e se transfere, em 1861, para a rua
Direita.
Atuando
com interesses nos dois lados do
Atlântico, Albino se mantém também ligado a Fafe, onde passa longas
temporadas e onde nascem dois de seus filhos.
Em 1870, ele obtém o título português de comendador da
Ordem da Nossa
Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
A aquisição da chácara da rua São Clemente é,
portanto, testemunho de ascensão social e do sucesso econômico de
Albino.
A família manteria a chácara por 11
anos, entre janeiro de 1879 e maio de 1890, quando a vende ao casal John
Roscoe Allen por cem contos de réis. A operação é realizada por
procurador,
pois os Oliveira Guimarães já haviam retornado definitivamente a Fafe.
Na escritura de venda, fica o registro de que haviam promovido grandes
“melhoramentos no prédio e chácara.”
Botafogo pertencia à Freguesia da
Lagoa, uma das periferias incorporadas à área urbana pelo contínuo
movimento de expansão da cidade ao longo do século XIX, em especial a
partir de meados do século, quando houve um notável crescimento
populacional: de 112.695 habitantes, em 1821, a 137 mil em 1838, e
235.291 em 1870.
Com o alargamento da malha urbana, a região formara com a Glória e o
Catete as áreas preferidas para a instalação de moradia das famílias de
altas rendas, provocando a transformação de antigas chácaras de fins de
semana em luxuosas mansões.
Com o passar dos anos, a característica aristocrática de sua primeira
ocupação deu lugar a uma outra, mais diversificada socialmente,
acompanhando o desdobramento das enormes chácaras originais.
Testemunho do interesse dessa nova
forma de ocupação é a instalação de linhas de transporte para a
freguesia. O omnibus, transporte coletivo de tração animal,
atende a região a partir de 1839 (Marques de Abranches), enquanto o
transporte marítimo, ligando a enseada de Botafogo ao centro da cidade,
é inaugurado em 1843, com barco a vapor. O atendimento do trajeto foi se
sofisticando ao longo do tempo, passando a região a ser servida, a
partir de 1867, pelas elegantes e velozes embarcações da Companhia de
Barcas Ferry, que atracavam em frente à rua São Clemente, em uma das
duas pontes existentes na enseada,
que seriam suplantados pelos carris urbanos.
Os demais melhoramentos urbanos
implementados em Botafogo ampliam sua preferência como opção de moradia
para uma numerosa classe de comerciantes e para uma significativa
parcela de “proprietários” e “capitalistas”.
De 1870 a 1880, multiplicaram-se
os loteamentos no bairro, com a abertura de várias ruas, que passam a
ser servidas, a partir de 1871, pelos carris de ferro. Botafogo
estaria também entre as novas áreas atendidas pelo tratamento de esgoto,
a partir de 1875, quando a The Rio de Janeiro City Improvements e o
Governo Imperial assinam um segundo contrato de serviços, ao mesmo tempo
em que a iluminação a gás amplia-se no bairro. Aos poucos, as chácaras
começam a dar lugar a sobradinhos e vilas de residências coletivas,
inclusive na São Clemente.
A presença portuguesa no meio
mercantil da antiga colônia, ao longo do século XIX é marcante. No
período do pacto colonial eram os portugueses os principais agentes no
comércio, com transações pelo Atlântico de artigos de consumo ou de
manufatura européia para o Brasil e exportações de produtos coloniais.
Eram também os maiores importadores de escravos da época. Conduziam os
seus negócios entre pontos distantes do comércio luso-atlântico por meio
de procurações que permitiam aos seus correspondentes agir em seu nome
ou constituíam sociedades formais com outros negociantes.
A partir de 1808, com a abertura dos portos, a elite
comercial passa a ser formada por comerciantes metropolitanos e
estrangeiros. O setor atacadista é dominado pelos ingleses, e atrai
comerciantes de outras nacionalidades, como os franceses, mas a presença
portuguesa se mantém forte, com o domínio do mercado varejista.
Essa elite mercantil presencia, a
partir da segunda metade do século XIX, “profundas transformações,
relacionadas com a crise da escravidão, a expansão da emigração, o
desenvolvimento pré-indústria, as mudanças institucionais, a
transformação gradual da terra em mercadoria, a regulamentação do
sistema bancário e das sociedades anônimas”.
Em 1834, a burguesia comercial institui a Sociedade
dos Assinantes da Praça, onde os negociantes se reúnem para tratar de
negócios e de interesses do poder público. A Sociedade começou com 320
associados, que elegiam anualmente a Comissão dirigente da Praça,
composta por 9 membros representantes das nacionalidades mais ativas no
comércio: dois brasileiros, dois ingleses, um português, um francês, um
norte-americano, um espanhol e um alemão. Em 1867, a entidade passou a
se chamar Associação Comercial do Rio de Janeiro.
Com o fim do tráfico negreiro, em 1850, e a demanda
crescente dos cafezais, é retomado o fluxo emigratório português,
incentivado pelos engajadores e “brasileiros” de torna-viagem, que
voltavam para suas aldeias depois de terem feito fortuna no Brasil. De
270 mil habitantes, em 1852, o Rio de Janeiro atingiria, em 1889, meio
milhão, dos quais 155 mil estrangeiros – e destes, 106 mil eram
portugueses.
Os engajados vêm atrás da “miragem brasileira”, como
braços para o campo e para os serviços urbanos e trabalham em regime de
semi-escravidão. Como trabalham em condições insalubres em troca de
minguados salários, são debilitados e vítimas fáceis das mazelas
tropicais, em especial da febre amarela. Contudo, na esperança de
acumular fortuna, nada os detém e retornam ao trabalho ainda doentes.
O aumento da população emigrante
acentua também a lusofobia,
reacendendo o sentimento antilusitano que havia se seguido à
Independência.
Em meio a uma sociedade monárquica, agrária e
latifundiária, a burguesia mercantil se empenharia em legitimar-se por
meio da obtenção de títulos e comendas. Prática metropolitana transposta
com a vinda de D. João VI, a concessão de mercês atrai os grandes
proprietários rurais de São Paulo e Minas Gerais; o sistema se confirma
como um poderoso mecanismo de aliciamento, de reforço da sociedade
hierarquizada. As mercês se desdobram com a criação de ordens nacionais
e se fixam como tradição no Império brasileiro. Dos títulos, o de
comendador seria o mais freqüente dentre os emigrantes portugueses
enriquecidos que retornavam a terra, os “brasileiros”.
Para obtenção de título era
essencial a participação, com donativos ou integração na direção, em
sociedades filantrópicas e associações beneficentes, em especial as que
atendiam aos patrícios, e que somaram 23 entidades portuguesas no século
XIX. Dentre elas, destaca-se o Real Gabinete Português de Leitura,
fundado em 1837 por 43 emigrantes, comerciantes em sua maioria. Três
anos depois, em 1840, é criada a Sociedade Portuguesa de Beneficência,
que constrói, em 1858, na rua de Santo Amaro, o Hospital São João de
Deus, cuja presidência seria ocupada por portugueses que se destacaram
no comércio e nas finanças, como o visconde da Estrela,
Joaquim Manuel Monteiro; o
conde de S. Mamede,
Rodrigo Pereira Felício, e o conde São Salvador de Matosinho, João José
dos Reis.
As iniciativas de benemerência não se restringem às
comunidades portuguesas nos locais de acolhida, mas abrangem também as
de origem. Um ano depois da inauguração do hospital da Beneficência, no
Rio de Janeiro, um grupo de portugueses bem-sucedidos, residentes na
cidade, financia o início da construção do Hospital de São José, de
Fafe. Albino participou da iniciativa, sobre a presidência de Antonio
Gonçalves Guimarães.
O patriarca dos Oliveira
Castro é Antônio Mendes de Oliveira Castro, nascido
em Fafe, em 1811. Defensor da causa do miguelismo, foi agraciado com a
comenda da Ordem da
Torre e Espada, alta condecoração destinada a premiar atos de heroísmo
militar. Com a derrota de sua causa para Pedro
IV, Antonio emigrara para o Brasil.
No Rio de Janeiro, Antonio
se casa, em 1837, com
Castorina Angélica de Jesus Alves
Pereira (1814-1880), filha de José Bento Álvares Pereira (?-1842), que
veio para o Brasil com a comitiva de D. João VI em 1808, e de d. Luiza
Angélica de Jesus (?-1841), brasileira. Exerce a atividade de
comerciante,
além de explorar os recursos da Chácara dos Macacos, uma imensa
propriedade rural, onde hoje é o bairro Horto.
O casal mora na Rua das Violas 5,
e pertence à Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, onde
Antonio foi definidor e D. Castorina, vigária do hospital por dois anos,
1845 e 1846.
O comando dos negócios passa para
D. Castorina, com o apoio de Albino, quando Antonio é acometido de
doença mental, vindo a falecer em 1859.
D. Castorina se destacou por sua contribuição aos hospitais de sangue no
Brasil, na Guerra contra o Paraguai (1864
a 1870), o que lhe valeu o reconhecimento do Imperador e a oficialização
de seu nome na estrada que
ligava “a rua Jardim Botânico à
antiga Fazenda dos Macacos e à Vista Chinesa que, na boca do povo, D.
Castorina já se chamava”.
Os Oliveira Castro tiveram cinco
filhos – Firmina, Luiza, Antonio, José e Castorina – que, ao se
casarem, acabariam por se instalarem na Freguesia da Lagoa, perto de D.
Castorina, que passara a residir em chácara no número 146 da rua São
Clemente,
onde faleceu, em 1880.
A filha mais
velha, Firmina Angélica (1838-1881), casou-se duas vezes, sendo a
primeira com o comendador Antônio de Carvalho Ribeiro, pai de Carlota
Deolinda, futura esposa de seu irmão José,
que morava na Chácara da
Bica, depois Solar de Monjope, com quem teve três filhos.
Viúva em 1858, aos vinte anos, Firmina casou-se, em 1859, com o
capitalista Joaquim Monteiro da Luz (1816-1878), natural do Porto, com
quem teve sete filhos, e morou na rua Jardim Botânico no 1.
Antônio (1841-1905)
casou-se em 1865 com Maria Martins, carioca, e se instalou na rua São
Clemente em frente à casa de sua mãe, onde criou seus quatro filhos, que
mantiveram sempre estreitas relações com seus primos, descendentes de
seu irmão José, que residia na casa matriz.
José (1842-1896)
casou-se duas vezes e teve 18 filhos. De seu primeiro
casamento, em 1863, com
Carlota Deolinda de
Carvalho Ribeiro (1845-1883), enteada de sua irmã Firmina, teve
14 filhos.
Viúvo, casou-se em 1888 com Constança
Cordeiro Torres e Alvim. Admirado pelos seus
refinados hábitos sociais, dono
da Oliveira Castro, Filho e Comp., firma de importação e exportação,
pertenceu aos quadros diretores de várias companhias, foi
presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, e recebeu, dias
antes da Proclamação da República, o título de barão de Oliveira Castro.
A filha caçula, Castorina
(1845-1878), casou-se em 1862 com Manoel Moreira da Fonseca,
nascido em Portugal; tiveram um único filho, Antonio Moreira da Fonseca,
que se casou com sua prima-irmã Carlota Mendes de Oliveira Castro e se
estabeleceu em Petrópolis, onde foi um grande médico homeopata.
Situada na rua São Clemente no
então n° 98, com cerca de 8.000m2 de extensão,
a chácara tem a frente fechada por gradil de
ferro, ladeado por dois portões de ferro, o que permite que se
descortine da rua o imponente sobrado de feição neoclássica.
A construção é composta por dois corpos ligados entre
si por uma saleta e uma sala em forma de passadiço. O corpo da frente é
assobrado e tem, no centro da fachada, um segundo pavimento. A fachada
do primeiro pavimento tem nove vãos, entre janelas e portas, e no
segundo, três janelas de sacadas; este corpo tem oito janelas de
peitoril de cada lado e outras janelas e portas nos fundos do primeiro e
segundo pavimentos. O corpo dos fundos,
também em sobrado, é dividido em salas, quartos e outras acomodações.
Além do edifício, constam
do terreno, à época, telheiros, banheiros e galinheiro, além de jardim,
horta e pomar, onde se destaca um grande parreiral sobre vergalhões e
barras de ferro, acompanhado de vasos, figuras, bancos de jardim etc.
O investimento na aquisição de
propriedade de grande valor e extensão foi antecipado por gastos em
melhoramentos, mencionados na escritura de compra, em janeiro de 1879:
as obras feitas na chácara e prédio já mencionados, desde agosto do ano
passado, o tem sido a expensas do outorgado comprador.
Esse empenho não deixa dúvida do propósito de fixação
social e afetiva de Albino e sua família em Botafogo, em meio à rede
familiar dos Oliveira Castro, também residentes na rua São Clemente.
Essa tentativa de radicação estava investida de forte caráter
sentimental. Os Oliveira Guimarães haviam perdido, no ano anterior, em
Portugal, o caçula Álvaro, com pouco mais de um ano de idade, e é
provável que Luiza tenha vindo se consolar junto à mãe, D. Castorina,
então com 65 anos.
Albino e Luiza se instalam com sete filhos, com
idades e demandas diferenciadas. O mais velho, Antonio, então com 20
anos, forma com Castorina, com 17 anos, e Albino, com 16 anos, um grupo
de jovens, em fase de desenvolvimento pessoal e de convívio social. Os
quatro menores – José, com 13 anos, Luiza, 12 anos, Maria, com nove anos
e a pequena Firmina, com quatro anos – podem brincar e estudar dentro
dos muros da propriedade.
As mencionadas melhorias da propriedade se justificam
pela necessidade de acomodação dos filhos como pela introdução dos
serviços urbanos, para atender os quesitos modernos de conforto e
higiene. As alterações dos serviços domésticos, com a instalação dos
sistemas de água e esgoto, deve ter refletido também no quintal, que
perde parte de suas funções de serviço e pode ser absorvido como área de
lazer.
As obras encontram também motivação
no tradicional apreço do português pela sua moradia, um importante
símbolo de sua condição social. Investindo em sua moradia, o comendador
reitera, no Rio de Janeiro, a tradição dos “brasileiros” bem-sucedidos,
que marcam a paisagem arquitetônica do Minho com sobrados, palácios e
palacetes, onde “as representações feitas através da localização, da
arquitetura e da decoração das fachadas das casas constituem alguns dos
elementos que configuraram a personagem do “brasileiro” e a teatralidade
do seu tempo”.
Ao retornar para Fafe, Albino se envolve novamente em
reformas e obras. Instala-se e reforma a antiga casa que fora dos avós
de Luiza, em Pardelhas, e constrói, em 1908, casa apalaçada na
avenida 5 de Outubro.
O comendador Albino, como ativo
membro do ciclo de benemerentes de cidade,
se destaca pelo empenho na remodelação de um jardim público da cidade, o
Jardim do Calvário, em Passeio
Público, que o transformou “em sítio de animação cultural no contexto do
romantismo português”,
inaugurado em 1892.
Não é possível, hoje, identificar
com precisão qual o desenho original da propriedade e a contribuição
efetiva de cada um de seus ocupantes para sua configuração atual, ainda
que o jornalista Brasil Gerson tenha registrado o depoimento de uma
Oliveira Castro de que “foi o falecido Albino quem lhe deu a aparência
que tinha quando Rui a comprou”.
Essa dificuldade
é acentuada pela reiteração de traços culturais de seus primeiros
proprietários, já que barão da Lagoa e o comendador Albino, os
responsáveis pelos seus contornos principais, eram oriundos do norte de
Portugal e pertenciam ao mesmo estrato econômico e social.
O par de
camélias a ornar a fachada, por exemplo, remonta aos casarios senhoriais
do Norte do Portugal. Outro traço lusitano presente é a designação de
“vila”, acrescido do nome da esposa do proprietário; no caso, é a
denominação de “Villa Maria Augusta” que domina a fachada do passadiço,
homenageando a esposa de Rui Barbosa, mas que pode ter sido
anteriormente homenageado Ilidia [Casimiro de Freitas] ou Luzia [de
Oliveira Guimarães].
Em seu percurso, o visitante pode perceber os
elementos da configuração descrita na escritura de venda do barão para o
comendador, com o sobrado circundado por “jardim, horta e pomar, grande
parreiral sobre vergalhões e barras de ferro, vasos, figuras, bancos de
jardim etc.” O jardim, por sua vez, se desdobra, segundo certa tradição
portuguesa, em área para o convívio social, entre a rua e os salões de
recepção, e outra, para uso doméstico.
A mutabilidade própria às áreas
verdes dificulta as tentativas de reconstrução das fases da propriedade,
agravada por reformas e uma violenta intervenção, que desfigurou a faixa
lateral direita do terreno,
em conseqüência de desapropriação e terraplanagem para a abertura de uma
rua, jamais implementada.
Há a instigar, porém, a reverberação da presença de
dois elementos comuns à chácara de Botafogo e à Fafe – a pérgula com o
parreiral e o traçado romântico que predomina nos jardins que circundam
a casa.
O parreiral é uma indiscutível homenagem do primeiro
morador, o portuense Bernardo Casimiro de Freitas, à terra natal. A
pérgula, ou latada, que dá sustentação ao parreiral é um elemento
presente nos jardins portugueses, em especial na região do Minho, e tem
origem na antiga vila romana, onde o “ambulatio” formava um caminho
protegido destinado ao percurso meditativo.
O eixo principal da pérgula se estende por 40m, e é
cortado transversalmente por duas alamedas, formando um agradável
percurso assombreado que define uma área possivelmente reservada ao
pomar. Esse elemento é encontrado também na casa de Pardelhas, mas com
uma função distinta: ele forma uma curiosa alameda que une o portão da
rua à entrada principal da casa.
O traçado romântico comum ao jardim da chácara e ao
Jardim do Calvário, com a presença de
lago, ilhota, ponte,
caramanchões e elementos argamassados, é outra
coincidência a ser investigada, tomando-se em conta a presença desse
tipo de paisagismo tanto nas mansões como nas áreas pública no Brasil e
em Portugal.
Em 1878, enquanto o comendador
promove as reformas na sua propriedade, está sendo construído, no centro
da Corte, o Campo de Santana, um grande parque urbano,
com 86.587,95 m2, segundo o modelo do jardim romântico, de
linhas sinuosas, então em voga na França.
Inaugurado em 1880, com a presença
da Família Imperial, o jardim foi recebido como “o mais belo que se pode
encontrar no centro de uma capital”.
Pode-se especular,
portanto, sobre a hipótese de que os traços de jardim romântico da
chácara tenham sido implantados por Albino em sua propriedade privada,
que os teria reproduzido em Fafe, já na forma de um jardim público.
Faço aqui o convite para que o Museu Casa de Rui
Barbosa e o Museu da
Emigração e do Retorno e de Comunidades e
Luso-Descendentes percorram, juntos, as trilhas de cá e de lá deixadas
pelo comendador, e estabeleçam renovadas perspectivas sobre os processos
culturais transnacionais.
Manoel Moreira da Fonseca, cunhado de Luiza, foi nomeado
procurador do casal em 23/02/1886, com amplos poderes para
alugar ou vender os bens deixados no Brasil.
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