Vestígios de cá e de lá: traços de emigração e retorno entre o Rio de Janeiro e Fafe

As trajetórias de retorno de emigrantes na segunda metade do século XIX não deixarão de estar inscritas num fenômeno de regresso de capitais, conhecimento e modelos econômicos, sociais, culturais, industriais e ideológicos com apropriação em contexto Brasileiro, dos que saíram nas primeiras décadas do século XIX.[1]

 

Este artigo é uma contribuição à homenagem ao comendador Albino de Oliveira Guimarães promovida pela municipalidade de Fafe (Portugal), sua cidade natal, por ocasião do seminário Memórias e Migrações – Museus, História, Educação, Diversidades e Direitos Humanos.[2]

O texto apresenta algumas das questões em estudo em Formas de morar, sociabilidade urbana e a presença portuguesa no Rio de Janeiro oitocentista: uma chácara em Botafogo. A pesquisa tem por objetivo a análise das condições materiais e simbólicas, compreendidas também as circunstâncias e motivações pessoais, que cercaram a ocupação de uma chácara da rua São Clemente, no período anterior à chegada da família Rui Barbosa. O estudo privilegia o período em que a propriedade foi sucessivamente ocupada por dois comerciantes portugueses: Bernardo Casimiro de Freitas, futuro barão da Lagoa, de 1849 a 1879, e o comendador Albino de Oliveira Guimarães, de 1879 a 1890.

A propriedade hoje abriga a Fundação Casa de Rui Barbosa, cujo núcleo original foi o Museu Casa de Rui Barbosa, criado em 1930, pelo presidente Washington Luís, em homenagem ao seu antigo líder, e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan em 1938.

 

Um comendador em Botafogo

Em 1879, aos 46 anos, o comendador Albino de Oliveira Guimarães ocupa, com esposa e sete filhos,[3] o número 98 da rua São Clemente, situada em Botafogo, na freguesia da Lagoa. É uma extensa chácara, com 8.000 m2, composta por jardim e uma ampla casa assobradada ­­ com oito vãos, entre portas e janelas, na fachada principal , adquirida por 60 contos de réis, do barão da Lagoa, o capitalista português Bernardo Casimiro de Freitas.

Nascido em Fafe, em 1833, Albino chega ao Brasil ainda adolescente, como mais um integrante do contingente de jovens portugueses, em especial do Minho, que parte para o Brasil em meados do século XIX, em busca de novas oportunidades de vida.[4] No Rio de Janeiro, ele se instala como caixeiro na casa comercial de Antonio Mendes Oliveira Castro, seu conterrâneo, dedicado ao ramo “de fazendas secas por atacado, e comissões”,[5] perto da rua Direita,[6] principal artéria comercial da cidade.

Ao longo dos anos, Albino ascende na companhia, torna-se pessoa de confiança do patrão, e casa-se, em 1858, aos 25 anos, com uma Mendes de Oliveira Castro, Luísa (1840-1937). A união segue a tradição de consolidação, pelos laços de parentesco, dos vínculos profissionais entre comerciantes, fortalecendo assim os interesses e a confiança mútua. Nesse ano, Albino abre seu negócio de secos e molhados, no bairro da Saúde,[7] e, em pouco tempo, se estabelece como negociante de importação e exportação na rua do Rosário, e se transfere, em 1861, para a rua Direita.[8]

Atuando com interesses nos dois lados do Atlântico, Albino se mantém também ligado a Fafe, onde passa longas temporadas e onde nascem dois de seus filhos.[9] Em 1870, ele obtém o título português de comendador da Ordem da Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

A aquisição da chácara da rua São Clemente é, portanto, testemunho de ascensão social e do sucesso econômico de Albino. 

A família manteria a chácara por 11 anos, entre janeiro de 1879 e maio de 1890, quando a vende ao casal John Roscoe Allen por cem contos de réis. A operação é realizada por procurador,[10] pois os Oliveira Guimarães já haviam retornado definitivamente a Fafe. Na escritura de venda, fica o registro de que haviam promovido grandes “melhoramentos no prédio e chácara.”[11]


O bairro de Botafogo

Botafogo pertencia à Freguesia da Lagoa, uma das periferias incorporadas à área urbana pelo contínuo movimento de expansão da cidade ao longo do século XIX, em especial a partir de meados do século, quando houve um notável crescimento populacional: de 112.695 habitantes, em 1821, a 137 mil em 1838, e 235.291 em 1870.[12] Com o alargamento da malha urbana, a região formara com a Glória e o Catete as áreas preferidas para a instalação de moradia das famílias de altas rendas, provocando a transformação de antigas chácaras de fins de semana em luxuosas mansões.[13] Com o passar dos anos, a característica aristocrática de sua primeira ocupação deu lugar a uma outra, mais diversificada socialmente, acompanhando o desdobramento das enormes chácaras originais.[14]

Testemunho do interesse dessa nova forma de ocupação é a instalação de linhas de transporte para a freguesia. O omnibus, transporte coletivo de tração animal, atende a região a partir de 1839 (Marques de Abranches), enquanto o transporte marítimo, ligando a enseada de Botafogo ao centro da cidade, é inaugurado em 1843, com barco a vapor. O atendimento do trajeto foi se sofisticando ao longo do tempo, passando a região a ser servida, a partir de 1867, pelas elegantes e velozes embarcações da Companhia de Barcas Ferry, que atracavam em frente à rua São Clemente, em uma das duas pontes existentes na enseada,[15] que seriam suplantados pelos carris urbanos.[16]

Os demais melhoramentos urbanos implementados em Botafogo ampliam sua preferência como opção de moradia para uma numerosa classe de comerciantes e para uma significativa parcela de “proprietários” e “capitalistas”.[17] De 1870 a 1880, multiplicaram-se os loteamentos no bairro, com a abertura de várias ruas, que passam a ser servidas, a partir de 1871, pelos carris de ferro. Botafogo estaria também entre as novas áreas atendidas pelo tratamento de esgoto, a partir de 1875, quando a The Rio de Janeiro City Improvements e o Governo Imperial assinam um segundo contrato de serviços, ao mesmo tempo em que a iluminação a gás amplia-se no bairro. Aos poucos, as chácaras começam a dar lugar a sobradinhos e vilas de residências coletivas, inclusive na São Clemente.


Comerciantes portugueses

A presença portuguesa no meio mercantil da antiga colônia, ao longo do século XIX é marcante. No período do pacto colonial eram os portugueses os principais agentes no comércio, com transações pelo Atlântico de artigos de consumo ou de manufatura européia para o Brasil e exportações de produtos coloniais. Eram também os maiores importadores de escravos da época. Conduziam os seus negócios entre pontos distantes do comércio luso-atlântico por meio de procurações que permitiam aos seus correspondentes agir em seu nome ou constituíam sociedades formais com outros negociantes.[18]

A partir de 1808, com a abertura dos portos, a elite comercial passa a ser formada por comerciantes metropolitanos e estrangeiros. O setor atacadista é dominado pelos ingleses, e atrai comerciantes de outras nacionalidades, como os franceses, mas a presença portuguesa se mantém forte, com o domínio do mercado varejista.

Essa elite mercantil presencia, a partir da segunda metade do século XIX, “profundas transformações, relacionadas com a crise da escravidão, a expansão da emigração, o desenvolvimento pré-indústria, as mudanças institucionais, a transformação gradual da terra em mercadoria, a regulamentação do sistema bancário e das sociedades anônimas”.[19]

Em 1834, a burguesia comercial institui a Sociedade dos Assinantes da Praça, onde os negociantes se reúnem para tratar de negócios e de interesses do poder público. A Sociedade começou com 320 associados, que elegiam anualmente a Comissão dirigente da Praça, composta por 9 membros representantes das nacionalidades mais ativas no comércio: dois brasileiros, dois ingleses, um português, um francês, um norte-americano, um espanhol e um alemão. Em 1867, a entidade passou a se chamar Associação Comercial do Rio de Janeiro.

Com o fim do tráfico negreiro, em 1850, e a demanda crescente dos cafezais, é retomado o fluxo emigratório português, incentivado pelos engajadores e “brasileiros” de torna-viagem, que voltavam para suas aldeias depois de terem feito fortuna no Brasil. De 270 mil habitantes, em 1852, o Rio de Janeiro atingiria, em 1889, meio milhão, dos quais 155 mil estrangeiros ­– e destes, 106 mil eram portugueses.[20]

Os engajados vêm atrás da “miragem brasileira”, como braços para o campo e para os serviços urbanos e trabalham em regime de semi-escravidão. Como trabalham em condições insalubres em troca de minguados salários, são debilitados e vítimas fáceis das mazelas tropicais, em especial da febre amarela. Contudo, na esperança de acumular fortuna, nada os detém e retornam ao trabalho ainda doentes.

O aumento da população emigrante acentua também a lusofobia,[21] reacendendo o sentimento antilusitano que havia se seguido à Independência.

Em meio a uma sociedade monárquica, agrária e latifundiária, a burguesia mercantil se empenharia em legitimar-se por meio da obtenção de títulos e comendas. Prática metropolitana transposta com a vinda de D. João VI, a concessão de mercês atrai os grandes proprietários rurais de São Paulo e Minas Gerais; o sistema se confirma como um poderoso mecanismo de aliciamento, de reforço da sociedade hierarquizada. As mercês se desdobram com a criação de ordens nacionais e se fixam como tradição no Império brasileiro. Dos títulos, o de comendador seria o mais freqüente dentre os emigrantes portugueses enriquecidos que retornavam a terra, os “brasileiros”.

Para obtenção de título era essencial a participação, com donativos ou integração na direção, em sociedades filantrópicas e associações beneficentes, em especial as que atendiam aos patrícios, e que somaram 23 entidades portuguesas no século XIX. Dentre elas, destaca-se o Real Gabinete Português de Leitura, fundado em 1837 por 43 emigrantes, comerciantes em sua maioria. Três anos depois, em 1840, é criada a Sociedade Portuguesa de Beneficência, que constrói, em 1858, na rua de Santo Amaro, o Hospital São João de Deus, cuja presidência seria ocupada por portugueses que se destacaram no comércio e nas finanças, como o visconde da Estrela,[22] Joaquim Manuel Monteiro; o conde de S. Mamede,[23] Rodrigo Pereira Felício, e o conde São Salvador de Matosinho, João José dos Reis.[24]

As iniciativas de benemerência não se restringem às comunidades portuguesas nos locais de acolhida, mas abrangem também as de origem. Um ano depois da inauguração do hospital da Beneficência, no Rio de Janeiro, um grupo de portugueses bem-sucedidos, residentes na cidade, financia o início da construção do Hospital de São José, de Fafe. Albino participou da iniciativa, sobre a presidência de Antonio Gonçalves Guimarães.

 

Os Oliveira Castro

O patriarca dos Oliveira Castro é Antônio Mendes de Oliveira Castro, nascido em Fafe, em 1811. Defensor da causa do miguelismo, foi agraciado com a comenda da Ordem da Torre e Espada, alta condecoração destinada a premiar atos de heroísmo militar. Com a derrota de sua causa para Pedro IV, Antonio emigrara para o Brasil.

No Rio de Janeiro, Antonio se casa, em 1837, com Castorina Angélica de Jesus Alves Pereira (1814-1880), filha de José Bento Álvares Pereira (?-1842), que veio para o Brasil com a comitiva de D. João VI em 1808, e de d. Luiza Angélica de Jesus (?-1841), brasileira. Exerce a atividade de comerciante,[25] além de explorar os recursos da Chácara dos Macacos, uma imensa propriedade rural, onde hoje é o bairro Horto.[26] O casal mora na Rua das Violas 5,[27] e pertence à Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, onde Antonio foi definidor e D. Castorina, vigária do hospital por dois anos, 1845 e 1846.[28]

O comando dos negócios passa para D. Castorina, com o apoio de Albino, quando Antonio é acometido de doença mental, vindo a falecer em 1859.[29] D. Castorina se destacou por sua contribuição aos hospitais de sangue no Brasil, na Guerra contra o Paraguai (1864 a 1870), o que lhe valeu o reconhecimento do Imperador e a oficialização de seu nome na estrada que ligava “a rua Jardim Botânico à antiga Fazenda dos Macacos e à Vista Chinesa que, na boca do povo, D. Castorina já se chamava”.[30]

Os Oliveira Castro tiveram cinco filhos – Firmina, Luiza, Antonio, José e Castorina ­– que, ao se casarem, acabariam por se instalarem na Freguesia da Lagoa, perto de D. Castorina, que passara a residir em chácara no número 146 da rua São Clemente,[31] onde faleceu, em 1880.[32]

A filha mais velha, Firmina Angélica (1838-1881), casou-se duas vezes, sendo a primeira com o comendador Antônio de Carvalho Ribeiro, pai de Carlota Deolinda, futura esposa de seu irmão José, que morava na Chácara da Bica, depois Solar de Monjope, com quem teve três filhos. Viúva em 1858, aos vinte anos, Firmina casou-se, em 1859, com o capitalista Joaquim Monteiro da Luz (1816-1878), natural do Porto, com quem teve sete filhos, e morou na rua Jardim Botânico no 1.

Antônio (1841-1905) casou-se em 1865 com Maria Martins, carioca, e se instalou na rua São Clemente em frente à casa de sua mãe, onde criou seus quatro filhos, que mantiveram sempre estreitas relações com seus primos, descendentes de seu irmão José, que residia na casa matriz.

José (1842-1896) casou-se duas vezes e teve 18 filhos. De seu primeiro casamento, em 1863, com Carlota Deolinda de Carvalho Ribeiro (1845-1883), enteada de sua irmã Firmina, teve 14 filhos. Viúvo, casou-se em 1888 com Constança Cordeiro Torres e Alvim. Admirado pelos seus refinados hábitos sociais, dono da Oliveira Castro, Filho e Comp., firma de importação e exportação, pertenceu aos quadros diretores de várias companhias, foi presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, e recebeu, dias antes da Proclamação da República, o título de barão de Oliveira Castro.

A filha caçula, Castorina (1845-1878), casou-se em 1862 com Manoel Moreira da Fonseca,[33] nascido em Portugal; tiveram um único filho, Antonio Moreira da Fonseca, que se casou com sua prima-irmã Carlota Mendes de Oliveira Castro e se estabeleceu em Petrópolis, onde foi um grande médico homeopata.

 

Vestígios de uma presença

Situada na rua São Clemente no então n° 98, com cerca de 8.000m2 de extensão,[34] a chácara tem a frente fechada por gradil de ferro, ladeado por dois portões de ferro, o que permite que se descortine da rua o imponente sobrado de feição neoclássica.

A construção é composta por dois corpos ligados entre si por uma saleta e uma sala em forma de passadiço. O corpo da frente é assobrado e tem, no centro da fachada, um segundo pavimento. A fachada do primeiro pavimento tem nove vãos, entre janelas e portas, e no segundo, três janelas de sacadas; este corpo tem oito janelas de peitoril de cada lado e outras janelas e portas nos fundos do primeiro e segundo pavimentos. O corpo dos fundos, também em sobrado, é dividido em salas, quartos e outras acomodações.

Além do edifício, constam do terreno, à época, telheiros, banheiros e galinheiro, além de jardim, horta e pomar, onde se destaca um grande parreiral sobre vergalhões e barras de ferro, acompanhado de vasos, figuras, bancos de jardim etc.

O investimento na aquisição de propriedade de grande valor e extensão foi antecipado por gastos em melhoramentos, mencionados na escritura de compra, em janeiro de 1879: as obras feitas na chácara e prédio já mencionados, desde agosto do ano passado, o tem sido a expensas do outorgado comprador.[35]

Esse empenho não deixa dúvida do propósito de fixação social e afetiva de Albino e sua família em Botafogo, em meio à rede familiar dos Oliveira Castro, também residentes na rua São Clemente. Essa tentativa de radicação estava investida de forte caráter sentimental. Os Oliveira Guimarães haviam perdido, no ano anterior, em Portugal, o caçula Álvaro, com pouco mais de um ano de idade, e é provável que Luiza tenha vindo se consolar junto à mãe, D. Castorina, então com 65 anos.

Albino e Luiza se instalam com sete filhos, com idades e demandas diferenciadas. O mais velho, Antonio, então com 20 anos, forma com Castorina, com 17 anos, e Albino, com 16 anos, um grupo de jovens, em fase de desenvolvimento pessoal e de convívio social. Os quatro menores – José, com 13 anos, Luiza, 12 anos, Maria, com nove anos e a pequena Firmina, com quatro anos – podem brincar e estudar dentro dos muros da propriedade.

As mencionadas melhorias da propriedade se justificam pela necessidade de acomodação dos filhos como pela introdução dos serviços urbanos, para atender os quesitos modernos de conforto e higiene. As alterações dos serviços domésticos, com a instalação dos sistemas de água e esgoto, deve ter refletido também no quintal, que perde parte de suas funções de serviço e pode ser absorvido como área de lazer.

As obras encontram também motivação no tradicional apreço do português pela sua moradia, um importante símbolo de sua condição social. Investindo em sua moradia, o comendador reitera, no Rio de Janeiro, a tradição dos “brasileiros” bem-sucedidos, que marcam a paisagem arquitetônica do Minho com sobrados, palácios e palacetes, onde “as representações feitas através da localização, da arquitetura e da decoração das fachadas das casas constituem alguns dos elementos que configuraram a personagem do “brasileiro” e a teatralidade do seu tempo”.[36]

Ao retornar para Fafe, Albino se envolve novamente em reformas e obras. Instala-se e reforma a antiga casa que fora dos avós de Luiza, em Pardelhas, e constrói, em 1908, casa apalaçada na avenida 5 de Outubro.

O comendador Albino, como ativo membro do ciclo de benemerentes de cidade,[37] se destaca pelo empenho na remodelação de um jardim público da cidade, o Jardim do Calvário, em Passeio Público, que o transformou “em sítio de animação cultural no contexto do romantismo português”,[38] inaugurado em 1892.

 

As parreiras e os jardins de cá e de lá

Não é possível, hoje, identificar com precisão qual o desenho original da propriedade e a contribuição efetiva de cada um de seus ocupantes para sua configuração atual, ainda que o jornalista Brasil Gerson tenha registrado o depoimento de uma Oliveira Castro de que “foi o falecido Albino quem lhe deu a aparência que tinha quando Rui a comprou”.[39]

Essa dificuldade é acentuada pela reiteração de traços culturais de seus primeiros proprietários, já que barão da Lagoa e o comendador Albino, os responsáveis pelos seus contornos principais, eram oriundos do norte de Portugal e pertenciam ao mesmo estrato econômico e social.

O par de camélias a ornar a fachada, por exemplo, remonta aos casarios senhoriais do Norte do Portugal. Outro traço lusitano presente é a designação de “vila”, acrescido do nome da esposa do proprietário; no caso, é a denominação de “Villa Maria Augusta” que domina a fachada do passadiço, homenageando a esposa de Rui Barbosa, mas que pode ter sido anteriormente homenageado Ilidia [Casimiro de Freitas] ou Luzia [de Oliveira Guimarães].

Em seu percurso, o visitante pode perceber os elementos da configuração descrita na escritura de venda do barão para o comendador, com o sobrado circundado por “jardim, horta e pomar, grande parreiral sobre vergalhões e barras de ferro, vasos, figuras, bancos de jardim etc.” O jardim, por sua vez, se desdobra, segundo certa tradição portuguesa, em área para o convívio social, entre a rua e os salões de recepção, e outra, para uso doméstico.

A mutabilidade própria às áreas verdes dificulta as tentativas de reconstrução das fases da propriedade, agravada por reformas e uma violenta intervenção, que desfigurou a faixa lateral direita do terreno,[40] em conseqüência de desapropriação e terraplanagem para a abertura de uma rua, jamais implementada.

Há a instigar, porém, a reverberação da presença de dois elementos comuns à chácara de Botafogo e à Fafe – a pérgula com o parreiral e o traçado romântico que predomina nos jardins que circundam a casa.

O parreiral é uma indiscutível homenagem do primeiro morador, o portuense Bernardo Casimiro de Freitas, à terra natal. A pérgula, ou latada, que dá sustentação ao parreiral é um elemento presente nos jardins portugueses, em especial na região do Minho, e tem origem na antiga vila romana, onde o “ambulatio” formava um caminho protegido destinado ao percurso meditativo.

O eixo principal da pérgula se estende por 40m, e é cortado transversalmente por duas alamedas, formando um agradável percurso assombreado que define uma área possivelmente reservada ao pomar. Esse elemento é encontrado também na casa de Pardelhas, mas com uma função distinta: ele forma uma curiosa alameda que une o portão da rua à entrada principal da casa.

O traçado romântico comum ao jardim da chácara e ao Jardim do Calvário, com a presença de lago, ilhota, ponte, caramanchões e elementos argamassados, é outra coincidência a ser investigada, tomando-se em conta a presença desse tipo de paisagismo tanto nas mansões como nas áreas pública no Brasil e em Portugal.

Em 1878, enquanto o comendador promove as reformas na sua propriedade, está sendo construído, no centro da Corte, o Campo de Santana, um grande parque urbano,[41] com 86.587,95 m2, segundo o modelo do jardim romântico, de linhas sinuosas, então em voga na França. Inaugurado em 1880, com a presença da Família Imperial, o jardim foi recebido como “o mais belo que se pode encontrar no centro de uma capital”.[42]

Pode-se especular, portanto, sobre a hipótese de que os traços de jardim romântico da chácara tenham sido implantados por Albino em sua propriedade privada, que os teria reproduzido em Fafe, já na forma de um jardim público.

Faço aqui o convite para que o Museu Casa de Rui Barbosa e o Museu da Emigração e do Retorno e de Comunidades e Luso-Descendentes percorram, juntos, as trilhas de cá e de lá deixadas pelo comendador, e estabeleçam renovadas perspectivas sobre os processos culturais transnacionais.

 


 

[1] Miguel Monteiro. Museu da Emigração e os ‘brasileiros’ do Rio: o público e o privado na construção de modernidade em Portugal. I Encontro Luso-Brasileiro de Museus-Casa. Rio de Janeiro, 14-19 de agosto de 2006.

[2] Realizado de 5 e 8 de julho de 2007, em Fafe.

[3] O casal teve oito filhos: Antonio (1859-1925), Castorina (1862-1929), Albino (1863-1937), José (1866-1911), Luísa (1868-1890), Maria (1870-1903), Firmina (1875-1905) e Álvaro (1877-1878).

[4] Ele é um dos 7.065 emigrantes que, segundo Miguel Monteiro, saíram diretamente de Fafe para o Brasil, entre 1834 e 1926, dos quais cerca de 30% tinham menos de 14 anos.

 [5] Documento da Série Indústria e Comércio/Comércio: Junta e Tribunal. Código: 9X, IC³ 57. Fl.36, no. 200. (10/03/1851). Arquivo Nacional.

[6] Segundo o Almanak Laemmert (1858, p. 363), o estabelecimento ficava na rua das Violas [atual Teófilo Otoni], esquina com rua Direita.

[7] Almanak Laemmert, 1858, p. 561.

[8] Segundo o Almanak Laemmert, no número 84, de 1861 a 1865; e no 109, de 1866 a 1868, respectivamente.

[9] Em meio a uma maioria de filhos brasileiros, havia os portugueses Luísa, 5o filho, nascida em 1867, e Álvaro, nascido em 1876, e que morreria dois anos depois ainda em Portugal.

[10] Manoel Moreira da Fonseca, cunhado de Luiza, foi nomeado procurador do casal em 23/02/1886, com amplos poderes para alugar ou vender os bens deixados no Brasil.

[11]  Certidão, datada de 23/10/1961, da escritura de compra e venda do prédio e chácara à rua São Clemente 98 vendido pelo comendador Albino de Oliveira Guimarães e sua esposa ao senhor John Roscoe Allen em 12/05/1890. AHI/FCRB.

[12] Mauricio Abreu A. Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO, 1997 3 ed. p. 39.

[13]  Enquanto Gloria e Catete se consolidavam como áreas de mais alto status residencial, Botafogo era um terminal de transportes, passagem para áreas mais periféricas e de difícil acessibilidade como Copacabana, Gávea e Jardim Botânico, apud. Sergio Roberto Lordello dos Santos. Expansão urbana e estruturação de bairros do Rio de Janeiro – o caso Botafogo. Tese submetida Coppe-UFRJ, Rio de Janeiro, 1981. p.99

[14]  Idem,  p. 97.

[15] Em 1844, outra companhia instalou linha da enseada à Ponta do Caju; em 1852, a Companhia Niterói-Inhomirim também se dedicou a esse trajeto, segundo Maurício Abreu, p. 41.

[16] Sergio Roberto Lordello dos Santos, p. 32.

[17] Sergio Roberto Lordello dos Santos, p. 47.

[18] Maria Beatriz Nizza da Silva (coord.). Dicionário da História da Colonização Portuguesa no Brasil. Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 1994. p. 582.

[19] Eulália Maria Lahmeyer Lobo. Fontes para a historia do comércio da cidade do Rio de Janeiro. Disponível em http://www.institutomora.edu.mx/revistas/Numero%209/9-6-EulaliaMa_LahmeyerLobo.pdf

[20] Em: http://www.museudapessoa.net/hotsites/sescrio/index.htm.

[21] Rodrigo Camargo Godoi. O Rio lusófobo de Machado de Assis. Análise da personagem Marcela das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Cadernos de História. Ano I, n.º 2, setembro de 2006. Disponível em www.ichs.ufop.br/cadernosdehistoria.

[22] Foi grande capitalista, proprietário e negociante de grosso trato no Rio de Janeiro, onde viveu durante muitos anos, foi diretor do Banco Rural e Hipotecário do Rio de Janeiro. Seu título foi concedido por Portugal. (www.museu-emigrantes.org).

[23] Fidalgo cavaleiro da Casa Real, comendador da Ordem da Nossa Senhora da Conceição da Vila Viçosa, comendador da Ordem de Cristo, por Portugal, e visconde, a partir de 1866.

[24] Foi presidente da Companhia Brasileira de Navegação a Vapor, do Banco Comercial do Rio de Janeiro e o principal fundador do Brazilian and Portuguese Bank, depois chamado English Bank of Rio de Janeiro, com sede principal em Londres. Foi presidente honorário das Associações Comerciais do Porto e de Lisboa, diretor-secretário do Banco do Brasil e da Associação Comercial do Rio de Janeiro, na qualidade de representante do comércio português. Fundou diversas companhias de seguros: Garantia, Confiança e Fidelidade, além da Companhia Comércio e Lavoura (museu-emigrantes.org). O governo português lhe conferiu o grau da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, fidalgo cavaleiro da Casa Real, comenda da Ordem de Nossa Senhora de Jesus Cristo, título de primeiro visconde de S. Salvador de Matosinhos e de conde.

[25] De fazendas secas por atacado, e comissões.

[26] Situada na face sul da serra da Carioca, em terreno do antigo Engenho Del Rey, a Chácara dos Macacos tinha como vizinhos a chácara da família Faro (futura fundação Melo Matos, na rua que tomaria seu nome), adquirida em 1850 pelo segundo barão do Rio Bonito, e o Jardim Botânico, fundado em 1809 por D. João VI no lugar da antiga fábrica de pólvora. Cortada pelo rio Macacos, é um dos caminhos de acesso à Floresta da Tijuca.

[27] Atual rua Teofilo Otoni

[28] Almanak Laemmert 1845, p. 213 e Almanak Laemmert 1846, p. 233.

[29] Antonio morreu em 27 de novembro de 1859, segundo http://oliveiracastro.br.tripod.com/1.htm

[30] Brasil Gerson. O Jornal. Rio de Janeiro,  29/06/1958.

[31] A propriedade, já com a numeração 398, foi vendida para dar lugar a edifício, na década de 1980.

[32] Castorina morreu a 20 de maio de 1880, e foi enterrada no Cemitério São João Batista, segundo o CGB.

[33] Seus dois irmãos, José e Domingos, casaram-se com duas filhas de Firmina, respectivamente, Maria Mendes de Carvalho Ribeiro e Maria Mendes da Luz.

[34] Segundo escritura de venda fl. 28, v. e 29, livro 242, do 2o. Oficio de Notas, a 10/01/. 1879, as medidas seriam: 49,60 m de frente, 53 m de fundos, 162,30 m na lateral direito, e 160,37 m, na lateral esquerda.

[35] Escritura, 9/01/1879. Arquivo Fundação Casa de Rui Barbosa.

[36] Miguel Monteiro. “Marcas arquitetônicas do brasileiro na paisagem do Minho”. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Os Brasileiros do Torna-Viagem no Noroeste de Portugal. Lisboa, 2000.

[37] Ainda no período brasileiro, Albino participava das ações benemerentes de sua terra, como a construção, iniciada em 1859, do edifício do Hospital de São José ou da Misericórdia de Fafe, produto da estreita ligação dos ausentes no Brasil, com os residentes na Vila de Fafe. No regresso, o casal contribuiu para a para a construção da igreja Nova de São José.

[38] Em http://www.museu-emigrantes.org/npasseiopublico.htm.

[39] GERSON, Brasil. Botafogo. História dos subúrbios. Departamento de História de Documentação da Prefeitura do Distrito Federal, p.36

[40] Segundo a museóloga Cláudia Reis, depoimentos de netos de Rui Barbosa indicam que havia nessa área um elemento de ligação entre o lago da frente da casa e o que circunda o coreto. Disponível em

http://www.casaruibarbosa.gov.br/biblioteca/serie_memoria/palestraClaudiaReis.doc

[41] A obra, iniciada em 1873, estava a cargo do paisagista Auguste François Marie Glaziou (Lannion, Bretanha, a 30/08/1833 – Bordeau, 1906), engenheiro civil com especialização em botânica, testemunha da implantação dos parques parisienses nas reformas de Haussmann, que lhe servirão de inspiração. Veio para o Brasil em 1858, a convite do Imperador D. Pedro II, para coordenar a Diretoria de Parques e Jardins da Casa Imperial. Foi responsável pela divulgação no país do modelo do jardim inglês, realizou muitos projetos de jardins e parques, dos quais se destacam as reformas do Passeio Público (1861), do jardim da Quinta da Boa Vista e do Campo de Santana, considerada sua obra mais significativa no Rio de Janeiro. Na Botânica, realizou a descoberta de muitas espécies, sobre as quais publicou diversos trabalhos. Introduziu plantas brasileiras em praças e ruas, como o oitizeiro.

[42] Jornal do Comercio, ano 59, p. 249, p1.