POESIA

 

 

 

As primeiras notícias sobre a emigração são dadas por Garcia de Resende (1470-1536, ao manifestar-se preocupado com a ideia de despovoamento perante a saída de tantos Portugueses do reino:

 «Viymos muyto espalhar

 portugueses no viver

 Brasil, Ilhas  povoar

a aas Indias yr morar

 natureza lhes squecer(…

 

No  século XVIII, Correia Garção (1727-1772) remete a emigração para a ideia de sofrimento por que passa o emigrante:

 

«Guarde a terra avarenta nas entranhas

O ouro fulgente.

O Mineiro na roça aflito cave

C'os sórdidos escravos;

Por ignotos sertões exponha a vida

 Do Bárbaro Tapuia

 À seta venenosa, à veloz garra

Do tigre mosqueado».

 

O paradigma de um personagem tipo surge com Filinto Elísio (1734-1819), ao definir o emigrante como sendo ambicioso e ávido de Ouro do Brasil, dizendo:

 

«Saiu de Samardã certo pedreiro

 Faminto de ouro, em busca de fortuna ;

 Embarca, vai-se ao Rio, deita às Minas,

E lida, e fossa, e sua, arranca à terra

 O luzento metal, que o vulgo adora.

 Vem rico a Samardã; vinhas, searas,

Casas, móveis, baixelas compra (...)».

 

 

Os Emigrantes

Ei-los que partem novos e velhos
Buscar a sorte noutras paragens,
Noutras paragens, entre outros povos
Ei-los que partem, velhos e novos.

Ei-los que partem, olhos molhados
Coração triste, a saca às costas,
Esperança em riste, sonhos dourados
Ei-los que partem, olhos molhados.

Virão um dia, ricos ou não
Contando histórias de lá de longe
Onde o suor se fez em pão,
Virão um dia, ricos ou não,
Virão um dia, ou não.

Manuel Freire

 

Cantar de Emigração

 

 

Este parte, aquele parte

e todos, todos se vão.

Galiza, ficas sem homens

que possam cortar teu pão.

 

 

Tens em troca órfãos e órfãs

e campos de solidão

e mães que não têm filhos

filhos que não têm pais.

 

 

Corações que tens e sofrem

longas horas mortais

viúvas de vivos-mortos

que ninguém consolará.

 

Rosalía de Castro

 

Tradução de José Niza

O nosso amargo cancioneiro, Livraria Paisagem, 1973 - Porto