O PENEDO DO AZEITE

 

Monteiro, Miguel,(1995),

“Cultos e Ocultos de Monte Longo”,

separata - Minia,

 Braga, ASPA,PP.103-135.

 

 

Existe na freguesia de São Martinho de Silvares um penedo aparentemente igual a muitos outros. Recentemente foi dinamitado e partido em dois, sem que as duas partes em que ficou dividido, tenham sido, tenham sido retiradas do local onde ficaram.

 

Tal atitude deveu-se ao desfazer a lenda a que o penedo está associado.

 

Se não fossem as marcas rupestres que ele evidencia e a lenda  a ele associada, passaria ao lado do nosso interesse e poderia ter a mesma finalidade de tantos outros.

 

Analisemos então os dados de que dispomos.

 

Segundo a lenda, do penedo brotava azeite, o qual era colhido por mulheres. Porém, depois de duas delas aí se terem desentendido, nunca mais o precioso líquido brotou.

 

Nele ainda se podem ver marcas rupestres cujo simbolismo ainda obscuro poderá ajudar a abordar uma explicação para o mito.

 

Na parte onde era suposto o azeite ser colhido, existe uma cavidade cuja configuração evidencia fortes semelhanças com um órgão genital feminino e, na parte superior, pode ver-se uma complexa marca rupestre ligeira mente virada a nascente, graficamente complexa.

 

Atrevemo-nos a achar que estamos perante um "santuário" frequentado por mulheres que aí praticariam rituais à fertilidade, muito anteriores ao cristianismo.

 

Estas marcas rupestres corresponderiam a representações culturais de povos da pré-história, construídos e desenhados por uma população que praticaria uma primitiva actividade agrária e a pastorícia de transumância, principais fontes da sua substância.

 

Estes nossos antepassados, condicionados na capacidade interpretativa dos fenómenos naturais e humanos, à luz do que hoje entendemos por conhecimento científico, manifestavam, nas práticas mágico-religiosas ritualizadas em "santuários", a sua própria forma de conhecimento e compreensão do universo humano, como resposta às carências e incapacidades próprias das sociedades ditas «arcaicas» ou «primitivas».

 

Estas sociedades manifestam e formulam as suas concepções do mundo através de símbolos, mitos e ritos, donde se depreende a sua compreensão do universo.

 

As pedras têm para as comunidades significado porque estão possuídas de uma força exterior que aí depositou um poder, tornando-as sagradas.

 

Porque o santuário foi profanado numa luta entre duas frequentadoras, deixou de cumprir a sua sagrada função, pelo que hoje não se verifique qualquer prática.

 

Miguel Monteiro

Mínia - 3.ª Série -

Anno II - 1994, pp. 105 - 136