Actividades Económicas Tradicionais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Miguel Monteiro (1996),

Migrantes, Emigrantes e Brasileiros,

Territórios, itinerários e trajectórias,

Braga, Universidade do Minho

 

Segundo o Foral de Montelongo (1513), as obrigações foreiras, pagas desde o dia de São Miguel até ao Natal, referiam o pão, vinho, carnes e outras coisas - ou dinheiro.

 

Carvalho da Costa [1706] refere para o concelho "é fértil em trigo, vinho, algum azeite, muitos gados de toda a sorte, mel, caça e pesca em três regatos que nele nascem".[27]

 

Em 1736, é referida a abundância de pastos, os quais permitiam que houvesse muito gado e produtos derivados como o leite e a manteiga, comercializados na vila de Guimarães. O concelho era também abundante na produção de vinho. Os produtos agrícolas cultivados eram: o milho maiz, centeio, milho branco, feijão, trigo, castanha e toda a casta de hortaliças e frutas, para além de ser referido, como riqueza local, a criação de toda a variedade de aves domésticas.[28]

 

Sem que se pressinta, ao nível das produções agrícolas, significativas alterações do que no século XVIII era a vida económica, em 1952, as actividades económicas fundamentais continuam a ser a agricultura, a pecuária, a  pesca e a caça, conhecendo-se as actividades locais ao nível das formas, processos e tecnologias das culturas do milho, do centeio, da batata, das técnicas de secagem e de moagem de cereais, dos instrumentos de pesca, apicultura, caça, onde através da ilustração dos instrumentos utilizados nestas actividades, [29]

 

Nenhuma referência existe em Palmira [1952] sobre a mecanização da agricultura, sendo os instrumentos descritos basicamente de madeira e ferro e a energia utilizada hidráulica ou sangue.

 

A vinha, em 1886, surge referida como uma importante cultura nas freguesias de Antime, Armil, Cepães, Estorãos, Fafe, Freitas, Golães, Passos, Ribeiros, Serafão e Travassós e Vila Cova. As vinhas são todas levantadas em uveiras sobre as árvores que cercam os campos.

 

As Castas mais cultivadas são o azal preto, a borraçal, o espadeiro, o vinhão tinto, a tinta mole e o sousão.[30]

 

Por outro lado, em 1838, um dia de geira (160 réis), estava colocado na coluna dos preços no 18º lugar na tabela dos 26 preços assinalados, correspondendo a metade do custo de um alqueire (16 Kg) de milho alvo, quatro vezes e meia inferior ao alqueire (15 Kg) de trigo e  quarenta réis a diferença entre um dia de trabalho e o preço de uma vara (1,10 m) de bragal, que custavam $120 réis.[31]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pecuária

 

A carta de foral de 1513, refere a existência obrigações foreiras pagas em carne e outras coisas - ou dinheiro e a referência a gados do vento (gados perdidos).

 

Em 1706, Carvalho da Costa diz-nos que em Fafe existe «gado de toda a sorte».

 

Em 1736, o padre António de Sousa Homem diz que Fafe é sobretudo rico em na criação de gado, principalmente gado bovino e ovino.[32]

 

Em 1886, J. Augusto Vieira, dá-nos uma visão da importância que esta actividade tinha no século XIX:

 

«há pouca criação de gado bovino, vendendo-se os bezerros e vitelas depois de aleitados, aqueles para creação e estas para consumo - sabe o leitor que é afamada a vitela de Fafe - e ambos ainda para este último fim, sendo mais geral comprar fora gado feito, tanto para trabalho, como para pensar e engordar.

 

É pouco usual a recreação, a qual quase somente tem lugar para as rezes vindas de Barroso e Cabeceiras de Basto; a ceva ou engorda do gado bovino é também rara (hoje menos).

 

Em Fafe, mais que em nenhum dos outros concelhos, se faz reparável a discordância entre vacas de creação, que atingem o número de 2.717 cabeças, quantidade que nenhum outro acusa, e o número de 221 crias até um ano recenseadas; mas este reparo deve desaparecer ou pelo menos perder muito da importância, notando-se que Fafe é grande, relativamente aos outros concelhos, a matança de vitelas, e que até se exportam, pela fama que têm, para outros localidades.»[33]

 

A pecuária do concelho em 1886[34]

Espécies

Nº de cabeças

valores

Cavalar

Muar

Asinino

Bovino

Lanar

Caprino

Suíno

383

113

120

5. 330

6. 788

395

3. 716

3. 425$400

1. 659$000

3 51$200

120. 500$900

1. 435$025

234$200

38. 404$000

 

    Fonte: José Augusto Vieira, O Minho Pitoresco, Lisboa, Tomo I, Liv. A. M. Pereira, 1886, p. 581

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comércio

 

 

 

Como sinais de uma vivência comercial, há notícia em Pinho Leal de duas feiras, em 1874, uma em Fafe realizada no primeiro dia do mês e outra no dia dezoito no lugar da Pica, freguesia de Quinchães.[35] Esta última, só de gado, já se realiza em 1736, no lugar da Pica entre as freguesias de Quinchães e São Gens.[36]

 

Para além destas, realizavam-se em 1886, nos dias 16 de Maio e 22 de Agosto, as feiras de ano em Fafe. A de Maio ainda é a Feira Franca e a segunda era conhecida pela feira das cebolas.[37]

 

A primeira, foi criada "por provisão régia de D. João V, que se realizava todos os meses num dos primeiros dias de cada mês.

 

Celebrada primeiro no lugar da feira que se assim se ficou a chamar por ser lugar dela, foi depois transferida para o terreiro da cadeia. Era de um só dia onde se vendia gado e de todo o género de produtos".[38]

 

A segunda, que se realizava a 22 de Agosto, era conhecida, em 1736, pela feira de São Bartolomeu, com a duração de dois dias, constituem, com uma outra que se realizava junto à ermida de São Roque, na freguesia de São Gens,[39] a informação das principais referências da actividade comercial com significado social dos habitantes locais.

 

 

«A tela está vivamente colorida; o quadro ressurge vogotroso de luz e movimentado largamente. Basta para isso sacrificar um pouco a cronologia e imaginar - se o meu amigo nos 16 de Maio ou 22 de Agosto, assistindo às feiras de ano, que têm lugar na vila. Na primeira faria um pintor animalista a sua colheita farta, estudando, esboçando as atitudes das numerosas manadas, que aí concorrem; na segunda, não menos animada, chamada  "a feira das cebolas" por ser quase exclusivamente este o género que ali se vende, encontraria o artista explendidos motivos para o seu estudo, transportando para o seu album os costumes das lavradeiras, a fisionomia risonha dos burgueses da vila ou das de casa que se vêm fazer as suas compras, os carros enfileirados, em volta de que se agrupam os compradores, as danças, as danças, os descantes!» [40]

 

Dado que o lugar onde se realizavam as feiras de Fafe se situa no trajecto viário de ligação a Basto, reforçam o papel que estas tiveram na trajectória de desenvolvimento da vila de Fafe, bem como a afirmação deste sítio, (lugar de passagem e ligação ao interior) como referência simbólica de centro comercial e social.

 

A administração, em 3 de Dezembro de 1892, elabora um projecto de alinhamento e alargamento da Feira Velha.

 

Em 1922 a Câmara elabora um projecto para o embelezamento do mesmo lugar, esmerando-se nos cuidados decorativos deste lugar, mantendo-se a função comercial, ainda que este melhoramento nunca se tivesse efectuado.

 

Outro lugar comercial, é anunciado em 8 de Novembro de 1888, no localizado na então Praça D. Pedro V, hoje designada por Praça Egas Moniz, destinado ao mercado do peixe, que não veio a ser construído.[41]

 

Em 1895, há notícia da existência de um mercado de peixe no Campo da Feira, insuficiente e incomodo, [42] sendo construído, em 1912, um Mercado Municipal de Peixe naquele lugar.

 

«Agências bancárias: Dos Bancos de Portugal; Aliança; Económico Português; J. M. Fernandes & C.ª; Joaquim Pinto da Fonseca & C.ª: Elvira Lobo & C.ª. Do Banco do Minho, Fábrica do Bugio. Do Borges e Irmão; José de Freitas Fernandes.

 

Do Crédito Franco-Portugais; Banco Comercial; Casa Tota da Silva, Almeida Guimarães e Alves. Agências de Seguros: Da Companhia de seguros de vida a Lusitana, José Mendes da Cunha; Da Portugal Previdente, António Nogueira Mendes; Da Douro, Bernardino Monteiro; Da Prosperidade, D. Maria Teresa da Costa & Silva.

 

Companhias Marítimas: Correspondentes da Pacífico; Mala Real Holandesa; Lamport & Halt Line; Messageries Marítimes Boot Line, José de Freitas Fernandes. Da Mala Real Inglesa, Adolfo Coimbra de Medeiros.»[43]

 

A representação de companhias marítimas, seguros e de bancos, informa-nos da existência de uma actividade ligada ao transporte marítimo e à existência de um mercado financeiro, e a existência de capitais disponíveis para aplicação neste tipo de mercado.

 

 

Miguel Monteiro (1996),

Migrantes, Emigrantes e Brasileiros,

Territórios, itinerários e trajectórias,

Braga, Universidade do Minho

 


[27]   Costa, António Carvalho da, Corografia Portuguesa, Tomo I, Lisboa, 1706, p.157

[28]   Borralheiro, Rogério, Nas Origens do Concelho de Fafe. O Discurso Fundados do Pároco de Santa Eulália de Fafe em 1736, Actas das Primeiras Jornadas de História Local, Câmara Municipal de Fafe, Fafe, 1996, p.203

[29]   Pereira, Maria Palmira da Silva, Fafe- Contributo para o Estudo da Linguagem, Etnografia e Folclore do Concelho, Coimbra, Casa do Castelo, 1952

[30]   Vieira, José Augusto, O MInho Pitoresco, Lisboa, Tomo I, Liv. A. M. Pereira, 1886, p.580

[31]   Um alqueire é uma medida de capacidade utilizada nos produtos secos, que corresponde, na região a 16 Kg, quando utilizada para milho e 15 kg para trigo, centeio ou cevada. A arroba é uma medida de peso e corresponde a 15 Kg. Um carro corresponde a quarenta razas, o mesmo que 640 Kg e a raza a 16 kg.  Um arrátel, como medida de peso, corresponde a 459 g. Uma vara, aplicada na medição do linho ou bragal correponde a 1, 10 m.
Um almude corresponde em Fafe a 24 litros e um quartinho, corresponde a meio litro e é aplicada aos líquidos.

[32]   Borralheiro, Rogério, Nas Origens do Concelho de Fafe. O Discurso Fundados do Pároco de Santa Eulália de Fafe em 1736, Actas das Primeiras Jornadas de História Local, Câmara Municipal de Fafe, Fafe, 1996, p.203

[33]   Vieira, José Augusto, O Minho Pitoresco, Lisboa, Tomo I, Liv. A. M. Pereira, 1886, pp.580-581

[34]   Idem, p.581

[35]   Leal, Augusto Soares Barbosa de Pinho, Portugal Antigo e Moderno, Vol. III, Lisboa, Livraria Editora de Matos, Lisboa, P.132

[36]   Borralheiro, Rogério, Nas Origens do Concelho de Fafe. O Discurso Fundados do Pároco de Santa Eulália de Fafe em 1736, Actas das Primeiras Jornadas de História Local, Câmara Municipal de Fafe, Fafe, 1996, p. 204

[37]   Vieira, José Augusto, O Minho Pitoresco, Lisboa, Tomo I, Liv. A. M. Pereira, 1886, p.568

[38] Borralheiro, Rogério, Nas Origens do Concelho de Fafe. O Discurso Fundados do Pároco de Santa Eulália de Fafe em 1736, Actas das Primeiras Jornadas de História Local, Câmara Municipal de Fafe, Fafe, 1996, p. 204 e 205

[39]   Idem, ibidem.

[40]   Idem, ibidem.

[41]   Monteiro, Miguel, Fafe dos Brasileiros (1860-1930) Perspectiva Histórica e Patrimonial, Fafe, Ed. autor, 1991, p.88

[42]   Deliberação municipal, Livro de actas, n.º14, 26/8/1895.

[43]   «Almanaque de Fafe», Fafe, n.1º, 1909, p.33-34.