Memória Social e Patrimonial

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Miguel Monteiro

 

 

Miguel Monteiro

 

Os territórios coloniais de Portugal receberam marcas de civilização inscritas em quadros militares, económicos, administrativos e religiosos dos séculos XVII e XVIII, com evidente expressão em formas de conflito social, aculturação e transformação de natureza, iniciando a fundação dos territórios da Lusofonia.

 

Com a transferência da família real para o Brasil, em 1808, a cidade do Rio de Janeiro torna-se a capital do império, donde ressaltam as primeiras iniciativas descolonizadoras e a aceleração da emancipação do Brasil.

 

A assinatura de tratados comerciais com a Inglaterra, em 1810, permitiu que este país beneficiasse de privilégios especiais, mantendo-se no centro das decisões e orientações político/económicas, retirando benefícios da transformação da política colonial, a que o Brasil tinha estado sujeito, para uma economia exportadora capitalista decorrente da abertura dos portos à navegação estrangeira.

 

Esta situação permitiu um clima favorável à construção de uma vivência comercial que favoreceu a emigração de portugueses ampliando o fluxo tradicional emigratório.

 

Estes emigrantes portugueses, do século XIX, eram originários das casa de família tradicional, possuindo um elevado  prestígio social local.

 

Quando bem sucedidos, faziam viagens frequentes à terra de origem, ou a ela regressavam definitivamente, tornando-se visível, e fortemente notada, a sua chegada, através de iniciativas de carácter agrícola, comercial e industrial, sendo a construção de casa, a expressão mais referencia do sucesso e as quais se vieram a constituir-se como objectos arquitectónicos paradigma.

 

Em simultâneo, fundou escolas, hospitais, asilos, jardins públicos, marcando o território geográfico e simbólico evidenciando, ainda, com elementos de representação de grandeza e identidade particular nas sepulturas, apresentando-se como católicos ou  Maçons.

 

Nesta atitude de retorno fez-se notar na vida pública, preocupando-se com o bem comum, ocupando cargos de natureza politica e filantrópica e, quando promoveu a construção de teatros, manifestou atenção pela cultura e pela arte. 

 

Enquanto frequentadores de casinos, praias, termas, cafés reflectem especialmente no ócio a expressão de "capitalista", pela qual passam a ser designados, representando, assim, o estatuto social mais elevado.

 

Ao mesmo tempo que se instituía de prestígio público com gestos de solidariedade filantrópica, marcava o território com expressões da beleza, sabedoria e valorização da força do trabalho, usando a arquitectura, a decoração e a estatuária, como metáforas simbólicas enraizadas nas civilizações clássicas.

 

Transportou, de outras origens, os símbolos legitimadores do poder, os sentidos da urbanidade e de modernidade que apreendera nos contactos e vivências das cidades do Brasil, nas quais fundou instituições de Cultura e assistência e, nas viagens permanentes que fazia pelas capitais estrangeiras.

 

Outro lugar de aprendizagem foi a frequência das lojas de Maçons.

 

Aí apreendeu os sentidos da interpretação da história universal e, ao conhecer os princípios do racionalismo filosófico e, nos respectivos rituais, apreendeu os modelos da estrutura organizacional das sociedades laicas.

 

Difundiram em Portugal o ideário liberal da filantropia social e cultural, fortemente inscrita nos princípios da modernidade Maçon do Brasil, procurando afirmar as virtudes fundamentais:  liberdade de pensamento,  independência da razão e o auxílio mútuo.

 

Esta burguesia, feita de "Brasileiros" ricos instalados nas Vilas do Minho, em tempo de regresso definitivo, forjou sentidos de descendência privilegiada, pela ocupação de lugares da administração pública e pela liderança das agremiações de interesse filantrópico.

 

Muitos deles viviam de rendimentos e eram chamados de capitalista, reforçando o seu prestígio na terra, fundando os Clubes como lugares de privilégio para discutir as últimas novidades chegadas da Europa, fazendo política e tecendo estratégias de poder.

 

Faziam das cidades de Lisboa e do Porto o lugar de eleição para demoradas estadias, instalando-se em hotéis ou aí procuravam a sua residência definitiva.

 

"Outras épocas conduziram a outros destinos da emigração portuguesa, em todos os continentes e em grande número de países do Mundo. De alguns destes casos existem traços dos respectivos percursos históricos ou marcas deixadas em realizações materiais ou intelectuais; em muitíssimos outros, essas memórias encontram-se dispersas ou situadas em localizações indefinidas, importando — para que a memória se não perca — localizá-las, reuni-las estudá-las e, tanto quanto possível, assegurar a sua perpetuidade para conhecimento das gerações de hoje e de amanhã." (Rocha-Trindade)

 

 

 

Miguel Monteiro