PELA REPÚBLICA!

 

O Movimento Republicano de Santarém

(1895- 1906)

 Luísa Maria Gonçalves Teixeira Barbosa

         Relativamente ao percurso do republicanismo em Santarém, na década e meia que antecedeu a implantação da República Portuguesa, referimo-nos, em artigos anteriores, à criação do Grémio Literário Guilherme de Azevedo, indicando-a como a primeira associação republicana instalada em Santarém, cuja data de fundação se apontou para 1905, tendo em conta todos os indícios encontrados, marcando desta forma a expansão do movimento republicano na região.

         Os passos dados pelo movimento republicano de Santarém, parecendo pequenos, foram seguros. Relembremos alguns passos liderados por importantes republicanos escalabitanos ou da região de Santarém: em 1895, forma-se uma comissão que conduziu uma subscrição, com o objectivo de trazer os restos mortais de Guilherme de Azevedo de Paris, aí falecido em 1882; em 1897, Joaquim Assis Brasil, Ministro Plenipotenciário da recente República Brasileira, era recebido na Quinta da Palmeira, na lezíria ribatejana, por José Malhou; o mesmo Ministro brasileiro, voltou a Santarém em 1898 e, decorridos dois meses, Campos Salles, futuro presidente dos Estados Unidos da República Brasileira, eleito uns dias depois da sua estadia em Portugal, era homenageado pela população de Santarém, na Estação de Caminhos-de-Ferro, num breve intervalo criado na sua viagem ao Porto à passagem por esta Cidade.

No início do século XX, a influência dos republicanos continuava a fazer-se sentir e, em 1901, a Manifestação Liberal, liderada por republicanos, e futuros republicanos, como Manuel António das Neves, homenageava escalabitanos liberais e ilustres como Sá da Bandeira, Passos Manuel e Visconde Serra do Pilar  com cortejos cívicos, vivas e iluminações nocturnas.

 

Os Anos de Afirmação (1904-1905)

 

Em 1904, homenageava-se o escalabitano Guilherme de Azevedo, o esquecido republicano e socialista, cujos ossos permaneceram em solo parisiense, nas salas do Grémio de Santarém (1895); recebeu-se, ainda, em importantes cerimónias, Bernardino Machado, dissidente regenerador e prestigiado dirigente republicano, pela Associação de Empregados do Comércio; ainda, Batalha Reis veio a Santarém fazer uma conferência na Biblioteca Camões; amplamente noticiada, foi também a visita institucional à Cidade pela Academia de Estudos Livres, de Lisboa; em 1905, o jornal O Mundo, órgão do Partido Republicano Português, em Lisboa, anunciou logo no início do ano, uma conferência sobre “A Educação Cívica”, a proferir pelo “correligionário” José Montez, no Teatro Taborda, Carlos Gomes – “Photografo de Lisboa” – ex-empregado de fotografia de Vidal e Fonseca, instalou-se na Rua de São Lázaro e veio a ser um nome de relevo na 1.ª República escalabitana, certamente possuidor de espólio[1] fotográfico importante para a compreensão desse período da história de Santarém; o Hotel Duarte veio a mudar de mãos, nesta data, e passou a chamar-se Hotel Central – eram dirigentes republicanos os novos gerentes -; sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano, foi fundada a Loja da Liberdade, n.º 247, de Santarém o que coincidiu, certamente, com a fundação do Grémio Literário Guilherme de Azevedo, tendo sido, este, apadrinhado por Magalhães Lima.

 

O Partido Republicano de Santarém, em 1906…

 

Em Janeiro de 1906, realizou-se uma manifestação operária em tributo ao médico Mendes Pedroso[2] liderada pelo operário republicano José Avelino de Sousa. No mesmo mês, escrevia-se no jornal republicano O Mundo que se tinha reunido a Comissão Municipal do Partido Republicano de Santarém, para eleger os seus membros, na qual se tratou da “fundação de um jornal do partido nesta cidade”, o que só veio a verificar-se no ano seguinte, com a fundação de O Debate (5 de Dezembro de 1907), o que se deveu, certamente às perseguições exercidas pelo governo após a publicação da Lei de Imprensa de 22 de Junho.

Por sua vez, Magalhães Lima, membro do Directório Republicano e maçon destacado, veio a Santarém participar num comício republicano, realizado no dia 16 de Dezembro; tal como veremos adiante, ainda em 1906, o Grémio Literário Guilherme de Azevedo revelou-se o herdeiro directo do Grémio de Santarém, tendo recebido o seu espólio, entre o qual se encontrava o desenho encomendado ao artista José Ayres, de Lisboa, datado de 1904 e que, ainda hoje, perdura nas paredes do Círculo Cultural Scalabitano, lembrando-nos tão notável escalabitano e homem de letras.

 

Os Escalabitanos em Defesa da República

 

         Olhando os intervenientes nestas acções, reparámos em vários nomes sempre presentes e na constância de três deles, marcados pela sua importante intervenção na propaganda republicana: o primeiro era Manuel António das Neves e, os outros, José Montez e José Avelino de Sousa. O primeiro republicano histórico e comerciante na Cidade, José Montez estudante em Coimbra, formou-se em Direito e exerceu advocacia em Santarém e José Avelino de Sousa, operário tipógrafo, proprietário da Tipografia Progresso, da Rua Guilherme de Azevedo.

Estes terão sido, entre outros, os republicanos eminentes que assumiram a organização e o desenvolvimento do movimento republicano em Santarém, nos últimos anos da monarquia. Integrando as diferentes estruturas partidárias, como a Comissão Distrital, as Comissões Municipais e Paroquiais, foram responsáveis pela vasta propagação e consolidação da ideia republicana em Santarém.

 

 

 

 

 


 

[1] Alertámos para a necessidade de inventário, restauro e classificação desse espólio existente na Biblioteca Municipal, na conferência “A Construção do Edifício Republicano”, proferida no Círculo Cultural Scalabitano, no dia 26 de Janeiro de 2006, integrada no ciclo de conferências que evocou o Centenário do Grémio Literário Guilherme de Azevedo, cujo texto se encontra à espera de publicação pela Escola Superior de Educação de Santarém.

[2] Na mesma conferência referida, aludimos ao interesse de se pintarem as letras da placa de pedra que nos dá nota de uma outra homenagem que decorreu em Janeiro desse ano de 1905, existentes na fachada do número 36, da Rua de São Nicolau, o qual verificámos, com agrado, ter já sucedido.