A Expansão da Maçonaria Portuguesa e o Republicanismo

A Loja da Liberdade n.º 247

 

 

 

Foi no ano de 1907 que o ideário da Maçonaria Portuguesa se aproximou, mais intensamente, do ideário republicano. Esta associação republicanizava-se, definitivamente, com a ascensão de Magalhães Lima, ao Grão-Mestrado, em Maio. Este facto revelou-se essencial para a organização do movimento revolucionário que viria, posteriormente, a implantar a República Portuguesa, tendo contribuído, ainda, para o prestígio conquistado pelos republicanos portugueses junto dos países europeus e americanos que vieram a apoiá-la, tal como o Brasil, a Argentina, a França, a Inglaterra e os Estados-Unidos. Todos conhecemos a participação da Maçonaria na criação da Loja Montanha e na Comissão da Resistência, bem como as relações próximas entre os dirigentes desta e da Carbonária, ambas responsáveis pela organização da revolução de 5 de Outubro.

 

Esta associação desenvolveu-se, exponencialmente, no princípio do século XX, levando o seu ideário a todo o país com a criação de Lojas e Triângulos, promovendo iniciações de novos irmãos e, ainda, envolvendo-se na fundação de associações, escolas, bibliotecas, asilos e universidades, concretizando na prática as ideias que defendiam, resumidas no seu lema: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. O influxo da Maçonaria fez-se sentir, por exemplo, através da acção de alguns maçons, na criação da Universidade Popular ou da Liga Nacional de Instrução.

 

Momentos antes da sua investidura, quando Sebastião Magalhães Lima era, ainda, presidente do Conselho da Ordem, já se faziam sentir os efeitos da política de reorganização e expansão no país. Constava, assim, do Boletim do Grande Oriente Lusitano, de Abril: “Congratulamo-nos convosco pelo estado de laboração, pela reorganização dos principais órgãos, pela expansão maçónica, pelo alargamento das relações no estrangeiro, pela instituição da Liga Nacional de Instrução e da Universidade Livre”.

Apesar de escassos os estudos que aprofundam a expansão desta agremiação e, considerando que o crescimento e consolidação do Partido Republicano Português no país, não se pode dissociar da sua acção, podemos afirmar que a região de Santarém, além da instalação de órgãos partidários republicanos como a Comissão Distrital, as Comissões Municipais e Paroquiais, foi igualmente brindada com a fundação de Lojas e Triângulos maçónicos, anos antes de 1910. Se não vejamos: Oliveira Marques refere-se à criação da Loja Liberdade n.º 247[1], em Santarém e o Anuário do Grande Oriente Lusitano Unido, indica-nos o ano 1905, como a data da sua fundação, referindo a sua abertura “com 7 Obreiros”; o mesmo Anuário apontava, ainda, a constituição dos Triângulos de Alcanhões, Alpiarça e Torres Novas. Nesse mesmo ano, a Loja da Liberdade, de Santarém, fez-se representar por um obreiro de nome simbólico Guilherme de Azevedo[2], no Congresso Maçónico da Península Ibérica.

 

A Loja não parou de crescer, sabemos que em Janeiro de 1907, realizaram-se quatro iniciações, conforme se encontrou referência no Boletim do Grande Oriente Lusitano e que, em 1909, foi a vez da iniciação de José Avelino de Sousa, tendo tomado o nome simbólico de Vítor Hugo[3].

 

Perante o crescente descrédito das instituições da monarquia liberal, nomeadamente o da família real portuguesa, agravado pela ditadura do governo de José Franco e pelos escândalos dos adiantamentos e aumento da lista civil, relacionada com os gastos abusivos da Casa Real, acrescentando o apoio ao governo franquista e as fraudes eleitorais, o Partido Republicano alargou a sua base social de apoio entre um número cada vez maior de descontentes. Além disso, a coincidência do ideário republicano e o da Maçonaria ajudou a difusão da ideia republicana. Os republicanos mostravam-se crentes que a mudança de regime era suficiente para ultrapassar todos os problemas sociais e económicos, igualmente convictos que a República era a única forma de moralizar a sociedade, impor a democracia e zelar pela liberdade.

 

 

 

 


 

[1] A. Oliveira Marques indica a data de 1904.

[2] Cf. Relatório - Congresso Maçónico, das duas potências da Península Ibérica, Espanha e Portugal, realizado em Lisboa no Palácio do Grande Oriente Lusitano Unido, Supremo Conselho da Maçonaria Portuguesa – Templo de José Estêvão, nos dias 21, 22 e 23 de Junho de 1905, Lisboa, A Liberal, 1905. O nome profano não está referido, no entanto, podemos aventar a hipótese de pertencer a Manuel António das Neves, visto este Relatório se encontrar no espólio bibliográfico que deixou à BMS.

[3] Arquivo do GOLU.