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Os portugueses do Brasil, poucos anos depois da Independência, deram início a uma obra associativa que não tem paralelo no mundo. Ainda na primeira metade do século XIX surgiram os primeiros "Gabinetes de Leitura" e as primeiras "Beneficências" - aqueles voltados para a instrução de seus associados e estas, para a assistência e a ajuda aos atingidos pela doença, aos velhos sem amparo, às famílias desprotegidas, à pobreza silenciosa. Mais tarde, surgem os "Liceus" e as Sociedades de Socorros Mútuos, os "Grémios" e os clubes, as associações cívicas, que se multiplicaram sob a égide de Vasco da Gama e de Luís de Camões, cujos centenários o mundo lusíada celebrou, no crepúsculo do século passado. No Pará, onde vivia uma comunidade portuguesa das maiores e das mais importantes de todo o país, que além da sua pujança económica era marcada pelo espírito empreendedor de homens de grande visão do futuro, também desde cedo foram criadas instituições que se propunham, nas suas diversas áreas, atender às aspirações e necessidades da "colónia". Assim, em 1854, é fundada a "Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente", graças à inspiração de Francisco Medeiros Branco, e, em 1867, precisamente 30 anos depois de ser criado no Rio de Janeiro o Gabinete Português de Leitura, também se juntam no prédio da "Sociedade Beneficente", localizado no antigo Largo das Mercês, algumas dezenas de compatriotas com o objectivo de fundar uma instituição de carácter cultural. Na sua génese, ela iria chamar-se "Gabinete Português de Leitura", conforme a convocatória publicado no "Diário do Grão Pará", mas, querendo um nome "mais pomposo", nos Estatutos sancionados pelo governador provincial a denominação registrada é de Grémio Literário Português, conforme nos ensina Eugénio Leitão de Brito, no seu cuidadoso trabalho sobre o historial da instituição. O nome é o que menos importa, pois a ideia era a mesma e os objectivos também. Os portugueses do Brasil, talvez inspirados nas "boutiques à lire", que começaram a aparecer logo após a Revolução de 1789, resolveram criar um tipo de instituição onde os sócios pudessem, através da leitura, melhorar o seu conhecimento e o nível da sua instrução. Entretanto e ao contrário das "boutiques" francesas, que emprestavam os livros mediante o pagamento de uma certa quantia, os "Gabinetes de Leitura", no Brasil, não tinham esse aspecto mercantil - e ofereciam as obras de sua biblioteca sem nenhuma paga. Da mesma forma e ao contrário dos "gabinetes de leitura" de carácter ideológico (no interior de S. Paulo houve vários ligados à maçonaria) os nossos tinham no seu cerne a difusão da cultura e a valorização dos legados espirituais de um povo. Foi essa filosofia a implantada no "Grémio", que se tornou rapidamente num espaço cultural e cívico, num centro de ensino voltado para os cursos comerciais, numa matriz da "Universidade Livre do Pará". A sua história, ao longo de sucessivas gerações, não difere muito da história de entidades congéneres: é o sonho e o ideal, primeiro; as aquisições do património; o enriquecimento do acervo bibliográfico a presença de intelectuais de estirpe; os rasgos de coragem de seus dirigentes, o exemplo fantástico dos Homens que souberam vencer desafios e transpor dificuldades; a doação e a entrega; a devoção pelo Brasil e por Portugal; a solidariedade e a partilha com tudo aquilo que dignificou a comunidade portuguesa do Brasil. Quando se repassa a História do "Grémio", seguindo a sua trajectória e evocando os Homens que no passado e no presente lhe deram a dimensão e a grandeza que tem, sentimos não apenas justificado orgulho por tudo, mas também, a necessidade de dizer do nosso reconhecimento aos que, na Amazónia exuberante e fantástica, souberam e sabem manter o coração de Portugal - é o "Grémio". A. Gomes da Costa http://www.instituto-camoes.pt/estudos/gremiobelem.htm |