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Território e Paisagem Local
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Miguel Monteiro (1996),
Migrantes, Emigrantes e Brasileiros,
Territórios, itinerários e trajectórias,
Braga, Universidade do Minho
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Miguel Monteiro (1996),
Migrantes, Emigrantes e Brasileiros,
Territórios, itinerários e trajectórias,
Braga, Universidade do Minho
Miguel Monteiro
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«Olhe, meu caro, esta boa
terra de Fafe é assim: pão pão, queijo queijo - portuguesa de lei,
hospitaleira, franca até á rudeza e capaz também de pôr um bom cacete de
cerquinho, a sua justiça deles, onde el-rei não haja posto a sua própria.
E é que a espada vai na
burra, e nada por isso de contrariar a altaneira Fafe. Mas é de
simpatizar, não é verdade?
Eu, de mim, quando ao
regressar de Basto, em uma das excursões que fiz pela
província, cheguei ao alto da Gandarela e avistei a larga bacia enflorada
de esmeraldas, em que assenta a maior parte do concelho, paisagem onde a
luz ri e a água brinca, tive a compreensão desta alegria máscula e
saudável, deparando no vale extenso e nas montanhas rudes com o aspecto
duma natureza, que é ao mesmo tempo uberrina e alegre, forte e expansiva.
Aí tem o homem explicado pelo meio.»
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Fafe é a designação
simultânea de duas realidades distintas: a única freguesia urbana e sede
administrativa do concelho e a do concelho.
Localiza-se no Minho
geográfico. O Minho dos contrastes, económicos, sociais e humanos: O
Litoral, o Alto Minho, e o Minho Interior.
Fafe, dentro desta região do
Norte do país, pertence ao Minho do Interior; o Minho do Alto Ave e dos
contrafortes do Marão, da Cabreira e do Gerês, onde predominam pequenos
vales percorridos por inúmeros ribeiros originários da cadeia montanhosa
que circunda o concelho e preenche a maior parte do seu território a que
a romanização chamou de "Mons Longus", onde radica a sua antiga
designação de concelho - Montelongo.
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Este situa-se a 41 0
27,6 ' de latitude e a 0 0 58,2' a E do meridiano de Lisboa,
apresentando um relevo de altitude média de 350 metros, atingindo no
ponto mais alto 893 metros.
Desta região, temos, em 1527, uma das
primeiras referências descritivas: «Este
concelho de Momtelomguo he terra de mantenha e caise chão nõ tem loguar
jumto nhuü nem fortaleza»
referindo-se, deste modo, mas muito genericamente, a um primeiro
território, que o concelho de Montelongo ocupava, e que actualmente
constitui parte do actual concelho de Fafe.
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Os limites geográficos do
actual concelho são definidos, a Norte pelo rios Ave e a Este pelo Tâmega,
os quais, através dos seus vales profundos, marcam as fronteiras desta
micro-região no sentido Este-Oeste e Norte-Sul, delimitando-se assim das
terras do Barroso e do Marão. Para cá do rio Tâmega fica a serra do Viso,
como limite do território de Fafe, como prolongamento natural do planalto
de "Monte Longo" e situada já no concelho de Celorico de Basto.
Geograficamente, Fafe é já o
fim dos vales extensos e abertos do Norte Litoral, que lentamente se
ajustam e se reduzem, aproximando-se progressivamente aos contrafortes
das montanhas do interior, anunciando o inicio dos concelhos do Minho
Interior
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Os limites administrativos
são definidos a Norte pelos concelhos de Póvoa de Lanhoso e Vieira do
Minho; a Leste, pelos de Cabeceiras de Basto e Celorico de Basto; a Oeste,
pelo concelho de Guimarães; a Sul pelo de Felgueiras.
Saindo da sede do concelho,
vai-se aos dois primeiros, viajando pelo serpentear do vale apertado do
Vizela e, a partir de Travassós, pelo rio Pequeno, para se chegar, à bacia
do Ave e às terras do Barroso. Aos concelhos de Basto chega-se
atravessando as serras de Moreira ou da Lameira.
Aos concelhos de Guimarães e
de Felgueiras, vai-se caminhando na direcção do Sul e Sudoeste, parecendo
mais fácil e próximos.
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Os montes parecem franquear a ida, agachando-se e
abrindo-se para facilitar passagens, onde tudo parece mais aberto, mas
também mais cheio, rico e verde, num o quadro geomorfológico local que, ao
longo de milénios, apresentou alterações muito lentas e indetectáveis.
Estas elevações, sem
evidenciarem características próprias das Serras, apresentam
prolongamentos nas vertentes que se alongam numa progressiva diminuição de
altitude orientadas para Sul e Oeste, onde se localizam os Concelhos
vizinhos de Felgueiras e Guimarães.
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No Norte acentua-se a
altitude do planalto de Monte longo, que circunda o concelho, onde nascem
os rios Vizela, Ferro, Bugio e muitos outros pequenos ribeiros seus
afluentes, os quais vincam a paisagem no seu caminho para o Ave.
O rio Vizela, como a mais
importante linha de água, com nascente na freguesia de Pedraído, mereceu a
atenção, em 1706, de Carvalho da Costa [1706], que descreveu o seu
trajecto desde a nascente até desaguar no rio Ave.
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«O rio Vizella dista de
Guimaraens huma legoa para Sul, nasce nas terras do Couto de Pedraydo, &
despenhando-se por ellas ao lugar de Calçoens, corre partindo a Freguesia
de S. Pedro de Queimadella do termo de Guimaraens, & daqui buscando o
lugar de Vizella, ahi toma o seu nome na Freguesia de S. Thomé de Travaços
passa à de S. Vicente de Passos, dividindo-a do Concelho de Monte Longo, &
nesta freguesia tem a sua ponte de Bouças de pedra lavrada junto da Ermida
de S. Bartolomeu, que estando na borda do rio he daquelle Concelho, &
correndo de Nascente a Sul pela Freguesia de Gulaens chega à Honra de
Cepaens, donde quasi meya legoa de distancia vay dividir o Couto do
Pombeiro do termo de Guimaraens.
No Couto de Pombeiro acha o rio Avizela
franqueando a sua passagem para o Vendaval com a ponte do Pombeiro de
pedra lavrada, ao pé da serra de Santa Catarina, da parte Sul.[...].»
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Ao ser assim tão
cuidadosamente descrito infere-se da importância que esta linha de água
tinha na viragem do século XVII, não só para Monte Longo, como para as
terras do termo de Guimarães e para o importante Couto Beneditino de
Pombeiro.
Este rio, sendo a maior e a
mais importante linha de água do Concelho, orienta-se dentro do território
concelhio no sentido Nordeste - Sudoeste, recebendo as águas de dois dos
seus principais afluentes: o Ferro e o Bugio, cujos percursos se orientam
no sentido Este - Oeste.
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A orientação destas linhas
de água, cujas nascentes se situam no território do concelho, ou que por
ele correm, vincam os declives do relevo local e o modo como as populações
nele se instalaram, dado que, nas sua vertentes, se instalaram as
populações que hoje formam as freguesias e lugares habitados.
No extremo Norte, quase nos
debruçamos sobre o leito do rio Ave e nos sentimos nas proximidades das
freguesias que se encontram geograficamente mais distantes da sede
administrativa, nomeadamente Gontim, Aboim, São Miguel do Monte,
Felgueiras, Várzea - Cova, Pedraído, Queimadela, Várzea - Cova.
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Dos pontos mais altos do
Norte, vêem-se os afloramentos graníticos agrestes e despidos do Marão,
Cabreira e Gerês, vincando desníveis abruptos que debitam para as terras
de Fafe ventos secos, que influenciam negativamente a capacidade
vegetativa das culturas e plantas naturais desta parte do concelho.
A vista daqueles maciços
montanhosos e cinzentos do interior contrasta com a do litoral, anunciada
na frescura verdejante das chãs húmidas das encostas do planalto de
Montelongo, escondidas por entre carvalhais que se estendem pelas encostas
viradas a Sul e Oeste, protegidas dos efeitos desidratadores das ventanias
do Norte.
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A vegetação arbórea sempre
terá sido reduzida, dado que, ainda hoje, podemos observar rebanhos de
ovinos e caprinos que teimam em testemunhar antigas e documentadas formas
de vivência tradicional, o que ainda justifica a existência de grandes
manchas sem vegetação arbórea.
Por entre as manchas dos
carvalhais, restam ainda raros exemplares de uma fauna que, noutros
tempos, terá sido rica e variada, havendo ainda notícias de uma fauna
variada: corças, lobos, lebres, texugos, lontras, perdizes, rolas, pombos,
águias, corvos, codornizes, e muitos outros animais que outrora povoaram a
paisagem do concelho.
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Porém, e tendo em conta a
importância que a caça tinha na alimentação dos habitantes locais,
destacamos a informação do século XIX, que revela antigas abundâncias que
então ainda existiriam:
«A nossa mesa era lauta em coelhos. Façam
ideia do montesinho da terra, sabendo que um criado saía fora de portas
com dois cães e um pau, e voltava com uma braçada de coelhos, uns, a meu
ver, filados pelos cães, outros derreados à bordoada.»
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O carvalho é a árvore que
assume maior relevo, quer pela madeira que desde sempre forneceu, quer
pela possibilidade de surgimento de duas indústrias artesanais:
a do carvão e a da casca.
Se a indústria do carvão ainda hoje resiste
como actividade dos habitantes desta parte do concelho, a da casca, em
1952, era referida como actividade de relevo.
A casca era extraída do
carvalho de quatro em quatro anos, principalmente nas freguesias de Várzea
Cova e Aboim, a qual, depois de seca era moída. Após a extracção do tanino
da casca, este era vendido para o Porto e Guimarães onde era utilizado na
indústria dos curtumes. Os resíduos da casca eram queimados nas lareiras.
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Além disso, a morfologia
destes territórios, é caracterizada pela possibilidade em se abarcar
grandes distâncias e pela disposição das chãs húmidas, dispostas nas
vertentes viradas a Sul e Oeste.
Por outro lado, as inúmeras
nascentes de água que se orientam no sentido Norte - Sul e Este - Oeste e
a sua boa disposição solar constituem, com a natureza arenosa do solo, o
espaço ideal para populações estabelecidas na base de uma actividade agro
- pastoril.
Se a natureza do solo
propiciou uma agricultura episódica e a pastorícia, a existência de um
espaço abertos em plataformas de altitude variável, chegando aos 700
metros, os primeiros habitantes desta paisagem dominavam, com alguma
facilidade, um vasto território envolvente.
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Ainda recentemente, a
agricultura do centeio, a pastorícia, a fabricação do carvão constituíam
as actividades principais dos habitantes do Norte, através das quais se
poderá apenas imaginar algum do seu antigo quotidiano.
As plataformas montanhosas do Norte e
Nordesde do concelho são o lugar onde
podemos encontrar as marcas de uma humanização pré - história, onde estas
populações terão instalado frágeis e precárias estruturas habitacionais e
que o tempo foi preenchendo com lendárias simbologias que ainda perduram e
nos quais se fazem referências a mágicos poderes, onde se misturaram
"sagradas personagens", como por exemplo na Lagoa, onde se vai tirar o
diabo.
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Aqui as estradas vão-se
abrindo em torcicolos por entre urge rasteira, informando-nos de
natureza geográfica desta terra e do traçado sinuoso das vias de
comunicação.
Caracterizada por um relevo
de baixa altitude onde inúmeros vales de pequenos ribeiros e algumas
elevações que constituem prolongamentos naturais do planalto, orientados
em declives suaves anunciadores do Atlântico.
Esta parte do concelho
compreende os vales mais abertos e as elevações de altitude menos
vincada.
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Numa observação mais atenta
observamos três factores que influenciam o processo económico e social de
todas elas, ainda com incidências diferentes: os campos ajustados às
ribeiras e às levadas, o monte e as vias de comunicação.
O Centro/Sul é o local das
terras mais férteis onde se desenharam socalcos menos íngremes e campos
mais extensos, porque a inclinação das encostas é mais suave.
A prática de construção dos
socalcos surge como processo de construção de campos agrícolas de maior ou
menor dimensão, integrados entre si numa relação directa com a inclinação
da encosta mais ou menos íngremes.
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No vale encontramos os solos
francamente regados por engenhosas e fartas levadas, cujos desníveis
permitiram a rega de terras situadas a grande distância, funcionando
permanentemente para rega de Verão ou rega de lima no Inverno.
O grande número de linhas de
água permitiu a construção de moinhos de várias mós, afirmando-se em
alguns casos como conjuntos edificados indicadores da dimensão das
propriedades e da riqueza dos proprietários.
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Através da quantidade de
milho e do estrume produzidos numa propriedade, inferia-se para o valor e
dimensão da propriedade quando colocada no mercado. Pelo primeiro,
deduzia-se da dimensão da área de cultivo e, através do segundo, da
dimensão do montado necessário à produção do referido fertilizante, regra
que se aplicava a todo o concelho.
Qualquer propriedade, com
interesse agrícola, era composta de duas unidades produtivas: o terreno
arável e os "montes" de onde provinham os matos fertilizantes.
Existe,
assim, uma interligação entre a propriedade agrícola, montado e o número
de cabeças de gado, que, no conjunto, constituem a imagem social do seu
proprietário.
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