Casa de José Alves de Freitas
R. Monsenhor Vieira de Castro, nº 32
4820 Fafe
Portugal
Proposto como Imóvel de Interesse Local pelo PDM de Fafe, DR 224/94, 1ª Série B, de 27 de Setembro
Alexandra Lima e Paulo Dordio 2003,
Trabalho realizado para a DGEMN.
Enquadramento: urbano, flanqueado a N. pela antiga casa de José António Martins Guimarães, de dois pisos, e a S. por casa renovada de 3 pisos.
Fachada principal orientada a E., abre directamente para a rua; o alçado posterior, orientado a O., abre para o antigo jardim da casa.
Descrição: casa de planta quadrangular, três registos e cobertura em telhado de quatro águas. Frontispício orientado a E., para a rua, fachada posterior aberta sobre pequeno quintal.
Alçado N. adossado e alçado S. parcialmente adossado. Paredes rebocadas a bege e, no frontispício, soco, cunhais apilastrados, vãos, pilastras, cornija e ático em granito.
Alçado principal amplamente rasgado por vãos, em arco pleno, e modulado por duas pilastras em três panos, o central com três vãos em cada registo e os laterais com um vão em cada registo.
No 1º registo abre-se porta no eixo flanqueada por dois janelões de contorno ovalado, e duas portas laterais.
No 2º registo as janelas são de sacada abrindo três para uma sacada contínua, assente em consolas graníticas de volutas, no pano central, e uma em cada um dos panos laterais.
No 1º registo as portas receberam pintura a castanho e nos outros registos os caixilhos e alizares são em madeira e pintados a bege.
Sobre o ático, duas urnas rematam os cunhais e duas estátuas alegóricas as pilastras.
Na vertente do telhado, no eixo, abre-se janela de mansarda e, no topo, clarabóia.
O alçado O. apresenta galeria rasgada por três arcos plenos no 1º registo e cinco vãos no 2º registo, servido por sacada corrida, sendo o central porta de acesso abrigada por pequeno alpendre. A sacada prolonga-se para o alçado S. no qual se abre porta para a sacada.
No 3º registo rasgam-se cinco janelas.
A chaminé, correspondendo à cozinha, encima o alçado S.. O quintal alberga um conjunto de anexos: a casa da barrela, fumeiro e doçaria, e pequenos currais.
Também um poço e um tanque, de reduzidas dimensões, para a demolha do bacalhau.
Flanqueando a casa, pelo lado S, situa-se a fossa de origem. Pequeno portão no lado N. guarda comunicação com a casa vizinha, construída alguns anos antes, e cujos proprietários eram familiares directos.
No interior, a porta principal dá acesso a átrio de recepção para o qual abrem quatro portas, uma à esquerda e uma à direita, dando acesso a dois compartimentos onde funcionaram escritórios *1, e duas fronteiras, conduzindo uma às restantes dependências deste piso térreo, lojas destinadas fundamentalmente à arrecadação de produtos agrícolas, e outra à escadaria que leva aos pisos superiores.
As paredes do átrio receberam pintura a amarelo, os vãos, de arco pleno e ombreiras apilastradas, são em granito, o tecto é em estuque ornamental, o pavimento em mosaico de padrão geométrico em tons de castanho e amarelo. Há, neste piso, cinco compartimentos destinados a loja.
Na parede limite O. três portas abrem para a galeria na qual se dispõem, nos dois extremos, arrumos a S. e um sanitário a N. *2. Flanqueando, a partir do átrio, a porta contígua ao vão que dá acesso às lojas, acede-se à escadaria central da casa, de quatro lanços opostos, em torno da qual se organiza o espaço nos dois pisos superiores.
Sobre a escadaria, iluminando-a, abre a clarabóia com lanternim em vidro polícromo e ornada a estuque trabalhado com decoração invasora, integrando grinaldas, besantes, cartelas com motivos vegetalistas, e enquadrada por consolas ornamentais.
No 1º piso situam-se, abrindo para o frontispício, salão e escritório.
O pavimento é em madeira, alternando o tom escuro e o claro, as paredes revestidas a papel imitando tecido, e os tectos são em estuque ornamental, integrando festões e motivos geométricos e vegetalistas estilizados.
Para a fachada oposta abre galeria coberta, de remodelação posterior, que antecede a sala de jantar ornada com tecto em estuque pintado em tons de castanho a imitar madeira, com motivos de caça e naturezas-mortas.
Num dos extremos da galeria, uma pequena copa, e no outro, um sanitário.
A cozinha, de dimensões modestas, desenvolve-se para S. da sala e ostenta desenvolvida chaminé. Mantém alguns azulejos de origem.
O último piso é ocupado por quartos, três orientados para a rua e os restantes desenvolvendo-se em torno da escada.
Nos extremos da galeria, voltada a poente, situam-se sanitário, de um lado, e sala de banho, do outro.
Na generalidade das divisões do 1º e 2º piso as portas são em madeira com acabamento de escaiola, em tons de castanho, bem como os lambris, e os espelhos e puxadores, de secção circular, decorados com aplicações de marfim.
As paredes em torno da escadaria central receberam também acabamento a escaiola imitando mármore. O sótão alberga três quartos, pequenos espaços de arrumos e antigo depósito de água, em lousa.
Propriedade privada: pessoa singular.
Proprietária: Maria Eduarda Fernandes Leite de Castro Gonçalves
Utente: Luís Gonçalves
Cronologia: 1885 e 1886 - datas médias da construção da casa, lendo-se a primeira na fachada principal e a segunda no interior, no tecto do átrio da entrada. Mandada construir por José Alves de Freitas (1850 - 1918), emigrante no Brasil, no Pará, onde se tornou grande comerciante no negócio da borracha, após o casamento com Adélia Martins Monteiro (1863 - 1918), em terreno cedido pelo sogro, José António Martins Guimarães e que fazia parte do quintal da sua própria casa, a que se adossou do lado Norte, tendo, para isso, fechado as janelas existentes no respectivo alçado Sul (MONTEIRO, 1991); 1900 - aquisição na Exposição Internacional de Paris da mobília da sala de jantar, bem como a do quarto do ângulo NE. do 2º piso.
Tipologia: arquitectura civil ecléctica. Casa urbana vertical de três pisos e águas-furtadas, com telhado de quatro águas, fachada principal aberta à rua, amplamente rasgada por vãos em arco pleno, fachadas laterais adossadas e quintal nas traseiras. Paredes exteriores rebocadas e pintadas. Planta rectangular organizada em torno da escadaria central, comum aos três pisos, iluminada por clarabóia com lanternim em vidro polícromo e ornada a estuque trabalhado. Piso térreo com átrio de distribuição, lojas e escritórios, segundo piso com salões, sala de jantar e cozinha, terceiro piso com quartos, e águas-furtadas com quartos de criados e arrumos. Tectos de estuque trabalhado, por vezes pintado, paredes pintadas e revestidas a papel, lambris e portas de madeira com acabamento de escaiola, pavimentos de madeira com padrões claro e escuro.
Características particulares: desenvolvimento vertical acentuado pela existência de quatro pavimentos: rés-do-chão, dois pisos nobres e águas-furtadas. Planta de características arcaizantes verificando-se a inexistência de corredor de distribuição em torno da escada central e a comunicação directa de umas dependências para outras sem a mediação de corredores.
Adulteração: descaracterização da fachada posterior orientada a O. cuja remodelação, na década de 1960, introduziu elementos dissonantes no desenho e materiais. Descaracterização da cozinha com a remodelação da disposição original e introdução de novos materiais.
Bibliografia: MONTEIRO, MIGUEL, Fafe dos Brasileiros (1860-1930), Perspectiva histórica e patrimonial, Fafe, 1991, p. 172-175.
Obras realizadas: proprietário: 1960, em data anterior a - pintura a bege das caixilharias de madeira cuja cor original era azul claro; 1960, década - remodelação da fachada posterior com substituição das madeiras dos vãos que, viradas a oeste, não perduraram, e com inclusão de galerias cobertas no 2º e 3º registos; 2003 - obras no telhado, com substituição de telhas e de apenas algumas ripas de madeira, e pintura de todas as caixilharias e portadas de madeira.
A casa
foi-nos mostrada pelo Senhor Luís Gonçalves, filho dos actuais
proprietários, que até 2003 viveu na casa mandada construir pelo seu
trisavô, negociante de borracha no Brasil. Por via directa, materna, a
casa ficou sempre como propriedade da família. Com excepção das obras
realizadas na fachada posterior e galerias do 2º e 3º registos, a casa
encontra-se sem alterações significativas, mantendo os originais
pavimentos e tectos, bem como o revestimento de algumas paredes. A
alcatifa que recebeu em parte dos compartimentos preservou o pavimento
original.
Nota (1): estes dois espaços estão hoje alugados funcionando como
estabelecimentos comerciais. Nota (2): segundo informação do Senhor Luís
Gonçalves, o espaço deste sanitário era usado como receptor de
desperdícios dos sanitários dos pisos superiores, recolhidos em mato e
usados como fertilizante.
Miguel Monteiro (Coordenador )