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"Emigração e Retorno: Imagens Cruzadas num Webmuseu e o Papel da Tecnociência no Caso de www.museu-emigrantes.org
2006 - II Seminário Internacional: A Emigração Portuguesa para o Brasil, Local: Universidade Lusíada do Porto, 24 a 29 de Julho, organizado pelo CEPESE, (Centro de Estudos da População e Economia e Sociedade) com comunicação conjunta, Monteiro, Miguel; Rocha-Trindade, Maria Beatriz
Miguel Monteiro a) Maria Beatriz da Rocha-Trindade b)
RESUMO
A História económica, social e cultural, associada às migrações, constitui hoje uma das mais amplas formas de conhecimento do ser humana. A amplitude, riqueza e particularidades do fenómeno, decorrentes da dimensão quantitativa das movimentações humanos e da qualitativa que é visível nas biografias, bem como no que é a história particular de carácter local e regional, constitui uma das centralidades mais vincadas da inquietação científica dos nossos dias, nas quais se inscreveram as expressões maiores da vivência humana. As grandezas e tragédias vivenciadas nos territórios de saída e de destino, onde se experimentou a ruptura e o sofrimento, promoveram, pela transformação, o cruzamento de culturas e definiram a perspectiva da Historia Moderna e Contemporânea, marcando forte e positivamente o presente na sua visibilidade material e simbólica. Os museus, a ciência e as novas tecnologias permitem hoje novas abordagens ao fenómeno das migrações, ampliando a articulação entre os métodos e procedimentos, nomeadamente pela aplicação das novas tecnologias ao permitirem trabalhar grande volume de informações e das que se inscrevem no domínio da comunicação, em particular da web, e que dão sentido à perspectiva WEB (WEBMUSEU) no Museu da Emigração: Comunidades e Luso – Descendentes.
Abstract
Today the economic social and cultural History, associated to the migrations, constitutes one of the amplest forms of knowledge of the human being. The amplitude, wealth and particularities of the phenomenon, as a consequence of the quantitative dimension of the human movements and the qualitative one that it is visible in the biographies, as well as in what is the particular history of local and regional character, constitutes one of the wrinkled central points of the scientific curiosity of our days, in which the biggest expressions of the human life experience are present. The glorious deeds and tragedies, lived deeply in the destination and exit territories where the rupture and suffering were faced, promoted the crossing of cultures and defined the perspective of Modern and Contemporary History, marking strongly and positively the present time in its material and symbolic visibility. Nowadays, the museums, science and new technologies allow new approaches to the migrations phenomenon, extending the joint between the methods and procedures. It is possible to use the new technologies which allow us to work on a great volume of information and namely the technologies in the communication field, such as the web, giving sense to the WEB perspective (WEBMUSEU) in the Emigration Museum: Communities and Portuguese - Descendents.
Introdução
No século XIX, a ficção literária descreve, sistematicamente, o emigrante que tem como destino o Brasil, como aquele que sai ainda criança, pobre, analfabeto, masculino e que regressa a Portugal com cerca de quarenta anos, senhor de grande riqueza, depois de ter trabalhado no Brasil em condições muito difíceis. Contudo, os trabalhos mais recentes, em alguns aspectos, apresentam novos dados que indicam estarmos perante uma população de alfabetizados e da classe média e média alta.[1] Por outro lado, o retorno a Portugal marcou profundamente o país e em especial as cidades do Norte de Portugal, particularmente na arquitectura, indústria, filantropia social e cultural,[2] como reflexo da saída de 1 296 268, portugueses entre 1855 e 1914,[3] e, para o caso do Município de Fafe, de cerca de 8722. [4] Sabemos, também, que cerca de quinze mil pessoas terão embarcado para o Rio de Janeiro em 1808, acompanhando a ida do Príncipe D. João VI, aquando das invasões francesas. Estes, como seria de esperar, pertenciam à elite política, administrativa, militar, judicial e académica de Portugal, embarcando com famílias completas e, que de algum modo, circulavam nas proximidades da família real e da corte, sendo o momento descrito como repentino, mal planeado e caótico. O número, além de ser elevado, inscreve-se fora do âmbito dos estudos da emigração, dado ser considerado como um fenómeno particular de tipo colectivo, circunstancial e planeado pelo Estado. No entanto, quando inscrito no contexto da compreensão da mobilidade e das migrações, este fenómeno teve um forte impacto na construção da cidade do Rio de Janeiro. Por outro lado, não existem referências dos que, findo o perigo das invasões francesas, regressaram a Portugal, aquando da independência do Brasil em 1822. O Museu da Emigração e das Comunidades procura apreender o fenómeno das migrações e sua expressão nos dois lados do fenómeno: de partida e de retorno. Uma das abordagens é feita através das novas tecnologias por permitirem usar grandes volumes de informação, sendo nosso objectivo promover a identificação de emigrantes e do seu retorno. Para isso, recorrer-se-á aos registos oficiais da emigração, aos arquivos municipais, distritais e nacionais, a incluir numa Base de Dados, reunindo, preservando e expondo documentação e objectos relacionados com a emigração; criando uma Base de Dados Nacional de identificação de emigrantes e das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, com a possibilidade de ser auto-alimentada pelos visitantes. As ferramentas tecnológicas complementam os processos de reconstituição de Histórias de Vida, pela identificação do eventual papel nos processos de desenvolvimento nas localidades de instalação e/ou retorno, em diferentes domínios, recuperando documentos e objectos associados à emigração e aos emigrantes e descendentes, através da doação ou depósito à guarda do museu, contribuindo, deste modo, para a investigação e estimulando a preservação e estudo da história da emigração e do emigrante. O processo de musealização deste tipo de memória histórica e social permitirá, ainda, criar um espaço museológico como lugar físico organizador e gestor do conhecimento e da investigação, promovendo a pesquisa do papel dos emigrantes nos territórios de emigração e de retorno na arquitectura, indústria, comércio, filantropia, jornalismo, associativismo, artes, no trânsito das ideias em Portugal e nos territórios de destino. Nesta construção museológica impõem-se a ligação, através de protocolos, aos centros de Investigação nacionais e estrangeiros, no sentido da alimentação de um centro de investigação e documental e informático. Finalmente, o projecto procurará desenvolver e divulgar o conhecimento, através da realização de exposições, conferências, debates, colóquios sobre temáticas que tenham como objecto a valorização do papel das migrantes nos territórios de destino e no território de origem em tempo de retorno, usando as tecnologias web e explorando as múltiplas formas de fixação de memória.
É um projecto entendido como plataforma informativa e de dinamização de actividades de pesquisa e divulgação organizado nas seguintes vertentes: Salas temáticas, Arquivo, Casa Museu, Núcleos museológicos e Sítios Históricos, tendo em conta o Município de origem e a estrutura de serviços. O Webmuseu, como espaço comunicacional, funciona por Salas Temáticas e desenvolve-se em seis categorias de sentido: Na Sala da Memória dá-se visibilidade às expressões materiais e simbólicas da emigração nos lugares de destino e de retorno, na arquitectura, no trânsito das ideias, no desenvolvimento de iniciativas económicas, sociais e culturais expressas no espaço público urbano e rural e da filantropia, bem como as influências nos comportamentos na vida privada; a Sala da Diáspora constitui-se como uma base de dados, organizada por eixos geográficos: Europa, América do Norte, África, Ásia, Oceânia, Brasil e outros países da América do Sul, no sentido da identificação por via dos registos de passaportes; a Sala da Ascendência procura construir ou aceder a genealogias da base de dados do NEPS – Núcleo de Estudos de População e Sociedade da Universidade do Minho, elaboradas através do Método de Reconstituição de Paróquias de Norberta Amorim, bem como completar a organização das genealogias, através de outras fontes documentais e de informações das famílias, bem como os aspectos da "história de vida" de cada um dos seus elementos; a Sala das Comunidades dedica-se as associações de pessoas emigradas no Brasil, Europa, América do Norte, África, outros países da América do Sul, Ásia, permitindo o conhecimento da sua história, a divulgação das suas actividades e a manutenção de laços com os territórios de origem; a Sala Lusofonia divulga a vida e a obra de figuras associadas à construção do território da Lusofonia, evidenciando as expressões culturais mais significativas do tempo da apropriação dos territórios coloniais e daquele em que o Rio de Janeiro foi capital do Reino; a Sala do Conhecimento disponibiliza-se para de divulgação de trabalhos científicos nos diferentes domínios do conhecimento da colonização e da emigração, nas suas múltiplas abordagens temáticas e perspectivas, procurando ainda dar visibilidade aos documentos, aos autores e às instituições científicas. O conteúdo inscrito em cada uma destas categorias determina a organização estrutural informatizada do projecto, a qual deu sentido à sua automatização. A Casa Museu, como museu Histórico, é um Centro de Interpretação, constituindo-se como uma das referências do Museu da Emigração estruturado em salas de reconstituição da origem, viagem, vivência migratória. Nele se expõem os objectos pessoais, reconstituindo ambientes ligados ao quotidiano da família, dando nota do processo migratório e de mobilidade social. A localização procura valorizar o edifício, tendo em conta a localização espacial, as suas características arquitectónicas, a decoração do interior e respectivo mobiliário, bem como a história da Família do Brasileiro, em contextos público e privado. Na figura do emigrante sintetizam-se as expressões mais significativas da cultura portuguesa do século XIX e primeira metade do século XX. Não se trata, portanto, de reinventar o passado, mas apenas o desejo de lhe instituir as leituras possíveis num quadro de perspectivas abertas, tendo em conta a diversidade dos visitantes como destinatários. Os Núcleos Museológicos e Sítios Históricos decorrem, fundamentalmente, da Sala da Memória e constituem os espaços físicos, organizando um museu polinucleado, desenhado para a valorização do espólio e memória que lhes está associada. Nestes lugares e sítios encontrar-se-ão os acervos documentais e museológicos de cada um dos núcleos espalhados pelo país, dando ao contexto de origem a compreensão dos factores de emigração, bem como da visibilidade do retorno local. No caso já estudado de Fafe, os núcleos mostram as expressões materiais e simbólicas do ciclo de Emigração e Retorno do Brasil, as quais se constituem como referentes para a construção dos núcleos museológicos: Hidroeléctrico, Filantropia, Industrial, Passeio Público, Casa do Brasileiro, Instrução, artes, imprensa, Caminho-de-Ferro, Automóvel. Os espaços, objectos e territórios simbólicos de carácter local situado em Portugal são o testemunho objectivo do que, em sentido mais amplo, se designa por Retorno na Cultura e na Economia Portuguesa e corporiza o que foram os elos de ligação e da relação existente entre duas margens dos territórios da emigração. Outros núcleos podem vir a incluir este projecto de carácter internacional da cultura lusófona, ligado em WEB. O Arquivo Histórico, no sentido da descoberta dos indivíduos e dos quotidianos, procura recuperar documentos e objectos usados pelos emigrantes e descendentes, solicitando a doação ou depósito à guarda do museu, contribuindo, deste modo, para a investigação e estimulando a preservação e estudo da história da emigração e do emigrante. Constituem documentos com função ilustrativa e descritiva - cartas, diários, fotografias, objectos pessoais e mesmo a reconstituição de ambientes ligados ao processo migratório – tendo especial importância todas as categorias de documentos sistematicamente recolhidos e arquivados, na medida em que fornecem pistas, tanto para a localização de referências individuais como alimento para a pesquisas científicas suficientemente fundamentadas: - os manifestos de embarque dos navios de passageiros; registos de passaportes concedidos, de saídas efectuadas e de entradas num outro país; as autorizações de residência ou de trabalho aí atribuídas; as contratações colectivas de mão-de-obra estrangeira; enfim, todos os censos; listas ou simples contagens que se refiram a populações imigradas são elementos preciosos num museu de migrações. [5] Na selecção dos objectos teremos em conta o seu valor histórico/documental, os quais deverão cumprir os seguintes critérios: originalidade, autenticidade, singularidade e estado de conservação. Após a doação, os objectos de qualquer natureza passam a ser propriedade intransferível e inalienável e consequentemente, não cabe, ao antigo proprietário, requerer ou solicitar responsabilidade ou vantagem sobre os materiais doados. No caso de cedência temporária ou depósito à guarda do museu, cabe a esta entidade zelar pela sua conservação, garantindo a devolução definitiva ou temporária aos legítimos donos no prazo e condições protocoladas. Os Serviços são geridos na plataforma virtual, na qual se perspectiva uma abordagem de carácter nacional do fenómeno da Emigração e nos serviços culturais e educativos dos núcleos. Estes são um dos alicerces do museu, por animarem as suas actividades e estarem associadas aos conteúdos das Salas Temáticas. Os principais serviços são: planeamento, execução e divulgação das actividades; apoio à descoberta de ascendência; informação sobre os territórios de origem; intercâmbios, contactos e realização de actividades de divulgação; ligação aos centros de conhecimento; recolha e organização documental, trabalhos científicos e bibliografia; organização de exposições temporárias e de natureza cultural e educativa, encontros e reuniões científicas, culturais e sociais. Finalmente, o Centro de Investigação deste Museu, sendo constituído pelos pesquisadores que centram os seus estudos na área das migrações, constitui o eixo organizador da produção científica e a grande finalidade do projecto, ao mesmo tempo que é o lugar privilegiado para a sua divulgação.
Arquitectura das Memórias
Memória histórica
Este projecto recupera o sentido do particular e único, próprio das histórias de família, das biografias e das histórias de Vida e das Genealogias. Nele se inclui a perspectiva da História narrativa e se evidenciam os contextos para a compreensão das conjunturas. Por outro lado, o projecto procura as trajectórias de vida dos milhares de crianças, de mulheres e dos que ficaram à margem da História e que, agora, emergem na memória de netos e bisnetos que procuram os lugares que lhes preencheram a memória, falando-lhes de um passado carregado de encantos. É também uma perspectiva história económica, social e cultural, de natureza quantitativa e qualitativa, evidenciando quadros explicativos em sentido estrutural, procurando o permanente e o global, unindo o passado ao presente. Teremos presentes as perspectivas historiográficas sobre emigração, nomeadamente as que têm em conta os contornos dos fluxos e destinos e as políticas adoptadas (Miriam Halpern Pereira); o seu papel no quadro da dependência externa (C. Almeida e A. Barreto) e o seu enraizamento estrutural (V. M. Godinho). Estamos atentos aos estudos que colocam em confronto, sob prismas diversos, os dois pólos em relação - espaços de partida e de chegada (Pescatello, Rocha-Trindade). Incluiremos a perspectiva de micro-análise, integrado em abordagens mais totalizantes de comunidades rurais de origem (Arroteia, Brettel, Brandão, J. Alves, Carlos Silva, Scoot) ou de comunidades de emigrantes no estrangeiro, focalizando os processos sociais e/ou as experiências vividas (T. Monteiro, F. Neto). Por isso, um dos muitos caminhos deste projecto, busca novas amplitudes ao procurar “rastrear a corrente migratória enquanto volume de massas e correlacioná-la com indicadores pertinentes da sociedade de partida de modo a estabelecer redes de conexões; penetrar na família enquanto espaço de decisão ao nível de grupo económico, social e afectivo; seguir trajectórias individuais, tacteando comportamento, tensões e projectos do emigrante enquanto sujeito.”[6] Outros enfoques, olhando o jogo interaccionista simbólico da comunicação associado ao significado do vestuário, jóias, casas, fachadas, das famílias e envolvimentos públicos, ligam os contextos de saída aos de retorno, vão no sentido sociológico e antropológico que, com a história, constituem as únicas ciências globais. Desvendamos o caminho para uma tecnociência/tecno-história, no sentido comunicacional, da ilustração de particularidades e automatização quantificadora, medindo frequências de fenómenos, factos ou ocorrências. Este modelo, servindo-se de processos tecnológicos, permite a análise de conteúdo por associação e dissociação semântica, organizar, ilustrar e quantificar as informações presentes em Bases de dados e em documentos. Seguiremos, tendo como guia o "Caso", já estudado, de Fafe e que pode ser visitável na WEB. Para dar compreensão aos contextos históricos, sociais e culturais locais, propusemo-nos construir um modelo que baseou na criação de núcleos museológicos, procurando valorizar também a história material e das técnicas. Por último, propomos visitas virtuais aos núcleos museológicos, procurando através das histórias das famílias, penetrar na memória cultural, evidenciando conflitos, tensões, bem como a relação com o espaço público e os comportamentos sociais de contexto privado. Através de núcleos museológicos locais, do alargamento da capacidade de recolha de espólios, tendo em conta a diversidade temática e geográfica dos núcleos, daremos, no futuro, grande contributo para o conhecimento multifacetado das migrações e cultura lusófona, usando os contributos tecnológicos informáticos/WEB. Por outro lado, organizamos, para este projecto, um fundo documental constituído por documentos manuscritos, impressos, iconográficos, cartográficos. Nos livros deste fundo temos: monografias sobre a história local, arte, arqueologia. Temos acesso privilegiado à documentação produzida pelas autoridades locais, nomeadamente a emanada pela Câmara Municipal e outros órgãos autárquicos. Ainda neste âmbito são valorizadas as publicações periódicas: jornais, almanaques, anuários. Propomos, para este projecto, caminhar por todas estas fontes, na medida em que, o conhecimento «da vida quotidiana das pessoas que viveram há 50 ou 100 anos não é apenas testemunhada pelos relatos oficiais, notícias de jornais ou dados estatísticos, mas também por pequenas espécies, hoje para nós de importância ínfima e que normalmente todos desprezamos: As fotografias e postais retractam paisagens e pessoas. Procuramos nas imagens antigas, acompanhar as alterações urbanísticas, os edifícios desaparecidos ou transformados, a iluminação e os transportes públicos, o vestuário e os penteados, as poses, enfim a memória visual de muitas épocas da vida de uma comunidade está aí conservada». [7] Além dos púbicos, são de grande valia os arquivos particulares dos emigrantes e das famílias. Neles podemos encontrar uma abundante documentação privada, em especial correspondência comercial e privada. Nesses documentos acedemos a informações sobre a memória familiar e às tramas invisíveis das e trajectórias dos emigrantes e de seus descendências.
Memória literária
As primeiras notícias sobre a emigração são dadas por Garcia de Resende (1470-1536), ao manifestar-se preocupado com a ideia de despovoamento perante a saída de tantos Portugueses do reino: «Viymos muyto espalhar - portugueses no viver Brasil, Ilhas povoar - a aas Indias yr morar - natureza lhes squecer(…)» No século XVIII, Correia Garção (1727-1772) remete a emigração para a ideia de sofrimento por que passa o emigrante: «Guarde a terra avarenta nas entranhas - O ouro fulgente. - O Mineiro na roça aflito cave - C'os sórdidos escravos; - Por ignotos sertões exponha a vida - Do Bárbaro Tapuia - À seta venenosa, à veloz garra - Do tigre mosqueado». O paradigma de um personagem tipo surge com Filinto Elísio (1734-1819), ao definir o emigrante como sendo ambicioso e ávido de Ouro do Brasil, dizendo: «Saiu de Samardã certo pedreiro - Faminto de ouro, em busca de fortun; - Embarca, vai-se ao Rio, deita às Minas, - E lida, e fossa, e sua, arranca à terra - O luzento metal, que o vulgo adora. - Vem rico a Samardã; vinhas, searas, Casas, móveis, baixelas compra (...)». A paisagem social dos territórios de origem dos emigrantes portugueses está fortemente associada ás estratégias de herança e sucessão da casa de família, não sendo de ignorar as características estruturais e organizacionais das edificações. No século XIX, a ficção literária descreve o emigrante que tem como destino o Brasil, como aquele que sai ainda criança, pobre, analfabeto, masculino e que regressa a Portugal com cerca de quarenta anos, senhor de grande riqueza, depois de ter trabalhado no Brasil em condições de trabalho muito difíceis. Esta personagem literária exibe um estilo de vida caracterizado pelo exotismo no falar, no vestir e nas jóias que mostra, sendo apresentado com exuberâncias de uma caricatura. No mesmo sentido, a casa do Brasileiro e a gramática decorativa das suas fachadas são apresentadas como elementos estranhos à paisagem e descritas como disformes ou ridículas. Nesses textos, as casas são a expressão do mau gosto do seu proprietário, reforçando outros atributos negativos que o descrevem. Contudo, surgem agora as primeiras abordagens à arquitectura e ao respectivo contexto social e cultural, olhando a Casa do Brasileiro como o reflexo da modernidade urbana que chega à província pela mão de quem cresceu nas cidades cosmopolitas do Brasil.
Memória social e patrimonial
Os territórios coloniais de Portugal receberam marcas de civilização inscritas em quadros militares, económicos, administrativos e religiosos dos séculos XVII e XVIII, com evidente expressão em formas de conflito social, aculturação e transformação de natureza, iniciando a fundação dos territórios da Lusofonia. Com a transferência da família real para o Brasil, em 1808, a cidade do Rio de Janeiro torna-se a capital do império, donde ressaltam as primeiras iniciativas descolonizadoras e a aceleração da emancipação do Brasil. A assinatura de tratados comerciais com a Inglaterra, em 1810, permitiu que este país beneficiasse de privilégios especiais, mantendo-se no centro das decisões e orientações político/económicas, retirando benefícios da transformação da política colonial, a que o Brasil tinha estado sujeito, para uma economia exportadora capitalista decorrente da abertura dos portos à navegação estrangeira. Esta situação permitiu um clima favorável à construção de uma vivência comercial que favoreceu a emigração de portugueses ampliando o fluxo tradicional emigratório. Estes emigrantes portugueses, do século XIX, eram, predominantemente, originários da classe média e média alta rural do Minho e, muitas vezes, originários de casas de família tradicional, possuindo um elevado prestígio social local. Quando bem sucedidos, faziam viagens frequentes à terra de origem, ou a ela regressavam definitivamente, tornando-se visível, e fortemente notada, a sua chegada, através de iniciativas de carácter agrícola, comercial e industrial, sendo a construção de casa, a expressão mais referencia do sucesso e as quais se vieram a constituir-se como objectos arquitectónicos paradigma. Em simultâneo, fundaram escolas, hospitais, asilos, jardins públicos, marcando o território geográfico e simbólico evidenciando, ainda, com elementos de representação de grandeza e identidade particular nas sepulturas, apresentando-se como católicos ou Maçons. Nesta atitude de retorno fez-se notar na vida pública, preocupando-se com o bem comum, ocupando cargos de natureza politica e filantrópica e, quando promoveu a construção de teatros, manifestou atenção pela cultura e pela arte. Enquanto frequentadores de casinos, praias, termas, cafés reflectem especialmente no ócio a expressão de "capitalista", pela qual passam a ser designados, representando, assim, o estatuto social mais elevado. Ao mesmo tempo que se instituía de prestígio público com gestos de solidariedade filantrópica, marcava o território com expressões da beleza, sabedoria e valorização da força do trabalho, usando a arquitectura, a decoração e a estatuária, como metáforas simbólicas enraizadas nas civilizações clássicas. Transportou, de outras origens, os símbolos legitimadores do poder, os sentidos da urbanidade e de modernidade que apreendera nos contactos e vivências das cidades do Brasil, nas quais fundou instituições de Cultura e assistência e, nas viagens permanentes que fazia pelas capitais estrangeiras. Outro lugar de aprendizagem foi a frequência das lojas de Maçons. Aí apreendeu os sentidos da interpretação da história universal e, ao conhecer os princípios do racionalismo filosófico e, nos respectivos rituais, apreendeu os modelos da estrutura organizacional das sociedades laicas. Difundiram em Portugal o ideário liberal da filantropia social e cultural, fortemente inscrita nos princípios da modernidade Maçon do Brasil, procurando afirmar as virtudes fundamentais: liberdade de pensamento, independência da razão e o auxílio mútuo. Esta burguesia, feita de "Brasileiros" ricos instalados nas Vilas do Minho, em tempo de regresso definitivo, forjou sentidos de descendência privilegiada, pela ocupação de lugares da administração pública e pela liderança das agremiações de interesse filantrópico. Muitos deles viviam de rendimentos e eram chamados de capitalista, reforçando o seu prestígio na terra, fundando os Clubes como lugares de privilégio para discutir as últimas novidades chegadas da Europa, fazendo política e tecendo estratégias de poder. Faziam das cidades de Lisboa e do Porto o lugar de eleição para demoradas estadias, instalando-se em hotéis ou aí procuravam a sua residência definitiva. "Outras épocas conduziram a outros destinos da emigração portuguesa, em todos os continentes e em grande número de países do Mundo. De alguns destes casos existem traços dos respectivos percursos históricos ou marcas deixadas em realizações materiais ou intelectuais; em muitíssimos outros, essas memórias encontram-se dispersas ou situadas em localizações indefinidas, importando — para que a memória se não perca — localizá-las, reuni-las estudá-las e, tanto quanto possível, assegurar a sua perpetuidade para conhecimento das gerações de hoje e de amanhã." [8]
Memória Comunicacional
Este museu projecta-se, assim, como um Webmuseu no sentido comunicacional, ou seja, como uma plataforma informativa e de dinamização de actividades de pesquisa e divulgação, tendo como destinatários privilegiados os emigrantes, descendentes e associações, nele envolvendo os estudiosos que centram os seus trabalhos nesta área temática, numa lógica descritiva, analítica, interactiva e em rede, valorizando os indivíduos, contextos, memórias, tendo como recurso privilegiado as novas tecnologias. Ao inscrever-se no âmbito das Ciências Sociais e, ao integrar as novas tecnologias, este museu alarga perspectivas e procedimentos metodológicos, dando à técnica e às ciências sociais sentidos novos, nomeadamente o da informação e o da comunicação. Passamos, assim, a um novo conceito: a tecnociência. Este novo enquadramento integra a técnica no âmbito dos métodos da pesquisa bibliográfica, documental e experimental, tanto na perspectiva qualitativa como quantitativa, ligando as fontes, os saberes e conhecimentos em sentido totalizante e interactivo, sendo determinante o recurso a bases de dados informatizadas, organizadas por campos, onde surgem as características de conteúdo das diferentes formas de representação do conhecimento. A tecnociência, produto do diálogo entre o desenvolvimento do pensamento científico e a mudança técnica, fez passar, esta última, do âmbito de recurso ou de complemento, para o de determinante nos procedimentos científicos descritivos e de ilustração qualitativa, bem como nos explicativos de natureza quantitativa. Ao centrar-se nos conteúdos da comunicação, participa das estrutura e modelo de analise e influencia as abordagens conceptuais das ciências sociais, inscrevendo-as, simultaneamente, no âmbito dos processos de pesquisa "pura" e na sua aproximação à ciência aplicada. A técnica encontrou nas novas tecnologias de comunicação a resposta para a gestão de um grande volume e variedade de informação e, ao mesmo tempo, a automatização através do recurso à análise de conteúdo e à análise documental. A análise de conteúdo, sendo um conjunto de técnicas de análise dos "textos", permitiu a formalização de categorias e subcategorias de conteúdo, dando um sentido sistemático, sólido, coerente e de fácil partilha para um universo diversificado e destinatários, contemplando a automatização necessária ao sistema técnico organizador (computador). Em termos metodológicos, a análise de conteúdo circula entre a função instrumental (o que pretende face ao contexto) e a representacional (próprio do léxico presente e fora das circunstâncias). Ou seja, a aplicação de uma «técnica de investigação que através de uma descrição objectiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações, tem por finalidade a interpretação destas mesma comunicações», podendo passar do carácter exclusivamente descritivo, para a dimensão quantitativa, quando combinada com as técnicas quantitativas. [9] Sendo as categorias classes que "reúnem um grupo de elementos (unidades de registo, no caso da analise de conteúdo) sob um título genérico, agrupamento esse efectuado em razão dos caracteres comuns destes elementos", podendo utilizar como critério taxinómico caracterizador/organizador: o semântico (significado), o sintáctico (verbos e adjectivos), o léxico (sentidos próximos e sinónimos) e o expressivo, possibilitando à automatização informática e a análise quantitativa. [10] Os critérios de categorização aplicados permitiram-nos a criação de uma taxinomia designada de SALAS e a sua futura automatização, sendo uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e seguidamente, por reagrupamento analógico, decorreu da aplicação de conceitualizações previamente definidas. Sendo os conteúdos, em grande parte, qualitativos valorizam-se as características de um fragmento da mensagem e, quando são qualitativos, o que se valoriza na informação é a sua frequência, de forma a instituir o modelo de carácter estrutural e de amplitude sistémica. Por outro lado, no que se refere à análise documental esta permite passar-se de uma fonte primária para uma secundária a qual se constitui como produto da primeira. São do âmbito da análise documental, os abstracts ou resumos e a indexação que permite a classificação por palavras chave, descritores ou índices, regulada segundo uma escolha por termos ou ideias. Tratando-se de um sistema comunicacional, as ciências sociais, a museologia, museologia-WEB e a museografia constroem, neste projecto, sentidos múltiplos e complementares, possibilitando a aplicação de metodologias e técnicas de reconstituição de ambientes e sítios e as visitas virtuais, bem como as que se centram na análise e catalogação de acervos e respectivos documentos com valor histórico e museológico. Tem-se aqui, em simultâneo, a perspectiva do pesquisador e das diferentes ciências sociais e, ao mesmo tempo, a dos frequentadores da plataforma web, construindo um processo de leitura autónoma, ligando-se, em teia, saberes, perspectivas, podendo aqueles participar e interagir directamente no conhecimento, religando saberes. A WebMuseu orienta-se no sentido de toda a amplitude do fenómeno migratório e das suas manifestações materiais e, por isso, tentaremos localizar e aceder ao maior volume de documentação possível, dispersa por particulares e por entidades e pelouros governamentais, policiais, administrativos e outros. No WebMuseu estão presentes bases de dados de emigrantes, biografias e registos de memórias escritas e de grupos de indivíduos organizados por famílias. Pode aceder-se a sistemas automáticos de construção de genealogias, ao visionamento de paisagens dos Município de origem, bem como dos ambientes de destino. As vivências sociais e as manifestações culturais emergem, no WEB-Museu, ao lado de produtos da criação artística e científica e dos registos documentais inscritos na estrutura espaço/tempo. Fazem igualmente parte do acervo WebMuseu as colecções de postais antigos, fotografias, filmes, exposições foto - documentais e, ainda, o espólio de uma rádio. Como complemento do arquivo deste Museu estamos a criar a Biblioteca das Migrações, obedecendo, na generalidade, a esta temática universal e aos aspectos e situações atinentes a Portugal, na especialidade. Em simultâneo, iniciamos a digitalização de documentos, no sentido da sua preservação, procedendo à sua informatização, por forma a poder constituir um banco de dados sobre as migrações, acessível às gerações vindouras, mantendo uma atitude realista no que respeita à hipótese de tentar coleccionar um número suficientemente representativo de objectos autênticos, válidos para cada época histórica e para cada pertença nacional ou regional, pode não ser absolutamente necessário, uma vez que a visualização desses objectos, bem como dos ambientes geográficos, temporais e sociais onde se situam, pode ser efectuada em termos virtuais, por via de suportes magnéticos ou ópticos. [11] Finalmente, adstrito a este conjunto funciona o respectivo centro de Investigação, «simultaneamente causa e consequência da criação e actividade do Museu das Migrações», no âmbito do seu Conselho Consultivo.
BIBLIOGRAFIA
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Monteiro, Miguel Teixeira Alves, Migrantes, Emigrantes e “Brasileiros”- territórios, itinerários e trajectórias (1996),I nstituto de Ciências Sócias, Universidade do Minho, Braga,
Rocha-Trindade (2002) Maria Beatriz, "Musealizar as Migrações”, História, Fevereiro, ano XXIV (III Série)
a ) Coordenador e Director do Museu da Emigração: Comunidades e Luso-Descendentes b ) Coordenadora Científica do Centro do Centro de Investigação do Museu da Emigração, Pesquisadora e coordenadora científica do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais /CEMRI (Unidade de I&D n.º 289 da Fundação para a Ciência e para a Tecnologia/Ministério da Ciência) - Universidade Aberta c ) Docente do Departamento de Informática da Universidade do Minho [1] Cf Monteiro, Miguel Teixeira Alves (1996), Migrantes, Emigrantes e “Brasileiros”- territórios, itinerários e trajectórias, Instituto de Ciências Sócias (tese de mestrado), Universidade do Minho, Braga, [2] Cf Monteiro, Miguel (1991/2004), Fafe dos “Brasileiro” (1860-1930) – Perspectiva Histórica e Patrimonial, Ed. Autor, Fafe [3] Cf Costa-Leite, Joaquim (1987), “Emigração portuguesa: a lei e os números (1855-1914)”, Análise Social, Vol. XXIII (97), 3.º, 463-480 [4] Cf Monteiro, Miguel (1996), Migrantes, Emigrantes e “Brasileiros”, ed autor, Fafe [5] Rocha-Trindade, Maria Beatriz, "Musealizar as Migrações”, História, Fevereiro, 2002, ano XXIV (III Série) [6] Alves, Jorge Fernandes (1994), Os Brasileiros – emigração e Retorno no Porto Oitocentista, ed Autor, Porto [7]Nunes, Henrique M. Barreto (1989), A Biblioteca e a Memória da Vida Local, Separata do Boletim Cultural, 9, Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, [8] Rocha-Trindade, Maria Beatriz, (2002), "Musealizar as Migrações”, História, Fevereiro,ano XXIV (III Série) [9] Bardin, Laurence (1977), Análise de Conteúdo, Edições 70, Lisboa, p 117-118 [10] Idem, ibidem [11] Rocha-Trindade, Maria Beatriz (2002), "Musealizar as Migrações”, História, Fevereiro, ano XXIV (III Série)
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