VASO CAMPANIFORME de Vargo, Gontim*

 

Este Vaso Campaniforme (Vaso largo que se assemelha a um sino virado para o alto, donde lhes vem o nome de Campaniforme) foi encontrado casualmente pelo Dr. Arlindo Vaz Marques, constituindo mais um dos muitos vestígios pré-históricos da presença do Homem nas terras de Montelongo.

São muitos os vestígios da Pré-História concelhia que correm graves riscos com a presença de grandes máquinas nos nossos montes, utilizadas para fins públicos e privados.

A abertura de estradas na montanha, quer para servir as populações, quer para dar caminho ao Rally de Fafe, tem sido feita sem qualquer preocupação pela arqueologia, ao mesmo tempo que a exploração das madeiras e granitos têm destruído os vestígios mais antigos do Homem por estas paragens, sem que antes se faça um estudo prévio.

No que se refere aos desportos motorizados de montanha, os quais poderiam servir para uma verdadeira aquisição de cultura e compreensão do processo de humanização do território, com elevado sentido cultural e ecológico, não passa de um desporto para meninos desejosos de emoções fortes, destruindo de forma irresponsável valiosos testemunhos do passado.

À falta de um trabalho de investigação arqueológica sistemática no concelho, necessariamente feito por especialista, damos alguns elementos para a compreensão do Vaso de Gontim, que nos fala de um povo que há cerca de quatro mil anos povoou o mesmo território.

 

OS MERCADORES DO VASO CAMPANIFORME

 

«[...] A raridade ou ausência completa de objectos importados encontrados em túmulos megalíticos é além do mais, um sério obstáculo à sua correlação com qualquer sequência cultural independente, por meio da qual se pudesse determinar a sua idade relativa ou absoluta. [...] o povo do Vaso Campaniforme não pode ter sido o veículo para a difusão original da «ideia megalítica», nem pode a sua expansão, [...] fixar a idade relativa das câmaras tumulares mais antigas.»1

«O Povo do Vaso Campaniforme foi um dos principais agentes na abertura de vias de comunicação, no estabelecimento de relações comerciais e na difusão das técnicas da metalurgia. [...]

O povo do Vaso Campaniforme pode ser reconhecido, não só pelas actividades económicas, mas também pelo característico armamento, ornamentos e, acima de tudo pela cerâmica, que por toda a parte se encontram associados nas suas sepulturas.

 Na verdade, a inevitável taça de beber, que lhes dá o seu nome, pode ser mais que um sintoma diagnóstico facilmente reconhecível; simboliza o uso da cerveja como uma das fontes da sua influência, [...] Grãos de milhete foram, de facto, encontrados em Portugal num Vaso Campaniforme.

O Povo do Vaso Campaniforme é principalmente conhecido através de sepulturas que nunca formam grandes cemitérios.

 [...] O povo do Vaso Campaniforme aparece como constituído por bandos de mercadores armados, que se entregavam ao comércio do cobre, do ouro, do âmbar, da calíte e de substâncias raras semelhantes que se encontram com frequência nas suas sepulturas. Os bandos incluiriam metalurgistas [...] e mulheres que em todas as áreas fabricavam os Vasos característicos com escrupulosa atenção aos pormenores tradicionais de forma e ornamento.

Vaguearam desde as costas marroquinas e da Sicília até ao litoral do mar do Norte, e desde Portugal e da Bretanha até ao Tisza e ao Vístula.

O Vaso Vampaniforme «clássico» ou «pan-europeu», feito numa loiça relativamente fina, temperada a areia, revestido com um engobe brunido que tem certa tendência a soltar-se, varia entre o vermelho-tijolo e o negro é decorado com zonas de riscas «rodiziadas» (rouletted) que alternam com zonas lisas.

As decorações «rodiziadas» eram executadas com um pente de dentes muito curtos, separados por interstícios extremamente estreitos, e, provavelmente, de gume curvo, que dava uma «tracejada» praticamente contínua, composta por pontas redondas, ou, com mais frequência, rectangulares, separados por septos baixos. As zonas horizontais podem ser combinadas com uma decoração radial de base.

[...] Na Península Ibérica, na França meridional e na Europa central os Vasos Campaniformes aparecem com frequência nos túmulos, associados a tigelas hemisféricas, pouco fundas, decoradas com a mesma técnica, mas mais frequentemente com padrões que irradiam da base.

Por outro lado, um estilo ibérico que usa linhas marcadamente incisas ou estampadas. [...] Seja como for, alguns estilos locais ou derivados têm uma distribuição tão vasta que devem denotar intercâmbio secundário, se se atribuir a uma primeira expansão a dispersão do estilo «rodiziado».

Na Holanda setentrional, na Escócia, na Bretanha e na França meridional, por exemplo, encontram-se Vasos Campaniformes decorados com uma corda enrolada em espiral à volta do Vaso. [...] .

Um elemento característico do vestuário deste povo era um botão de pedra, osso, âmbar ou azeviche com perfurações de secção em V.

A maioria dos especialistas mantêm que a cultura [do Vaso Campaniforme], tal como chegou até nós, tomou forma ou na Andaluzia ou no vale do Baixo Tejo, [...]

A expansão do Povo do Vaso Campaniforme, fosse qual fosse o berço de onde partiu, foi, presumivelmente, bastante rápida.» 2

Mais uma vez estamos perante uma evidência do fenómeno migrador do Homem, que se faz acompanhar dos seus elementos de cultura e civilização, transferindo, num processo de aculturação, os seus saberes e a sua cultura, que este elemento simboliza.

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* Este Vaso foi encontrado, no Lugar de Vargo, freguesia de Gontim, pelo Dr. Arlindo Vaz Marques a quem agradecemos a informação.