A TROCA DAS SANTAS

OU O PODER SIMBÓLICO DOS RITOS NA MUDANÇA DO TEMPO

Monteiro, Miguel,(1995),

“Cultos e Ocultos de Monte Longo”,

separata - Minia,

 Braga, ASPA,PP.103-135.

 

Os habitantes das freguesias de Seidões e os de São Bartolomeu do Rego praticavam um ritual para provocar mudanças no clima.

O tempo atmosférico pode ser favorável ou desfavorável aos agricultores de uma região e domesticá-lo em benefício dos homens era uma necessidade, principalmente quando dele dependia a sobrevivência de toda a comunidade.

O pão, principal alimento do Homem, adquire um valor simbólico de um bem sagrado e uma dádiva divina, designando-se os cereais como o " pão do Senhor".

A sua produção estava sujeita a condicionalismos produtivos vários que limitavam as produções e reduziam os rendimentos dos agricultores.

Através de aprendizagem dos processos técnicos progressivamente introduzidos, tais como o desenvolvimento de sistema de irrigação; drenagem dos solos; adubação; construção de muros e vedações; distribuição das plantas, o agricultor procurou melhorar as condições das práticas agrícolas.

Outros processos de aperfeiçoamento agrícola desenvolveram-se através da aplicação de procedimentos de cultivo de acordo com os ciclos da lua, segundo os quais os agricultores definiam os momentos propícios para fazer as sementeiras, as colheitas, o corte das árvores, procurando assim agir nas condições consideradas ideais para uma colheita farta.

O clima e a sucessão das estações do ano exercem também efeito sobre os comportamentos humanos, procurando a protecção contra os efeitos nefastos provocados pelo comportamento irregular do clima.

Mesmo perante produções abundantes a quantidade de cereais tornava-se escassa devido à irregular produtividade dos solos, surgimento de pragas, desigual partilha do produto das colheitas com os senhores, pagamento em cereais de obrigações ligadas ao culto e prestações obrigatórias para o sacerdote da aldeia.

De entre os factores mais desfavoráveis à produção agrícola, o clima é aquele que pode provocar níveis de verdadeira catástrofe para toda a comunidade.

Este efeito prolonga-se para além do tempo de cultivo, levando os agricultores à construção de alpendres, espigueiros, eiras de modo a proteger os cereais, ao mesmo tempo que criava condições para a sua secagem.

Depois de feitas as colheitas e recolhidos os cereais, as comunidades tinham necessidade urgente em os utilizar para consumo, mas o clima voltava a constituir um factor desfavorável.

Isto acontecia quando os primeiros meses do Outono eram excessivamente chuvoso, prolongando o tempo húmido e impedia a necessária secagem dos cereais, condição necessária para que o moinho os pudesse receber.

A única fonte de calor disponível para proceder à secagem dos cereais era o calor solar, pelo que a sua ausência prolongada criava problemas de subsistência aos agricultores.

Incapazes de agir directamente sobre o tempo, restavam à comunidade o recurso a mecanismo mágico-religiosos.

Esta situação provocava também o reforço dos laços de solidariedade entre os habitantes e condicionava a prática dos rituais e o conjunto simbólico do ritual que, no caso das duas freguesias referidas, toma a expressão na "troca das Santas" em procissão colectiva.

A procissão da "troca das Santas" era marcada e os habitantes cumpriam descalços, em preces cantadas e rezadas, o rito em apelo à mudança do tempo, levando a Santa de Seidões para São Bartolomeu do Rego e a de São Bartolomeu para Seidões.

Nesta ritualização os habitantes poderão estar a reconhecer a existência de uma entidade tuteladora das condições climáticas e, como tal, com o poder de o gerir tornando-o favorável aos agricultores, bastando, para isso, recolocar a ordem inicial da deusa apaziguando a sua "ira" com preces cantadas.

O tempo desfavorável seria então como que um sinal da existência de uma desordem provocada nas duas comunidades, sendo apenas possível o regresso à ordem propiciatória através da troca das santas.

Será que as duas comunidades teriam a mesma origem e o mesmo totem e, ao separarem-se provocaram a desordem da comunidade, sendo os comportamentos atmosféricos nefastos compreendidos como uma manifestação simbólica da existência organizadora ou totémica?

De qualquer modo este ritual provocava fortes laços de solidariedade entre as duas comunidades e a permuta das santas provocava o regresso ao tempo esperado, até porque o ritual se cumpria.

A Senhora de Guadalupe, na freguesia de São Mamede de Cepães é também uma Santa propiciadora do clima favorável às actividades agrícolas, festejada no primeiro Domingo de Junho.

Miguel Monteiro

Mínia - 3.ª Série - Anno II - 1994,

pp. 105 - 136