Tradução dos

Paineis

 

 

 

 

Painel 1

 DO IMPÉRIO À MALA DE CARTÃO

«Para ser igual a ele mesmo, Portugal, que descobriu novos mundos, deveria hoje possuir naves espaciais e ser o primeiro a pousar em Marte ou na Lua».

Gilbert Canne “Portugal” éd. O Atlas das Viagens

 

Painel 2

 A EMIGRAÇÃO EM SENTIDO PROIBIDO

1603: Para travar a hemorragia humana, a seguir às descobertas, uma lei nas Ordenações de Filipe I, proíbe a emigração. Em 1709 e 1711, foram adoptados dois Decretos que exprimiam a mesma preocupação.

 1720: Uma lei que só permitia a ida para o Brasil aos cidadãos investidos de funções, e isto “para impedir que desse Reino partam para as capitanias do Brasil as numerosas pessoas que em cada ano fogem, sobretudo da província do Minho, a qual, sendo a mais povoada, está hoje num tal estado que já não se encontram pessoas para trabalhar nas terras, nem para prestar serviços às populações.

 1947: Decreto-lei nº 36199 que suspende a emigração.

“Considerando a necessidade de regulamentar a emigração portuguesa, tendo em conta a protecção devida aos emigrantes, os interesses económicos do país e a valorização dos territórios do ultramar pelo aumento da população branca”

 1954: Decreto-Lei nº 39749, que classifica a emigração clandestina como crime, estabelecendo sanções penais e atribuindo competências à PIDE para a reprimir.

 

Painel 4

EMIGRAR PARA SALVAR O IMPÉRIO

  Em cima à direita

 Nos anos 60, a propaganda Salazarista (num livro de leitura para crianças de 10 anos) defende que emigrar só é uma vitória se for para ir para o Ultramar (as colónias).

Enquanto isso, em 20 anos (de 1950 a 1970), dois milhões de portugueses fugiam à miséria e à guerra colonial, escapando-se para a Europa.

 

Painel 5

 ENQUANTO HOUVER EMIGRANTES

 

 (Em cima à esquerda)

 “É um outro Portugal, não somente o nosso recanto na península e nas ilhas, não somente este império que atravessou tantas fases, fez-se e desfez-se, mas um Portugal maior no mundo: este acto heróico daqueles que partiram daqui para trabalhar em outras civilizações”

Vitorino Magalhães Godinho

Historiador. Discurso no dia de Portugal e de Camões,

Vila Real , Junho 1979

 (Em baixo à direita)

 “O paralelo feito pelos governantes portugueses entre emigração e período das descobertas é falso: um era um movimento de expansão, o outro é a auto-destruição dum povo que se dissolve ele mesmo”

Marie-Claude Munoz

 

  Painel 6

 A PÁTRIA AGRADECIDA

 

A expatriação apresenta-se hoje para a consciência dos Portugueses como uma fatalidade. Na realidade a explicação está nos imperativos estruturais e históricos, forjados no século XV, no começo da expansão marítima.

Estes imperativos actuaram até 1974 – data em que ruía o império colonial. A emigração portuguesa sempre foi o contrário de uma certa forma de colonialismo, duma certa maneira de se estar no mundo, que hoje acabou para sempre.

Joel Serrão

Historiador

 Painel 7 

EMIGRAÇÃO PERPÉTUA?

 À esquerda

 “Os homens e as mulheres que deixaram e ainda deixam Portugal, dão-nos o exemplo do que é possível realizar, quando a vontade, a inteligência e o esforço dos portugueses se conjugam com a nossa identidade nacional de porto aberto aos outros povos”.

General Eanes – presidente da República, 10 Junho 1981

 À direita

“Há muito tempo que existe uma outra leitura do “movimento de expansão” (após as descobertas): é a de uma sangria horrível que despovoou a nação, submetendo-a a séculos de dependência sócio-económica e política”.

Marie-Claude Murrõz em “As Variações de identidade” 1984

 

Painel 9

 OS PORTUGUESES NA PRIMEIRA PÁGINA

 O tráfico dos portugueses

Paris Match / 18-4-1964

 PORTUGAL : A fuga das forças vivas

Africasia / 10-1-1972

 (em baixo, a partir da esquerda)

 Seria necessário partir sem passaporte, passar clandestinamente duas fronteira, viajar uns em cima dos outros em camiões, percorrer sítios incertos, dormir onde calha ; evitar a Guardia Civil na Espanha e os gendarmes na França, pagar caro aos passadores, e tudo isto para ganhar o « pão-nosso de cada dia ».

 Eugène Mannoni / France-Soir-1/4/1965

 

 Alguns não têm o bilhete necessário, outros nem o bilhete têm, outros não sabem se devem parar em Angouleme ou em Poitiers, outros nem sabem onde vão. Quase todos têm unicamente o destino inscrito no bilhete de comboio ou mal escrito num papel.

 Francis Cornu / Le Monde – 2/9/1970

 Eu, evoquei os mortos, os saqueados, os famintos, os mal alojados, os “tesos”, todos os oprimidos do moderno caminho de S.Tiago de Compostela: Esses inúmeros esquadrões de homens sombrios, tímidos e taciturnos, lançados em direcção ao Ocidente industrial, à procura de uma melhor vida para eles e para as suas famílias: um bocado de pão, uma pasta de chocolate e um litro de água para a refeição durante a viagem. E para acabar, o "bairro de lata" em Paris.

 Christian Rudel / La Croix – 9/11/1966

  

Painel 11

 VIAGEM AO FIM DA NOITE

 Em cima à esquerda

 “Sete noites a andar...era preciso continuar com os homens, senão eles abandonavam-nos...nenhuma mulher aceitava a viagem se ela soubesse...era preciso ultrapassar montanhas, rios...caímos todos numa ribanceira, nem sei como não morremos”.

 Ao meio

 “Nós íamos de prisão em prisão, algemados, como se fossemos criminosos ou selvagens...”

 Em baixo

 “A neve não nos largava...demorámos um mês para chegar. Não sei como não morri”.

 Ao centro

 Os 84 portugueses pensavam encontrar o paraíso em França: condenados por entrada ilegal – 100 francos de multa.

 

“Eu preferia morrer de fome em Portugal do que vir como vim. Se recomeçasse eu morria...quando já tinha passado a fronteira espanhola era capaz de voltar para traz se conhecesse o caminho; nem que perdesse o dinheiro da viagem...nunca permitirei a um filho meu vir desta maneira”.

 

Cima à direita

 “Eles queriam abandonar-nos no meio da neve. Eles podiam matar-nos. Estávamos perdidos, não salvámos nada. Encontrámos um português que estava doente, depois de 3 dias na montanha ele não podia engolir nada de tanta febre que tinha”.

 

Ao centro

 “O passador tinha prometido que não andávamos mais a pé e nós andámos todo o tempo, 82 hora a pé...estava tão cansado. Trouxe uma camisa e uma camisola. Deixei tudo...tinha tanto sono que abandonei tudo...atravessei três rios...era preciso entrar na água...”

 

Em baixo à direita

 “Os animais vivos num vagão fechado eram clandestinos portugueses”.

Jornal France Soir, 9 Fevereiro 1964

 Ao lado

 “A viagem de camião é pior que a marcha a pé...sempre tudo fechado, sem se poder respirar, sentia-me tão mal que até desejava ser preso para voltar para Portugal”.

 

 Em baixo – Título

 

ESGOTADO,COM OS PÉS GELADOS, O EMIGRANTE CLANDESTINO CAIU NUM PRECIPÍCIO

 

Para chegar a França, 21 portugueses (entre os quais 5 mulheres, uma criança de 5 anos e 2 bebés) caminharam durante 27 dias.

 

 

Painel 12

 A ROTA DA ESPERANÇA

 

 “O Salto”. Eles transpõem “o grande passo”. Durante os últimos seis meses, todos os dias, eram cerca de trezentos que vinham juntar-se à colónia (portuguesa) em França, que conta já mais de quinhentas mil pessoas, e que decuplicou em dez anos, entre os quais 95% são “clandestinos”.

“Quase todas as noites, em grupos de vinte ou trinta, transpunham a pé o rio Bidassoa, a montante de Biriatou.” Diz um habitante da região: estas expedições nocturnas revestiam-se de muitos perigos. No hospital de Bayonne, foram muitas vezes tratados portugueses, vítimas de quedas ou do frio da montanha. Alguns morreram durante a viagem. Alguns “passadores” aproveitavam-se da situação para espoliar e saquear os clientes. Foi o caso de três portugueses, encontrados esganados e um outro chicoteado até à morte. Algumas sepulturas anónimas de cemitérios do País Basco espanhol, testemunham estas atrocidades: “mortos em fraude”...e a preço alto. Com efeito, há cinco anos, uma “passagem” custava em média 2000 Francos. Vários anos de economias.

 Francis CORNU

Le Monde, 2 / 9 / 1970

  Painel 13

  O SALTO

  

(em cima à esquerda)

O Salto, filme realizado em 1967, por Christian de Challonges.

Interpretes principais: Marco Pico, Antonio Passalia e Ludmilla Michaël, com a colaboração, em todos os outros papeis, de emigrantes portugueses, actores não profissionais. “Este filme é a prova de uma situação escandalosa: a imigração dos trabalhadores portugueses.”

(Ch.de C;)

 (em cima à direita)

O salto é um filme sobre o olhar surpreendido, divertido, por vezes superficialmente inquieto, que António tem de Paris. Olhar onde transparece o cansaço e a decepção das esperas, das recusas grosseiras, dos falhanços. Olhar que não nos julga e que por isso mesmo se torna ainda mais acusador.

Jean-Luc Pouillade,

 “Témoignage Chrétien”

 4 de Janeiro de 1968.

   

Painel 14

  O TRÁFICO DE BRANCOS

 

(em cima à esquerda)

 Mais de 66% dos Portugueses que estão em França passaram as fronteiras clandestinamente.

Os seus passaportes, são os da montanha, “a salto”. Atravessar a fronteira pelos montes, eis a salvação deles, sem carimbo da fronteira.

Outros, que tentaram pedir um passaporte de emigrante, esperam seis meses, um ano, antes de terem uma resposta, que no fim é negativa. “Muito pobre, dizem-lhes, não podem ir para nenhum lado.”

Jean Erwan

“Juri-Press”

9 de Abril de 1970

 

(em baixo à direita)

 Salvo-conduto atribuído aos “sem papeis” que chegam à fronteira desde 1968. A partir de 1971, com a circular Marcellin-Fontanet, este documento é obrigatório para a regularização.

 

 Painel 15

 CORAGEM, FUJAMOS!

 

O povo português sofre desde há doze anos, uma hemorragia humana, só comparável, na história contemporânea, à dos Irlandeses e dos Italianos do Sul no fim do século passado.

Philippe Noury,
Le Figaro /
1 de Março de 1972

 Desde que em 1963 começa a vaga de imigração portuguesa para França, ninguém imaginava que os 50 000 portugueses que viviam então em França, seriam 800 000 quinze anos mais tarde.

A imigração das mulheres portuguesas será a mais importante que a França tenha conhecido.

Em quatro séculos de história, Portugal nunca tinha conhecido um tal êxodo. Em vinte anos, este país perde 2 milhões de habitantes, dos cerca de 8 milhões existentes. Uma incisão de 10% na população, a que alguém chamou “plebiscito pelos pés” conta a política económica e social conduzida por Salazar, desde os anos trinta.

  

Painel 16

 FUGIR AO FASCISMO

 

O governo português de Salazar representa uma das expressões mais retrógradas dos regimes fascistas, pela supressão de todas as liberdades democráticas (liberdade de associação, de informação, de opinião).

Os partidos são proibidos, exceptuando o partido governamental.

O sindicato único (caricatura de um sindicalismo democrático) é controlado directamente pelo governo.

As greves são proibidas e relevam de legislação criminal.

Os escritores são submetidos a uma censura minuciosa, as suas associações dissolvidas, e muitos deles são presos por delito de opinião.

Portugal é o povo mais sub-desenvolvido da Europa. A grande maioria do povo vive na miséria. 40% dos portugueses são analfabetos.

Largas camadas da população portuguesa são cada vez mais hostis à continuação dessa guerra impiedosa em Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde. O serviço militar dura pelo menos 4 anos, e os jovens que recusam a guerra são cada vez mais numerosos, para não se transformarem em torturados, como eles dizem.

Os estudantes, futuros oficiais, não querem aceitar responsabilidades nessas guerras.

Para tentar vencer a oposição, cada vez mais forte, o governo de Salazar apoia-se na polícia política (PIDE), constituída com a ajuda e no modelo da Gestapo de Hitler, verdadeiro poder de opressão que substitui os tribunais em todos os casos de delitos políticos.

Os agentes da PIDE torturam os presos e alguns não resistem aos longos interrogatórios de que são vítimas.

A aplicação de medidas de “segurança” permite à polícia de “garder à vue” (quer dizer, prisão sem culpa formada), um “suspeito” durante seis meses.

Após o julgamento e a sua condenação expirar, os prisioneiros políticos, considerados perigosos para o Estado, podiam ser encarcerados longos anos. Desta maneira, a condenação, mesmo mínima, podia-se transformar em prisão perpétua.

O governo português isolava-se cada vez mais do seu povo e no plano internacional ainda encontra apoios e encorajamento.

 

Hélène Scob /Cimade)

20 de Outubro de 1967

“Relatórios sobre os refugiados portugueses”

 

 Painel 17

FUGIR À  GUERRA

 

Em cima

Muitos recusam o serviço militar que dura 4 ou 5 anos: “se fossem 18 meses, ainda ficava, mas 5 anos é impossível...toda a gente vem para França por causa disso”. Muitos temem a tropa porque não querem ir para Angola. “Um amigo meu morreu em Angola e isso levou-me a vir para aqui...conhece-se a lista dos mortos dos outros, mas desconhecem-se as nossas...”

Revista “Hommes et Migrations”, 10 Janeiro 1972

 

 Ao meio

 Apelo à deserção dos soldados portugueses em África.

In “Os proletários não têm pátria, nº1, Fevereiro 1974

 

Em baixo

 A meio dos anos 60, os movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné Bissau intensificaram o seu combate contra o colonialismo português.

Rapidamente as guerras absorvem 42% do orçamento de Portugal, que tem de alimentar um exército de 200.000 homens. 5.000 vão morrer e 30.000 ficarão deficientes. Recusando 4 anos de uma guerra que não lhes diz respeito, mais de 100.000 jovens vão abandonar o país.

 

Painel 19

SÓ RESTAM SOMBRAS

 

Em Cima à Esquerda (1)

 A nova vaga de emigração não poupou os centros urbanos que perderam de 20% a 25% da sua população activa.

Certas vilas ou aldeias que foram, num passado recente, centros activos de apoio a regiões inteiras, quase desapareceram.

Miranda do Douro, perto da fronteira espanhola, perdeu 73% da sua população.

 Revista Africasia – 10 de Janeiro 1972

 

 2 – A falta de operários agrícolas provocou um aumento dos salários, mas, ocasionalmente, também o abandono de numerosas explorações agrícolas. Só o trabalho das mulheres permitiu manter uma produção agrícola, destinada particularmente ao auto-consumo.

São elas que nós vemos hoje nos campos.

 

Jornal « Le Monde » - 28 Nov. 1970

 Em baixo (Poema)

 

 Os Homens abandonaram esta terra

Eles não tinham mais nada a perder

Eles não tinham mais nada a deixar

    Só restam sombras, sombras, sombras

           

                                        Manuel Alegre

 

Título

 A SÉRIE NEGRA DOS PORTUGUESES

 

 Títulos de Imprensa com: acidentes, mortos, expulsões, vítimas de racismo, legislação para limitar a imigração, etc.

 

Painel 20

 UM DOMINGO NO CAMPO

Fotos de um Álbum de Família

 Diálogo

 -          É verdade que um operário pode ter carro? Uma televisão para cada um? É verdade?

 -          Sim, em parte é verdade...

Ele ouvia...

 -          É verdade que lá em baixo (em França), o trabalhador, o pedreiro, vivem melhor do que aqui, mesmo se a vida é mais cara?

 -          Isso é verdade...

 -          É verdade que um pedreiro chega a ganhar mais de 4 contos por mês?

( O tempo para multiplicar por 0,17 francos e de chegar aos 700 francos )

-          Sim, claro!

 -          Três vezes mais que aqui. Cinco vezes mais que na agricultura (pensa ele, sonhador).

Um momento de silêncio e ele desatou a rir

“Vocês vão ver que aqui não demora muito que não fique ninguém”.

 

Jornal France Soir, 8 Abril 1965

 

Painel 21

 PORTUGUESES EM TROCA DE MILHÕES

 Cima à direita

 “Só os portugueses dão a ganhar à França 1 milhar de francos por ano”.

 Lucien Rioux,

Jornal Nouvel Observateur,

29 Março 1971

A expansão económica francesa desde 1950, exige um aumento acelerado da produçao. Em princípio, esta aceleração deveria ser o resultado da modernização das empresas. Mas os patrões franceses acharam essa solução muito cara. Assim, mobilizaram-se os braços.

As reservas francesas (em baixo) são limitadas, mesmo contando com os “pieds noires” (retornados da Argélia) e com o aumento das ofertas de emprego.

A importação de mão de obra argelina já não chega.

A Itália do norte impede os sicilianos. A Catalunha e as Astúrias bloqueiam os andaluzes.

Restam os gregos, os portugueses, os turcos e os jugoslavos.

 

Claude Ferrillet, France – Observateur, 20 Agosto 1964

 

Painel 22

 

 IMPORTAÇÃO/EXPORTAÇÃO DE

MÃO-DE-OBRA

 

Em cima

 No que diz respeito à economia da metrópole, os trabalhadores imigrantes são imortais. Imortais porque são continuamente adaptáveis: eles não nasceram, eles não foram criados, eles não envelhecem, eles não se cansam, eles não morrem.

Eles têm uma função única: trabalhar!

Todas as outras funções das suas vidas, são da responsabilidade do país de onde eles vêm...

 

John Berger et Jean Mohr

“O sétimo homem” – 1976

 Em baixo

 Imigração

 Um protocolo de acordo fixa em 65.000 por ano o número de portugueses autorizados a trabalhar em França.

Em cima à esquerda

 Protocolo de acordo entre a França e Portugal sobre mão-de-obra.

Decreto-lei nº 71880 de 29 outubro 1971

 

Painel 24

 1970

O ANO DE TODOS OS RECORDS

 

1970:

 u 135.000 portugueses entram em França.

 u 110.000 não têm documentos.

 u 47.000 são mulheres e crianças.

“A emigração estrangeira atinge um novo record em 1970: 2 emigrantes em cada 5 são portugueses”.

 

Jornal La Croix, 28 Março 1970

  

Painel 26

OS ANOS DE LAMA

Em cima à direita

 “As autoridades francesas tornarão as disposições necessárias, para que os trabalhadores portugueses encontrem em França o melhor acolhimento”.

Acordo Franco-português de 1963 artº 12

 

Em baixo 

“A lama que cola às solas das botas. A cama gelada, as gotas de água que pingam do teto. O fogo que arde a barraca duma só vez.

Sem ter água quando gela. Sem luz no quarto. Mulherzinhas de 15 anos, na solidão da barraca, sonham, ouvindo a canção”salut les copains”. Ao Domingo, os homens cansados de construir os HLM (alojamentos sociais), embebedam-se com cerveja e vinho. As mães que sonham com uma casa grande, com aquecimento central e luz por todo o lado.

Passagem do filme “Os anos de Lama” 1987

 

 Em baixo – Título

 

Atraídos por melhores salários

 Quase cem mil operários portugueses instalaram-se nos "bairros de lata" de Paris.

 Jornal Le Monde, 25 Abril 1964

  

Painel 27

PEDREIROS A VIVER EM BARRACAS

 

Uma espécie de lixeira estende-se sobre vários hectares, mas descobre-se que esses materiais de recuperação vão servir de abrigo a milhares de seres humanos.

Jornal Le Monde

 Cruel ironia, esses trabalhadores são quase todos pedreiros e outros operários da construçãocivil.

Jornal Humanité, 4 Agosto 1964

 Eles vivem a quatro, seis ou oito nesse lamaçal. Cada um paga, pelo menos, 4 francos de aluguer por mês. Não há esgotos, nem retretes...

Jornal Humanité, 4 Agosto 1964

 Pelas portas entre-abertas podem ver-se as tarimbas, por vezes simples molhos de palha, onde dormem os ocupantes da barraca.

Jornal Fígaro, 24 Abril 1964

 A água é rigorosamente utilizada, por vezes é preciso percorrer 1 km para fazer uma “bicha” interminável na única fonte pública do lugar...

Jornal Fígaro, 24 Abril 1964

 Texto em baixo à esquerda 

É inadmissível que homens vindos trabalhar em França, onde têm um papel económico inegável, estejam a viver em condições que ultrapassam o entendimento! É? E no entanto...

Jornal Fígaro, 24 Abril 1964

  

Painel 28

 UMA CURIOSA CAPITAL

 

Desde a chegada massiva das famílias, a falta de estruturas de acolhimento é evidente. Milhares de famílias portuguesas amontoam-se nos "bairros de lata" da região parisiense.

 O problema dos "bairros de lata", torna-se para o boletim municipal de Champigny Sur Marne no “problema português” (Setembro 1964).

 No "bairro de lata" de Champigny, no Val-de-Marne (departamento), hà 700 Portugueses em 1961, três mil em 1962, para chegar aos dez mil dois anos depois – Champigny, “capital dos Portugueses em França” anunciam os jornais. Uma curiosa capital, construída por redes de entreajuda e solidariedade, mas também por compatriotas “mercadores de sono” e de cartas de trabalho que enganam e surripiam os recém chegados.

Rapidamente, o "bairro de lata" tornar-se-á um centro de emprego à semelhança de um mercado de escravos, onde reinam grupos de autênticos bandidos.

 “As nossas camas parecem autênticos ninhos de cães...Estamos todos constipados e ficamos sem saúde. É o pior que se poderá encontrar... quatro homens em nove metros quadrados... isto é para animais...Mas não para homens. Gostaria que Salazar visse a miséria a que ele nos reduziu...Somos oito e pagamos 40 francos cada um.”

 “O proprietário tem várias barracas...Como com os porcos, ele mete-nos nas barracas... Nem nos quis comprar um cobertor e os jornais servem-nos de lençóis.”

 “ O melhor comércio é o das barracas e dos passadores...Há um que tem aqui o secretário, e vem todos os meses buscar o seu dinheiro.”

 

Painel 29

O AMOR CADA VEZ MAIS LONGE

 

A Maria, por vezes, chega mais cedo a casa. O Eduardo dorme, mas ele ouve, acorda e sorri-lhe. Ela senta-se ao pé dele, beija-o, faz-lhe umas carícias, desejando, como ele, um momento de intimidade. Mas, na fria e inconfortável barraca onde habitam, onde o pequeno pode entrar a todo o momento, qualquer intimidade é impossível.

Aliás, os muros de madeira da barraca têm buracos e fendas por todo o lado, por onde espreitam os olhos gulosos dos adolescentes, da vizinhança (...)

Por vezes, o pequeno brinca lá fora. Eduardo está lá. Ela, desejando amar, fecha a porta devagarinho. Mas a criança põe-se logo a chorar e a bater à porta, e a vontade de fazer amor passa.

 Waldemar Monteiro

“Des Immigrées Portugais Partent”

Edições Casterman

 

 A rapariga era esperta. Alguns dias depois da sua chegada a Champigny ela compreendeu que estavam todos necessitados. Um mês depois, ela já tinha o dinheiro necessário para alugar uma velha camioneta sem motor ao Sr. M. Oliveira e transformar a camioneta em bordel. Manda vir duas velhas amigas e o negócio floresce.

Vínhamos de muito longe para fazer-lhes “uma visita”. Sobretudo ao Domingo, era o fim do mundo (...). Elas eram bastante gentis, mais que as francesas e levavam mais barato.

“A Salto” de Nita Climaco

Lisboa 1967

 

  Painel 30

Título:

UM DOMINGO NO BAIRRO DE LATA

Painel 31

 

Título:

UM DOMINGO NO BAIRRO DE LATA

 FOTOS DE UM ÁLBUM DE FAMÍLIA

  

Painel 32

 “Para nós, toda verdade, é a verdade toda inteira. E primeiramente, a falência de uma ordem social que impõe uma vida abjecta e por vezes uma morte atroz aos trabalhadores recrutados no estrangeiro.”

 Jean-Paul Sartre / 27 de Maio de 1970

  Não é estranho que a imigração siga o mesmo caminho que o vergonhoso tráfico dos negros pois que sobre muitos aspectos existe uma semelhança. Depois de ter sido usada, considerada como o único remédio às nossas necessidades económicas e demográficas, a imigração transforma-se numa série de equações sem saída. Os males que ela secreta são incuráveis. Interesses e moral não são feitos para coabitar. Muitas queixas! Muitas injustiças! Muitos crimes!

 

J.-Loup Dariel

“O Tráfico dos pobres” / 1975

  

Painel 34

 UMA PERSONAGEM CURIOSA

 Texto à esquerda

Eles são dóceis, disciplinados, tantas vezes zelosos, demasiado satisfeitos de serem tolerados.

De qualquer forma haverá sempre a possibilidade de os mandar de volta, em vagões cheios, se por acaso a taxa de desenvolvimento baixar.

 “Eles nunca comprometem as perspectivas de emprego dos jovens franceses, escreve o Paris Press. Bem pelo contrário : graças a eles, a população francesa terá ainda mais empregos, mas empregos mais “nobres”.

Jornal France-Observateur, 20 Agosto 1964

 Texto à direita

 

Estamos fartos de conviver com esta população que enche de dia para dia os nossos autocarros e os nossos passeios (parece que há mais de 20 mil em Champigny-Coelhy, o que é mais de 1/5 da nossa população de que você está tão orgulhoso). Portugueses que são sujos, que cospem para o chão, que mijam sem pudor diante das nossas jovens, que não têm nenhuma educação, que são um atentado à higiene pública, que são fonte de constantes epidemias devido às condições miseráveis em que mais de ¾ deles vivem. E tudo isto para quê? Para enriquecer aqueles que os meus vizinhos e outros chamam os “negreiros”. Que os trazem clandestinamente e para enriquecer igualmente algumas “personalidades” da Câmara...

Carta enviada ao Presidente da Câmara de Champigny Sur Marne, 24 Março 1965

 Banda Desenhada

 u Um português faz cá um barulho!..

 u É sujo!

 u É perigoso!

 u Cheira mal!

 u Portugal, não deve ser um lindo país...

  

Painel 38

À Esquerda - Título

 Quando vem a saudade, o fado estende-se em longos suspiros

BLUES DOS ANOS 60

À direita

A IMPRENSA UNÂNIME

 -          É um período dramático para alguns. Perdendo a esperança, sofrendo o brutal desaparecimento dos entes queridos que ficaram em Portugal, muitos choram lágrimas sentidas diante dos seus camaradas e morrem de desejo de voltar ao país.

Jornal “Derniéres Nouvelles dÀlsace”, 25 Novembro 1971

-          Uma só voz sem revolta, nem queixa, nem desgosto. Um pouco cansado, quando as palavras que lhe vêm são francesas, com as lágrimas quase a cair quando se lhes fala dos filhos, mas juntos, diante de mim, eles os dois dizem: é a vida!

Jornal Syndicalismo Hebdo, 1968

 

-          Nesse pequeno lugar dos arredores, pequena capital do Portugal emigrado, o viajante encontrou, como os seus predecessores, a língua natal e os costumes nacionais. Um pouco de calor humano também lhe tornava menos triste e desenraizamento.

Jornal Fígaro, 14 Janeiro 1968

 

-          São rurais que não gostam da cidade e que reconstituem, nesta terra francesa, a aldeia ou a região de onde vêm. O longínquo Portugal renasce nessas “cortinas de pérolas” que decoram as suas portas, algumas flores, esse magro jovem que toca fados no acordeão, cercado de outros homens magros, vestidos de negro.

Jornal “Les Echos”, 1 Outubro 1964

  

Painel 39

 A VIDA EM COLMAR

 

À esquerda

 São mais de 2000 em Colmar.

Os portugueses: seus problemas, seus projectos, suas actividades...

 

Princípios de 1967

432 portugueses em Colmar. Isolados. Sem família.

Romper o isolamento. Fazer uma nova família. É um pouco o que esteve na origem da criação da Amicale dos portugueses em Colmar.

 

Jornal, Derniére Nouvelles da Alsacia, 25 Novembro 1971

 Ao meio, à esquerda

 Um dia um português colou na parede do nosso quarto um papel onde estava escrito: “Cantinho da Saudade”. Fiquei muito comovido; a minha casa era o canto da amizade, a casa de toda a gente. Era uma grande família.

 Ao meio, em cima

 Foi em 1964 que Manuel “desembarcou” clandestinamente em França, depois de uma viagem que durou um mês. Tinha 18 anos “fisicamente ainda éramos homens, psicologicamente já éramos seres humanos”. O comboio levou-o até Lião onde arranjou trabalho. “O inverno 1964-65 foi atroz, eu vivia em condições desumanas”. Ficou doente e teve de ser operado. “Durante um mês, ninguém me veio ver”. A primavera chegou e ele decidiu ir ao encontro do seu irmão em Colmar. “Estava farto de viver só, tinha medo... na fábrica onde trabalhava, em Lião, em sete meses nunca houve contactos entre mim e os operários ”. Em Colmar, “vivíamos 9 numa barraca... uns comiam às 7 horas, outros às 11 horas, porque era preciso esperar a sua vez”.

Em Junho de 1966, ele parte para o Havre, para frequentar um estágio FPA (Formação Profissional Acelerada), depois trabalhou em Tours e em Estrasburgo. Em Novembro de 1967, voltou para Colmar.

 

Cima, à direita

 Arranjei um pequeno quarto, numa velha casa onde vivia outro português.

O meu quarto transformou-se rapidamente num centro de acolhimento.

 

Ao centro, à direita

 Toda a gente vinha, para que eu escrevesse uma carta em francês ou para beber um copo; uns jogavam às cartas, outros ouviam música portuguesa. Ou, simplesmente, vinham para se encontrar entre amigos.

 

Baixo, à direita

 

No Natal de 1967, a paróquia de Saint-Martin em Colmar, organizou uma festa portuguesa. O padre contactou-me, fomos ver as famílias portuguesas.

Foi uma grande festa, com quase 400 pessoas.

Cantámos e comemos. Havia um ambiente de amizade.

 

Painel 40

 UMA NOVA FAMÍLIA

 

Em cima à esquerda 

Foi depois dos acontecimentos de Maio de 1968. Não fomos muito bem aceites, porque éramos uma Associação de portugueses, com um Comité de portugueses.

Os documentos da Associação foram entregues na “Prefecture”, seguiram para o tribunal e, em seguida, para o Ministério. Tudo isto durou um ano.

 

Ao centro

Fomos de passeio ao monte de Sainte-Odile, em 1968, éramos quase 900 pessoas, de toda a Alsácia. Era a primeira vez que os portugueses de uma região se encontravam.

 Ao centro, em baixo 

Pessoas da mesma aldeia de Portugal encontravam-se. Elas pensavam estar longe umas das outras e só estavam a 50 km de distância. Foi um dia maravilhoso de convivio.

 

Em baixo, à esquerda 

Foi nesta altura que chegaram massivamente portugueses. Os recém-chegados não tinham alojamento. Pouco tempo depois arranjámos uma velha casa, na qual criámos um primeiro centro de acolhimento para os que chegavam.

 

Título: A Amicale dos portugueses inaugurou o seu Centro.

 Em baixo, à direita

 Título:

 “O PORTUGUESES DE COLMAR ONTEM E HOJE”

Mil dificuldades a resolver, antes de acolher a mulher e os filhos

 Nós vivíamos felizes no nosso Centro. Todos os dois meses organizávamos festas, mais para nos encontrarmos. Antes eu via os meus companheiros tristes. Quando se encontravam no nosso local, com um pouco de música portuguesa, ficávamos felizes.

  

Painel 41

A VIRGEM NOSTALGIA

À esquerda

 A igreja francesa teve um papel importante de substituição, ao nível do acolhimento dos portugueses e do apoio necessário à criação de associações.

As paróquias foram, talvez, os primeiros espaços de reencontro dos portugueses, e por vezes, também , o meio de abertura com a sociedade envolvente.

Mas, “as missões católicas portuguesas”, verdadeiros consulados religiosos do país, entenderam preservar, aqui, uma identidade sócio-religiosa que contribuiu largamente para pôr de joelhos o povo português.

Malgrado alguns conflitos, a igreja francesa não foi capaz de afrontar o “nacional-catolicismo” português.

Depois de 1974, as missões católicas desapareceram e, com a criação da Pastoral dos Emigrantes e da “Aumônerie” portuguesa, a igreja pretende encorajar a tomada de responsabilidades dos trabalhadores portugueses na vida colectiva, nas suas organizações e no dia-a-dia da igreja em França.

 

Em cima à direita

 Paris, Maio de 1964: 5.000 portugueses desfilam atrás da bandeira nacional e da virgem. Uma cópia das grandes manifestações de Fátima.

 

Em baixo, à direita

 A criação em 1966, pela diocese de Paris, do Jornal “Presença Portuguesa”, é uma tentativa de despertar os portugueses para a realidade da emigração e fazer recuar o obscurantismo religioso. Mas, em meados dos anos 80, “Presença Portuguesa”, acaparada pela igreja portuguesa, reduziu a sua existência unicamente à comunidade portuguesa.

 

 

Painel 42

UM DOMINGO NA ASSOCIAÇÃO

 

Em cima, à esquerda

 As Associações portuguesas firam desde o início Centros de Convívio. Ao princípio havia só homens, vinham depois do trabalho, empurrados pela saudade, pelo desenraizamento. Nessa altura lembravam-se que estavam sós, longe da família em Portugal.

 

Ao centro, à esquerda

 Os emigrantes portugueses tiveram sempre, em relação aos serviços sociais ou de acção sócio-cultural, uma atitude de os evitar. Essa atitude levou-os a criar as suas próprias redes associativas de convívio e de entre-ajuda.

 

Ao centro

 Separados da sua aldeia, pequena mas calorosa, mergulhados brutalmente num meio urbano impessoal, privados de um qualquer enquadramento, os portugueses começam a reunir-se nas suas Associações.

Para muitos deles, as Associações vieram a ser a única estrutura intermédia e formalizada, entre a família (restrita) e a sociedade francesa.

 

Ao centro, em baixo

Tudo isto foi favorecido por uma característica da herança cultural do fascismo português: a glorificação da nação e do seu império, através da exaltação chauvinista da terra.

 

Em cima, à direita

 Os momentos mais importantes da primeira fase da criação de Associações, situam-se pouco tempodepois da chegada massiva das mulheres, vindas ao encontro dos seus maridos.

 

 Painel 44

 A LIBERDADE EXILADA

Até à “Revolução dos Cravos” (1974), Paris será uma plataforma giratória da oposição à ditadura de Salazar e Caetano. O movimento de oposição vai, entre outros, produzir dezenas de jornais que denunciarão o fascismo em Portugal e nas colónias africanas. As organizaçoes vão pouco a pouco implantar-se na emigraçao. A informação vai estender-se também à situação e às lutas dos trabalhadores emigrantes.

 u AVANTE

 u CAMARADA

 u O IMIGRADO PORTUGUÊS

 u JORNAL DO EMIGRANTE

 u FRONTEIRA

 u JORNAL PORTUGUÊS

 u PORTUGAL INFORMAÇÃO 

u PORTUGAL SOCIALISTA

 u A VERDADE

 u O ALARME

 u O GRITO

 u O SALTO

 Painel 47

SINDICATOS

 

Em cima à esquerda

 “O trabalhador”, Jornal mensal da CGT para os trabalhadores portugueses vítimas de inumeras vigarices da parte de alguns patrões. Um deles, em 1971, declarou no Tribunal do Trabalho: “Os portugueses são bons trabalhadores, mas, com a saudade do país, vão-se embora quando economizam algum dinheiro. Não são trabalhadores como os outros e os Acordos de Trabalho não deveriam ser aplicados a eles”.

 

 Ao centro

 As condições de trabalho, por vezes desumanas, vão levar os trabalhadores portugueses a reagir, muitas vezes apoiados pelos sindicatos.

Em Aubervilliers, nas fábricas Bouygue (construção civil), há 45 trabalhadores: 5 turcos, 1 tunisino, 2 franceses e 37 portugueses.

Em 21 de Dezembro de 1976, eles fizeram 2 horas de greve e entregaram ao patrão um caderno reivindicativo. O patrão impediu-os de retomar o trabalho, suspendeu-os 3 dias e pretendeu impor-lhes as suas condições. Os trabalhadores recusaram. Acabaram por ser despedidos por “falta grave” e obrigados a deixar os seus alojamentos. Seguiu-se uma longa luta para obter a sua reintegração.

 

Em cima à direita

 “A voz do trabalhador” (1967-74), jornal mensal da CFDT para os trabalhadores portugueses que trabalhavam em condiçoes difíceis e precarias e com baixas qualificações.

Em 1973, 17,6% são simples ajudantes, 42,9% são simples operários , 36,2% operários qualificados e somente 2,7% empregados e 0,6% técnicos.

 

 Painel 48

O BAIRRO DE LATA JÁ ESTÁ A ARDER?

 

Em Janeiro de 1970, face à indignação pela morte de cinco trabalhadores africanos em Aubervilliers, Jacques Chaban-Delmas ( 1° Ministro ) lança um plano de “reconversão dos bairros de lata”.

Suprimir os bairros de lata é uma boa coisa, mas não se pode expulsar os seus habitantes sem lhes propor um alojamento!

As municipalidades invocam as disposições legais que as obrigam a não realojar pessoas que ocupam ilegalmente um terreno.

Em Massy, os portugueses recusam a demolição do bairro de lata sem antes serem realojados nos HLM (alojamentos sociais) prometidos pela Câmara Municipal.

O conflito desenvolve – se. Laurete Fonseca, portuguesa que prestava apoio aos habitantes do bairro de lata, é ameaçada de expulsão do território por não respeitar “a estrita neutralidade política que se impõe aos estrangeiros residentes em França”.

 

Em cima, à esquerda

 Em Champigny, a 13 de Fevereiro de 1966, começam as primeiras demolições de barracas. Nesse dia, dos setenta homens expropriados, somente 6 aceitam o alojamento num centro de acolhimento. A brutalidade das operações, que não foi precedida de nenhuma preparação, nem de informações precisas sobre as condições de realojamento, explicam o insucesso das primeiras tentativas de destruição dos bairros de lata.

 

Em cima, à direita

 Na noite de 14 de Junho de 1970, um incêndio destroi uma parte do bairro de lata de Francsmoisins, em Saint Denis, deixando 624 portugueses sem abrigo. O bairro de lata ardeu no momento em que os habitantes estavam empenhados na luta pelo seu realojamento.

Acaso ou coincidência?

 

Painel 49

UMA REVOLUÇÃO EM DIFERIDO

Em 25 de Abril de 1974, um golpe de estado derruba a ditadura em Portugal. As forças armadas no poder decretam então uma democratização da vida política e social do país.

No seguimento, os portugueses de França exigem mudanças nas representações oficiais do governo no território francês, mas, em Lisboa, o Ministro dos Negócios Estrangeiros faz “orelhas moucas”.

A 13 de Dezembro de 1974, militantes de Nantes passam à acção ocupando o Consulado e exigindo a partida do Cônsul do antigo regime.

A 17 de Dezembro eles conseguem obter a saída do Cônsul.

 

 Títulos:

Os emigrantes portugueses querem um novo Cônsul, para obter a partida do antigo eles ocuparam os serviços do consulado.

 

Para que as nossas crianças nunca sejam emigrantes.

 

Painel 51

A COMUNIDADE INVISÍVEL

 

 Em cima, à direita

 “É difícil de distinguir, se é o nosso passado que é o nosso futuro, ou o futuro o nosso passado”.

 Fernando Pessoa

 Ao centro

 Para muita gente, os portugueses estão bem integrados porque “não se ouve falar deles”.

Perplexos, ao conhecerem a organização dos portugueses, muitos reagem com uma explicação curiosa: “isso é porque eles querem regressar ao seu país”. Assim, os portugueses, podem parecer, ao mesmo tempo, como “integrados” e como “desejando sobretudo regressar ao seu país”.

 

AVISO

 

Esta é a história de um povo exilado nos confins da nostalgia.

Os descendentes dos conquistadores, que antigamente reinaram do Brasil a Macau, foram arrancados, uma vez mais, às suas ingratas terras. Eles trocaram o glorioso capacete dos guerreiros pelo capacete da construçao civil e a sua espada por um camartelo.

Foi neste exílio que eles edificaram a Tosmania. Uma grande aldeia, quase imaginária, onde os portugueses se encontram para “levar à cena” o que foi a sua identidade e o seu país.

A Tosmania, o país dos Tos (vem de "Portos"), existe em todo o lado e em lado nenhum. Em todo o lado, porque eles são mais de 1 milhão espalhados em toda a França. Em lado nenhum, porque, vivendo fechados sobre si mesmos, eles são invisíveis.

É daí que vem, sem dúvida, a ilusão de que eles estão integrados. Mas, de tanto confundir discreção e integração, não se acaba por esquecer que eles existem?

 

Extratos do filme

“Fim-de-semana em Tosmania”

 

“O EFEITO CAMALEÃO”

  

À esquerda

 Mas a conformidade e a ausência de rupturas, vão juntas com o isolamento e a incapacidade de criar modelos novos, capazes de interpelar o exterior.

 

Ao centro

 Na imigração portuguesa, a estabilidade da família e a preocupaçao, a todo o preço, da gestão interna e autónoma dos problemas e dos conflitos, impediu o aparecimento de certos comportamentos de “desvio”.

 

À direita

 A diferença, entre as práticas no interior de Associação e as que existem noutros meios frequentados pelos jovens, é enorme.

Pode-se ir dançar ao Domingo no grupo folclórico, entre portugueses, e desejar profundamente fundir-se, na segunda-feira de manhã, como um camaleão, na massa dos amigos franceses, dos quais não se querem distinguir.

 

Em baixo 

O movimento associativo só poderá sobreviver e adaptar-se por intermédio dos jovens. Só eles podem viver a dualidade portuguesa-francesa que esteve na origem da formação das suas mentalidades. Alguns deles, mesmo formados nessa dualidade, verão o seu futuro inteiramente no contexto envolvente.

 Associação Centopeia- 1985

  

Painel 52

A FORÇA TRANQUILA

 Em cima, ao meio

 O florescimento das associações portuguesas foi espectacular:

 u 23 em 1971;

 u Uma centena em 1975;

 u Quase 800 em 1982;

 u Quase mil em 2000.

 Nenhuma outra comunidade estrangeira terá criado tanto.

 

 Centro à direita

 As associações portuguesas nunca incomodaram o governo francês: elas só tinham uma finalidade cultural ou desportiva e eram “patrocinadas” pela igreja francesa.

 

Centro, à esquerda

 400 clubes de futebol portugueses em França, tendo cada um, uma, duas ou três equipas, cursos de português, grupos de catecismo, algumas emissões de rádio...enfim, uma verdadeira rede.

 

Em baixo à direita

 Hoje, como nos tempos de Salazar, é o governo português o seu verdadeiro alvo. É a ele que exigem de defender os direitos sociais dos imigrantes de França ou de promover o ensino do português.

Robert Solé, Jornal “Le Monde”, 19 Outubro 1985

 

FUGIR À MISÉRIA

 

João Carvalho não sabia ler nem escrever, mas pensava continuar a trabalhar em Portugal. Para um trabalhador agrícola como ele, casado, pai de duas crianças, era a miséria dia após dia a perder de vista. Trinta escudos diários. Saibam que o escudo vale 0,17 francos e feitas as contas; 5,10 francos. Tudo isto para penar nos campos “de sol a sol”, como se costuma dizer, do levantar ao pôr do sol.

A sua mulher também trabalhava. Ela ganhava por vezes 10 outras vezes 15 escudos, sem ser alimentada. A 13 escudos o Kilo de bacalhau, este bacalhau que sabemos preparar de 365 maneiras – “uma por cada dia do ano” assim diz o provérbio. João Carvalho, estava destinado a esgotar-se até à morte por quase nada.

“Mais um dia passou, um dia a menos de infelicidade”.

Era uma canção portuguesa, um Fado.”

 

Painel 53 

FOLCLORE, FUTEBOL E FAMILIA

 

 (Em cima, à esquerda...)

 É por intermédio da criação de grupos folclóricos que as mulheres entram nas associações. É o desenvolvimento rápido e extraordinário dos grupos folclóricos que dá às associações actualmente uma dimensão familiar. A actividade com o folclore contribuiu à visibilidade da comunidade portuguesa localmente.

 

(Em baixo à esquerda...)

 Mil equipas portuguesas de futebol... em França.

 

(Em baixo, à direita...) 

« O ensino do português às crianças foi uma orientação fundadora do movimento associativo. Na associação, a organização das actividades é pensada em função « de ocupar e educar » as crianças, segundo as tradições, num espaço controlado pelos pais » Albano Cordeiro / Enfermements et Ouvertures – 1985

 

“Todas estas praticas, assim actualizadas no movimento associativo, procuram referir-se a Portugal, à cultura portuguesa, às tradições. No entanto, a ruptura é manifesta com esta cultura antiga. Em França, eles tornam-se comportamentos empobrecidos, como ritos, transformam-se em folclore.” Maria Cunha / O movimento associativo – 1984

   

Painel 55 

A PROCURA DA ALDEIA PERDIDA

 

 

Prefácio

 Todos os domingos, pomos em cena uma aldeia, um pais embelezado pelo afastamento. Esse pequeno bocado de Portugal, que deixamos há vinte anos e que já só existe na nossa memória. Essa aldeia, onde as más condições de vida nos obrigaram a partir e que a saudade reduziu a imagens. O faustoso do traje folclórico é mais importante que a dança. A marca da cerveja mais apreciada que a qualidade desta. O essencial não é falar bem a nossa língua, mas pronunciar palavras daqui com a pronuncia de lá de baixo. Vão à missa para celebrar “a terra”, que significa ao mesmo tempo, a aldeia, a terra e o país. E assim, ao domingo, nós tornamo-nos camponeses de cultura católica e de religião portuguesa.

Extracto do filme “Califórnia, versão portuguesa”, 1987 

Comentários da imprensa

 Paris não se mestiçou

  Painel 58 

ENTÃO, INSTALÁMO-NOS?

 

(em cima à esquerda)

400 000 jovens de origem portuguesa vivem em França. Com o começo da vida activa e com o casamento, estas gerações vão decidir onde a vida deles será localizada. A hora da verdade soará para muitos pais que alimentam ainda o discurso do regresso.

 

(em cima à direita)

Em 1980, os Portugueses enviaram para Portugal 9,3 mil milhões de francos. Em 1986 transferiram 6,4 mil milhões de francos, ou seja cerca de 3 mil milhões a menos.

Uma queda significativa de 32% nos envios de divisas em seis anos. Em Portugal é um desvario: “bruscamente lembramo-nos, que eles (os imigrantes) existem, pois que os envios de divisas, começaram a baixar dramaticamente”

(Diário de Noticias, 1984)

 

(em baixo à esquerda)

Havia em 1973, 2 900 Portugueses no desemprego. Em 1987 são 39 500 desempregados, ou seja quatorze vezes mais que em 1973 ( mas a percentagem dos desempregados é inferior à média nacional).

Assiste-se a uma mudança nos jovens em relação aos trabalhos propostos pela rede comunitária ( obras, limpeza, porteiros...)

 

(em baixo ao centro)

A imigração portuguesa, durante muito tempo fechada à volta do sucesso do regresso, parece começar, em França, um movimento de saída do assalariado.  É em 1984, com a carta única de 10 anos, que será liberalizado o acesso dos portugueses à carta de artesão. Em 1986, a entrada de Portugal no Mercado comum, levanta todos os obstáculos jurídicos à criação de empresas. Criação de empresas pelos portugueses na “Chambre des métiers” de Clermont-Ferrand: 34 empresas artesanais em 1983, 187 em 1987. Desde 1984 criaram-se tantas empresas como nos catorze anos precedentes.

 

(em baixo à direita)

Entre 1968 e 1978, 165 000 crianças de origem portuguesa nasceram em França. (Em 1982, só 165 jovens recusaram a nacionalidade francesa)

  

Painel 59 

UMA ASSOCIAÇÃO NA CIDADE

 

(Em cima à direita)

 “1975, princípio da criação da APCS, com o objectivo  de apoiar a população portuguesa com um programa sócio-cultural. Com quatro mil portugueses em Pontault-Combault com falta total de acolhimento, a APCS soube criar uma verdadeira estrutura social em resposta à grande solicitação dos nossos compatriotas e, ao mesmo tempo, impulsionar um programa cultural que não para de se desenvolver; a prova é abertura em 1983, do Centro Cultural Franco-Português.

Este espaço vai permitir preservar a nossa identidade cultural. Este Centro Cultural quer ser um elo de encontro para os franceses e portugueses que, apesar da coexistirem há muitos anos, não se conhecem.”

 Associação Portuguesa Cultural e Social

 

 (em baixo à direita)

 1 – Painel à entrada da cidade

 2 – Inauguração em 11 de Junho de 1983 do centro cultural franco-português – discurso do Presidente da Câmara e “cá estamos”, boletim mensal da associação.

3 – Informação sobre colónias de férias em Portugal, organizados pela associação e abertos às crianças de todas as nacionalidades.

 4 – “Um povo, uma história” – espectáculo bilingue sobre a história do povo português posto em cena pelos jovens, na sala Jacques Brel.

5 – A associação participa na vida local. Convocação pela câmara para a reuniao da Comissão Social Municipal. 

6 – Em 1978, Pontault-Combault geminou-se com Caminha, cidade do Norte de Portugal, região donde são originários muitos dos portugueses residentes em Pontault-Combault. Desde então, desenvolveram-se actividades baseadas em trocas culturais, desportivas, escolares, férias para a terceira idade e estágios de formação para os estudantes.

 7 – Avenida de Caminha, inaugurada em 1978 no acto da geminação.

 8 – Em Setembro de 1986, no quadro da geminação , trinta jovens de Portugal vieram a França para terem uma formação profissional, financiada pelo Fundo Social Europeu.

 9 – Desde há doze anos que a festa franco-portuguesa se abre a todas as nacionalidades.

10 – A associação participou na realização do “Contrato de Aglomeração”. A carta da municipalidade a este sujeito.

  

 

Painel 61 

“UM EM CADA DEZ PORTUGUESES VIVE EM  FRANÇA”

 

População

Tornando-se a primeira comunidade estrangeira, pela sua importância, em 1975, a comunidade portuguesa é estimada em 860 000 pessoas. 

Insucesso escolar

Com 72% de crianças em situaçao de insucesso escolar, ao nível de CM2 (4°ano – ensino básico) os portugueses tem o recorde do insucesso escolar.

220 000 jovens de origem portuguesa estão escolarizados em França. Somente 24 % acedem ao ensino secundário (contra 45% para os alunos franceses).

 Estatuto

Em 1982, com 92% de pessoas tendo um estatuto de estrangeiro, a comunidade portuguesa era juridicamente a “mais estrangeira” em França. Os 8% da população naturalizada de origem portuguesa era a mais operária (70,6%) entre os franceses por naturalização.

 Mulheres

A percentagem de actividade das mulheres portuguesas, apesar da importância do trabalho clandestino, é mais elevada do que a das mulheres francesas (42,7% em 1983) e ultrapassa largamente a média das mulheres estrangeiras (23,7%).

 Língua

O português é a língua mais ensinada, pois que ela é administrada  em 1655 escolas, onde estao inscritas 31 016 crianças de nacionalidade (portuguesa) (1986).

Cerca de 175 000 crianças frequentam a pré-primária ou a escola primária. 450 professores pagos pelo governo português e professores pagos pelos pais, enquadram entre 50 e 60 000 crianças no ensino primário.

 Qualificação

45% dos homens trabalham na construção civil e obras públicas.

85% dos homens e 78% das mulheres são operários.

 Divisas

Em 1982, com 7,3 mil milhões de francos enviados para Portugal, os portugueses possuem o recorde do envio de divisas para os países de origem (47% do total).

 Casamentos

Em 1984, com 15.65% do total dos casamentos mistos, os casamentos franco-portugueses foram os mais numerosos do ano.

As gerações nascidas em França, desde a grande imigração familiar (1965/1974) chegam à idade de se casar no fim dos anos oitenta. Esses jovens escolherão, massivamente, a nacionalidade francesa. Os casamentos franco-portugueses cessarão de ser um indicador de mistura das duas populações, pois serão recenseados como casamentos franceses.

 Nascimentos

Com 21755 nascimentos em 1975, o número de crianças portuguesas nascidas em França é o mais importante que se tenha registado na imigração. Mas a natalidade portuguesa tem rendecia a diminuir. Em nove anos (1984) atinge um número que é cerca de metade do pico de 1975, baixando para menos de 12 000 nascimentos no ano.

 Superpopulação

Em 1982, mais de 50% da população portuguesa estava alojada em situação de superpopulação.

 

 Título em baixo

 A FESTA DE NATAL DOS PORTUGUESES DE COLMAR