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O diabo nas festas da Senhora das Neves e Lavoura dos cães – mito organizador do calendário Monteiro, Miguel,(1995), “Cultos e Ocultos de Monte Longo”, separata - Minia, Braga, ASPA,PP.103-135.
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As festividades da Senhora das Neves realizadas no lugar da Lagoa e em São Bartolomeu do Rego, são o centro da atenção neste nosso estudo, dado que ambas fazem referência aos mesmos símbolos, nomeadamente ao centralizar no diabo as suas práticas rituais, ao mesmo tempo que o calendário de ambas se encontram interligadas. Conforme já referimos no texto referido à Senhora das Neves, também, as de são Bartolomeu do Rego, em Celorico de Basto, São Bartolomeu do Mar, em Esposende, São Bartolomeu de Caves, São Bartolomeu da Ponte da Barca, são festividades lunares de Agosto, tal como as que se fazem a este Santo por todo o Minho. O culto no Santuário da Senhora das Neves fazia-se em dois momentos opostos no calendário e com significações importantes para as populações: « que concorrem de várias partes, por seus infinitos milagres, desde cinco de Agosto até ao último sábado do mesmo mês, & o mesmo concurso de gente se encontra do primeiro sábado da Quaresma até ao último daquele santo tempo". Carvalho da Costa (1706: 135)Este tempo de culto, dado situar-se entre o dia cinco de Agosto e último sábado do mesmo mês, tem a particularidade de ser móvel para acerto de calendário. O segundo tempo de culto, este quaresmal, tinha a duração de sete semanas e era limitado por sábados: « do primeiro sábado da Quaresma até ao último sábado daquele tempo»Por outro lado, a festa de São Bartolomeu tem um tempo fixo: 24 de Agosto. Temos como paradigma a análise do calendário festivo: o ano tem 365,25, o que corresponde a 13,04 meses lunares de 28 dias. Contando o tempo de culto da Senhora das Neves, no mês de Agosto, fazendo a sua correspondência ao calendário, contamos meses de culto com 21, 22, 23, 24, 25, 26 e 27 dias, repetindo-se cada um de 7 em 7 anos, sendo o dia 24 de Agosto dia de referência central para acerto do calendário religioso.Apliquemos esta regra desde os anos de 1900 até ao de 2008 com o calendário actual. Em 1990, houve 21 dias de culto: em 1991,27; em 1994, 23; em 1995, 22; em 1996, 27; em 1997, 26; em 1998, 25; em 1999, 24; em 2000, 22; em 2001, 21; em 2002, 27; em 2003, 26; em 2004, 24; em 2005, 23; em 2006, 26; em 2007, 21; em 2008, 26. O dia 24 terá, em si mesmo, um valor simbólico no calendário, dado ser o ponto temporal intermédio entre o mínimo tempo de culto (21) dias e o máximo (27) dias. Segundo o princípio do ano lunar de 13 meses, a festa de São Bartolomeu correspondia ao dia de referência para o acerto do tempo, cujo culto ritual se inicia no dia 5 de Agosto na Lagoa e acaba no mesmo lugar, no último sábado do mês. Actualmente, a festa de Senhora das Neves faz-se na última sexta do último sábado do mês de Agosto, obrigando, assim, que esta se faça 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 dias depois da de São Bartolomeu. Podemos concluir que, quer através da antiga contagem, quer da actual, o tempo excedente aos 13 meses lunares, necessita de uma correcção, a qual é feita no mês lunar de Agosto, contando este mês vinte e um dias ou vinte e oito, numa variação contada de ste em sete anos. Nesta Formula de organização do calendário, o dia 24 de Agosto e a festa da Senhora das Neves definem os limites temporais do acerto do tempo lunar. Com o tempo, o calendário das festividades procurou outros acertos de calendário, de tal modo que, actualmente, as festas em vez de corresponderem a tempos festivos foram sendo fixadas em dias definidos, sem que se tivessem alterado o essencial do tempo de culto. O tempo de Agosto correspondia nas sociedades agrárias ao momento da recolha dos frutos de sequeiro (trigo e centeio), ou seja o fim do ciclo, e, o da Quaresma ao momento de pausa para que no fim se reiniciassem o das sementeiras. Julgamos assim que teria existido uma relação inicial entre estas e outras festas do Planalto de Monte Longo associadas ao ciclo agrário e cujo calendário seria regulado pelas fazes da lua de Agosto, para além das significações próprias de cada um dos seus rituais e dos símbolos utilizados. Em São Bartolomeu, o dia 24 de Fevereiro (Carnaval) e 24 de Agosto constituem momentos oposto no calendário, ou seja, medeiam entre si 182,6 dias do amo, havendo entre ambas, não só o facto de serem dias opostos do ano, mas também por apresentarem semelhanças, dado que, em ambos os tempos, estão presentes os mascarados. Aqueles dias possuem um valor simbólico muito profundo para a comunidade, por se tratar dos momentos do fecho e de abertura de tempo, ou seja, momentos de passagem, propícios às grandes desordens cósmicas, simbolizadas com diabos e a presença dos espíritos dos antepassados que os mascarados simbolizarão. Naquele dia de Agosto, os agricultores mascaram-se como se pode testemunhar noutras festividades de São Bartolomeu, como no Rego, onde o diabo se solta das mãos do São Bartolomeu, os cães fazem de bois e as cabras fazem de vacas; em Esposende o diabo é simbolizado pela galinha preta oferecida ao Santo e os banhos santos purificam; em Cavês, no mesmo dia, festeja-se com banhos santos, junto À ponte. No dia de Carnaval, em todas as localidades, as máscaras festejam o Solstício agrícola de Inverno, simbolicamente é também o tempo de passagem, ou início das sementeiras, enquanto as festas de Agosto é a festa das colheitas. No dia 24 de Agosto e 24 Fevereiro o tempo lunar está aberto e o diabo solta-se, sendo necessário ritualizar o fecho do tempo com máscaras, banhos santos galinhas pretas, representando a morte, simbolizando assim a instabilidade e a desordem naqueles momentos de passagem, à semelhança do que acontece nos solstícios de verão e Inverno: em 21 de Junho e 21 de Dezembro, festejados com fogueiras. O outeiro é o lugar escolhido para colocar o pinheiro mais alto e aprumado para as festas de São João. Além de se fazer aí uma grande fogueira, os rapazes da aldeia provocam o caos na aldeia, dedicando-se, durante toda a noite de são João, a pôr em desordem todos os objectos encontrados, não escapando a besta retirada silenciosamente da corte, que é atada vagarosamente ao sino da igreja por uma larga corda. O animal é depois vergastado pelo grupo desordeiro, logo desaparecido nas sombras da noite. As fogueiras de Junho e a colocação de todos os objectos da aldeia fora do lugar, no solstício de Junho, antecipam o caos possível nesse tempo ainda aberto, concluindo-se um tempo que também era festejado pelos rapazes e raparigas, procurando queimar-se nas partes genitais. No caso do calendário solar, o solstício de verão festeja-se no dia de São João e, no dia de Natal o solstício de Inverno, onde o uso do fogo é obrigatório. Enquanto as festas do calendário solar são masculinas e ritualizadas com o fogo, as lunares (Fevereiro e Agosto) são femininas e ritualizadas com máscaras e com a presença do diabo. "Temos uma cerimónia cosmogónica instaurada in illo tempore, pelos seres imortais: porque, entre os gestos simbólicos efectuados, um dos mais importantes é aquele a que os indígenas chamam «o estabelecimento dos alicerces do mundo», e a cerimónia coincide com a última noite sem luar e o aparecimento da nova lua, o que implica a recriação do mundo".1 Nestes dois momentos opostos do ano, os povos organizam os limites dos ciclos solares e lunares como os estabelecem um sistema de interligação entre o que se passa com o sistema solar e oq eu decorre das suas vivências produtivas agrárias, resumindo em cada momento do ano todo o tempo regenerado e renovado, retomando-se em cada ciclo o princípio e o fim de uma existência. Podemos recorrer em favor da nossa tese ao que diz Claude Lévi-strauss: «os povos sem escrita têm um conhecimento espantosamente exacto do seu meio e de todos os seus recursos»2 1 Eliade, Mircea, O Mito do Eterno Retorno,, Ed.70, Lisboa, 1988, p.87 2 Lévi-Staruss, Claud, Mito e significado, Ed.70.1987, p32Miguel Monteiro Mínia - 3.ª Série - Anno II - 1994, pp. 105 - 136
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