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SENHORA DE ANTIME Monteiro, Miguel,(1995), “Cultos e Ocultos de Monte Longo”, separata - Minia, Braga, ASPA,PP.103-135.
UM CULTO SOLAR OU RITUAL DE FECUNDIDADE
Foto de Manuel Meira (2003) " - Eu, para casar, não precisei de carregar o andor da Senhora de Antime! " As mais antigas referências escritas sobre as festividades da Senhora de Antime aparecem nos finais do séc. XIX no Dicionário Corográfico de Pinho Leal e pela pena de um dos mais ilustres romancistas portugueses: Camilo, nas "Memórias do Cárcere", mostra-nos o seu genial espírito observador, contextualizando socialmente a festividade realizada na freguesia de Antime, no segundo Domingo de Julho. Hoje esta festividade corresponde também às Festas do Concelho que com a Feira Franca no dezasseis de Maio, constituem as manifestações populares mais significativas do concelho. Os habitantes mais antigos não deixam de assinalar estas festividades com repastos tradicionais: o anho assado é o prato preparado para as festas do Concelho e a vitela assada é servida nas de Maio, que com o pão-de-ló e as cavacas compõem as ementas apresentadas aos parentes que, nesse dia, vêm obrigatoriamente a Fafe.
Foto de Manuel Meira (2003) O momento mais significativo desta festa é a procissão. Saindo de Antime em direcção a Fafe, é recebida pela Nossa Senhora das Dores nos limites das duas freguesias, dirigindo-se as duas procissões, aí transformadas numa só, para a igreja Nova de São José ou da Misericórdia.
Foto de Manuel Meira (2003) O que mais tem interessado aos que se interrogam sobre o significado desta manifestação religiosa é o peso excessivo da charola da Senhora de Antime e o facto das duas imagens se curvarem no momento do seu encontro. Vejamos o que Pinho Leal e Camilo Castelo Branco nos deixaram escrito: "Grande romaria a Nossa Senhora d'Antime ou Senhora da Misericórdia, ou do Sol. A imagem é de pedra, e com a charola pésa 24 arrobas! Outros dizem que a senhora pésa 8 arrobas, e o andor, que também é de pedra (!) outras oito. Levam-na na procissão os maiores valentões da freguezia. A imagem da Senhora é de granito metamorphica, com braços postiços e sem pernas nem pés, nem feitio algum de gente, além da cara. São 8 rapagões que levam a charola e a senhora, mas vão outros oito para os revezar. Apesar da sua valentia, por varias vezes teem alguns ficado esmagados debaixo da imagem; mas, mesmo assim, ha grandes empenhos para levarem a charola, porque teem fé de serem bem sucedidos, nos seus casamentos, se tiverem sido conductores da santa.
Foto de Manuel Meira (2003) Já dos nossos dias, um dos que ajudava a levar a Senhora, andava picado com outros conductores, e ao dobrarem uma esquina, tal geito deu, que o andor cahindo sobre o seu inimigo, o matou logo, ficando esmagado; mas esta morte foi imediatamente vingada por um terceiro, que deu no tal amigo uma choupada, matando-o imediatamente e ficando a santa e a charola cheios de sangue !"1Esta descrição corresponde no essencial àquela que Camilo nos faz, ainda que lhe acrescente outros elementos de interesse social. "É de saber que Luis Lopes, António Manuel e José Vieira, que ainda vive, foram, em anos verdes, três denodados jogadores de pau, e tamanho terror incutiram nas cercanias de Fafe que bastaria a qualquer deles, para vencer a sua, mandar o pau e não ir, como o rei da Suécia fazia às botas.
As mais memorandas façanhas dos Vieiras tinham o seu teatro na celebrada romaria da Senhora de Antime. Aí apareciam os três campeadores mascarados, como era de uso em mancebos de famílias de alto porte.
As máscaras afiavam as chanças de outros chibantes, e deste gracejar de mau agouro procedia o partirem-se as caras por debaixo das máscaras, como se as não quisessem para outro mister, ou as sacrificassem à padroeira da romagem, como os índios se estiram sob as rodas das carroças dos seus ídolos.
A Senhora de Antime é de pedra, e pesa com a charola vinte e quatro arrobas. Os mais possantes moços da freguesia pegam ao banzo do andor. Aconteceu, há anos, ser um dos que puseram ombro ao andor mal visto dos outros, e de um principalmente. Ao dobrar de uma esquina o moço odiado sentiu-se vergar sob as vinte e quatro arrobas de pedra, e morreu instantaneamente esmagado.
O principal inimigo do morto foi logo conhecido, e varado por uma choupada, que lhe fez espirrar o sangue e a vida à charola da imagem. Tirem disto a limpeza de consciência e religiosidade daqueles sujeitos, que ali vão dar testemunho de seu fervor, com a Senhora de pedra aos ombros!" 2 Preferindo ligar os Vieiras de Castro e a sua atitude de varões locais à procissão da Senhora de Antime, em vez de uma descrição genérica do ritual, Camilo fornece-nos todos os elementos para a compreensão da função social e mágica da festividade pagã. Em nosso entender a procissão da Nossa Senhora de Antime é a manutenção de um ritual muito antigo praticado pelos rapazes casadoiros, cumprindo assim o rito da passagem de adolescentes para o estádio dos adultos, num hino à fecundidade que lhes é esperada pela comunidade, simbolizado na Ara e no icon. A primeira razão para defendermos esta hipótese é o facto de a Senhora de Antime ser também designada por Senhora do Sol, levando-nos a associar este facto a uma manifestação mágico-simbólica ao Sol como valor masculino a quem são atribuídas capacidades fecundantes Com a cristianização da região, procurou-se substituir este ritual pagão por outro mais adequado à simbologia cristã, surgindo assim a Nossa Senhora de Antime como um culto de substituição, ligada ao mosteiro Santa Maria de Antime, documentada a sua existência já no ano de 1120 3, tendo o icon pagão primitivo sofrido uma transformação plástica, colocando-lhe uma cabeça e os braços, de modo a dar-lhe as feições de uma Santa Cristã. Porém, a manutenção do primitivo ritual pré-cristão, até aos nossos dias é prova de como as razões sociológicas e simbólicas resistiram ao tempo e aos que desejaram aliviar o peso da charola. Lembremos que os rapazes transportam a charola de trezentos e sessenta quilos desde Antime a Fafe e vice-versa, (dado que a Senhora regressa ao fim da tarde à igreja de Antime) o que constitui uma verdadeira prova pública de grande virilidade ou masculinidade. Servimo-nos da descrição camiliana sobre o comportamento dos que transportam a charola o que pressupõe o cumprimento de regras, ainda que haja inimizades entre os que carregam a Santa, não se lastimando a morte de quem não as cumprir. Tomemos em atenção os Vieiras de Castro, o seu comportamento social descrito por Camilo e as simbologias de poder que detêm no conjunto da sociedade. A hierarquização é feita e reconhecida, sendo o domínio do jogo do pau o referencial simbólico de poder masculino indiscutível. Sobre o cumprimento das duas Santas no limite da freguesia, poder-se-á dizer que se trata de um gesto protocolar de recepção e o reconhecimento de limites territoriais de cada uma das comunidades, com origens muito antigas e que a Idade Média, através do Poder Senhorial institucionalizou. Aqui o comportamento simbólico dos Santos é o mesmo que o dos homens, e a entrada em territórios estranhos pode constituir ocupação e motivo de grandes conflitos sociais. 1 Pinho Leal, Dicionário Corográfico, Vol . p.131.132 2 Camilo Castelo Branco, Memórias do Cárcere, 3 José Marques, A Arquidiocese de Braga no Séc. XV, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1988, p.405- 627
Miguel Monteiro
Mínia - 3.ª Série - Anno II
- 1994,
pp. 105 - 136
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