O AZULEJO DA CASA DO BRASILEIROS E LITERATURA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As fachadas

No conteúdo das descrições da época, encontramos os sentidos críticos que então se davam às casas e, já distanciado no tempo, descobrimos os proprietários e o gosto de uma época nas casas de “dois sobrados, caiada, azulejada, com suas colunas pintadas de verde e como de papelão grudado à parede, com as bases amarelas e os vértices escarlates” e, particularmente, nos elementos decorativos  então desconhecidos na paisagem rural, tais como: as sacadas, as vidraças com bandeiras divididas em variadas figuras geométricas, e a Arte Nova, tida na época, como “arte de fantasia farfalhuda”.

 

No que se refere à representação das fachadas, estas casas apresentam-se rebocadas e caiadas, ou cobertas com azulejos, estando presentes as cores do Brasil, com beirais de faiança, varandas estreitas com guardas de ferro forjado ou fundido, platibandas decoradas, lanternins, clarabóias e estatuetas, átrios decorados com azulejo.

 

A aceleração da actividade comercial, financeira e o aumento dos serviços, ocorridos na década de setenta do século XIX, além de ter funcionado como atractivo demográfico, particularmente de emigrantes de retorno definitivo do Brasil, expressa–se no enriquecimento da composição decorativa das fachadas, mantendo, e por vezes acentuando, o sentido da verticalidade dos edifícios.

 

Apresenta, no entanto, uma gramática estrutural semelhante: uma varanda acima de um falso beiral  ou cornija, destacando-se um grande conjunto de motivos decorativos e orgânicos – molduras, pilastras, óculos, nichos, mísulas, entablamentos,  cachorros de varanda, beirais e algerozes.

Nestas casas habitadas por uma burguesia, cada vez mais exuberante, as fachadas acentuam o ritmo vertical, com belas cantarias lavradas como nos solares joaninos, beirais de faiança e átrios de azulejos com escadarias de pedra terminando em belos modilhões ao gosto seiscentista.

Outros edifícios aparecem com fachadas simplificadas, desaparecendo os motivos ornamentais. As varandas reduzem-se a uma pedra linear, acentuando a verticalidade com pilastras de pedra a toda a altura do edifício.

Outras marcadamente horizontais, inscritas na estrutura da rua e limitadas por aquelas, seguem o mesmo sentido estético.

 

A prática de colocar azulejos nas fachadas «não veio do Reino para o Brasil, mas deste para o Reino. De torna-viagem foi que os portugueses ricos se deram ao luxo de levar o azulejo, até então aplicada somente nos interiores, à frontaria dos seus solares de fresca data, adquiridos ou construídos com a boa moeda das lojas e das fazendas sul-americanas. (Guilhermino Cesar)

 

«Se nas regiões do Norte do Brasil o Calor explica o porquês do revestimento exterior de azulejo - e algumas cidade nortistas, como S.Luís de Belém, oferecem curiosos especímenes, - ao Sul a razão disso é outra: proteger a parede da humidade e do vento. Tal é a explicação que se dá para o largo emprego dele em cidades gaúchas, como Porto Alegre, Rio Grande do Sul e pelotas. Na primeira destas, apesar do  Avanço implacável do cimento armado, existem ainda, nas ruas centrais, belos prédios particulares que ostentam fachadas inteiramente recobertas de policromados azulejos.» (Guilhermino Cesar)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«É porém no século XVIII, com insistência a partir de 1720, que se fazem (no Brasil) importações maciças de azulejos e que esta modalidade decorativa se enraíza fortemente. De facto, mais ainda do que em Portugal, o azulejo passou a tornar-se indispensável ... Desde o meados do século XVIII se empregaram no Brasil azulejos para cobertura e embelezamento de fachadas, quando tal aplicação era desconhecida entre nós (Portugal). Essa utilização, cujas vantagens económicas eram bem patentes, determinou no final do século e principalmente no XIX uma fabricação especial para o Brasil, a qual, por extravasamento, veio a ter também em Portugal a sua clientela: precisamente a dos «brasileiros» de torna-viagem» (J.M. dos Santos Simões, Azulejaria Portuguesa no Brasil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Casa  caiada de fresco, com sacada, vidraça de Bandeira dividida em variadas figuras geométricas, numa farfalhuda fantasia arte nova, e um papagaio - ainda o clássico loiro, gárrulo e malcriado, no trono de lata suspenso contra umbral - eis os tópicos capitais da estação que se seguiu.  (Aquilino Ribeiro, A Eleição de Sua Senhoria) 

«As estátuas de louça os alegretes de azulejo, os arcos feitos de cana, por onde se entrelaçam magras trepadeiras; um pequeno modelo de fragata brasileira com tripulação de altura dos cestos de gávea, flutuando num tanque circular; uma gruta estucada de azul e com assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o Sr. Soares, eram as principais maravilhas do jardim.  (Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais)

 

 

Miguel Monteiro (Coordenador )