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Manuel José Lebrão
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Manuel José Lebrão nasceu na freguesia de Sopro, do concelho de Vila Nova de Cerveira, no dia 20 de Fevereiro.
Era filho de Joaquim José Lebrão, que se dedicava à humilde profissão de pedreiro, e de Feliciano Rosa Soeiro, que se ocupava no arranjo da casa e nos trabalhos da lavoura.
Dos quatro irmãos que tinha, dois do sexo masculino e dois do feminino, era ele o mais velho e desde tenra idade seus pais lhe começaram a dar várias ocupações no campo, conforme as suas posses.
Sabendo no entanto que a instrução era uma necessidade para a vida, mandaram-no aprender a ler numa escola particular, a única que ao tempo existia na sua aldeia e de que era professor um Senhor João Igreja, que leccionava, em regime de coeducação, numa das dependências da casa que habitava.
Atingindo a idade dos 14 anos, começou a pensar no seu futuro, seduzido talvez pela ambição do progresso e da riqueza, embarcou para o Brasil, onde, ao tempo, se encontrava seu pai também, entregue ainda à rude profissão de pedreiro, e um seu tio, irmão da mãe, abastado proprietário dum estabelecimento comercial.
Como bagagem levou uma saca onde se acomodava toda a sua roupa.
Uma vez lá, a pedido dos pais, tomou conta dele o tio, que o empregou na sua casa como simples caixeiro, iniciando assim a sua carreira comercial.
O pai, regressou a Portugal, continuando o filho, aos cuidados do seu tio João Soeiro, na casa de quem se conservou até um dia em que foi contemplado com o grande prémio de três mil escudos, na lotaria.
Com os seus 18 anos e senhor de tal quantia, e sem dar qualquer satisfação ao tio, que muito se ofendeu com ele, regressou à sua terra Natal, onde, para sempre, tencionava ficar.
Mais tarde, contrariado com os pais e seus amores e propósitos de casamento, resolve ir trabalhar de pedreiro para Espanha. Consegue o seu velho mestre – João Igreja – convencê-lo a regressar, de preferência ao Brasil, e obter o perdão do tio.
Pela segunda vez parte para o Brasil, agora com os recursos conseguidos por meio da lotaria, e empregou-se na mesma casa onde estivera da primeira ocasião, restabelecendo-se assim a amizade e protecção do tio.
É então desta vez que a fortuna lhe abre as suas grandes portas. Ele merecia-a pois não a queria apenas para gastar em proveito próprio mas sim para poder ser útil aos seus semelhantes.
Depois de empreender vários negócios, fica ele próprio sócio e mais tarde dissolveu a sociedade, ficando ele único dono duma confeitaria; com os lucros lançou-se na exploração da indústria do doce de frutas, mandando construir a importante e modelar «Fábrica Colombo», em S. Cristóvão, com notáveis filiais em Teresópolis, piedade, Rua 13 de, e de São Paulo – onde se fabricavam e ainda se fabricam as importantes marmeladas, goiabadas, variadíssimas doces cristalizados, etc., etc., chegando até a ser muito conhecido no Rio de Janeiro pelo «Rei da Marmelada», angariando assim uma das maiores fortunas do Brasil.
Foi também ele o fundador da «Estamparia Colombo». Casou-se, em comunhão de bens, com Elvira Cordeiro Lebrão, Brasileira, de cujo matrimónio não houve descendentes, vivendo o casal num palacete que mandou construir em Teresópolis
Dispensou sempre grande protecção à sua família, bem como aos emigrados portugueses, no Brasil.
A mãe era a sua grande preocupação e porque lhe dedicava o maior dos afectos logo que seu pai morreu em 1901, pediu-lhe que fosse ao Brasil, com a intenção de que ela ficasse na sua Companhia para sempre.
Ela, contra vontade, acedeu aos rogos do filho, mas uma vez junto dele, não se sentia bem, pois o meio a que estava habitada era bem mais diferente; as suas ocupações domésticas em Sopo eram uma alegre distracção e, a sua humildade não se adaptava aos luxos do Rio de Janeiro.
Ao fim de cinco meses pediu ao filho que a deixasse vir para a sua terra Natal gozar a companhia dos seus netos. O filho não a contraria e com a sua esposa e sogros veio a Portugal trazer a mãe.
Desde então poucos anos houve em que não viesse passar o Verão à sua aldeia de Sopo, a qual dotou com melhoramentos de vulto.
Assim mandou restaurar a igreja e residência paroquiais e abrir um ramal de estrada para o seu melhor acesso, reformou o edifício da escola primária, mandou construir sete fontanários, mandou erigir torre encimada por um grande relógio cujas horas são ouvidas em toda a freguesia, mandou abrir minas na encosta do monte da Pena, para aumento do canal de água de régua, em cujos trabalhos gastou trezentos contos, quantia avultada para a época; fazia distribuir pelos pobres mais necessitados, importantes quantias e agasalhos, pagava a uma professora particular para leccionar 10 alunos pobres e dava vários prémios aos alunos mais aplicados da escola.
Convencido de que a instrução é um elemento essencial para o bem da sociedade, mandou construir em Teresópolis uma escola primária, dotando-a com todo o mobiliário necessário, a que deu o nome de “Escola Higino dada Silveira”, a qual ofereceu ao estado brasileiro, depois de concluída.
Os seus actos de filantropia foram mais longe ainda. Com o fim de auxiliar os doentes e desprotegidos, na sede do concelho de Vila Nova de Cerveira, num dos pontos mais altos e saudáveis, mandou erigir um magnífico e grandioso hospital – O Hospital de Cerveira – com uma fachada de elegante e harmoniosa simplicidade; ali não faltaram os melhores instrumentos cirúrgicos, um bom mobiliário e tudo o mais que era aconselhado pela medicina moderna a um Hospital, para atender doentes, não só do concelho, mas também dos concelhos vizinhos, que ofereceu à Misericórdia de Cerveira dotado com mais mil contos.
Esta obra custou-lhe a enorme quantia de quatro mil contos. No decorrer dos trabalhos de construção era ele sempre o primeiro e comparecer no local para orientar e dirigir as obras.
TESTAMENTO
Morreu no Rio de Janeiro com 66 anos, no dia 27 de Abril de 1933 e os seus restos mortais repousam num sumptuosos mausoléu construído em mármore, num cemitério daquela cidade. No seu testamento dispôs como de direito da metade dos haveres de seu casal da seguinte forma: a cada um dos seus empregados e operários da fábrica Colombo e Estamparia Colombo que à data do seu falecimento contassem mais de dois anos de serviço, deixou o correspondente a dois meses de ordenado e 52 dias de salário respectivamente.
A cada um dos seus afilhados deixou dois mil escudos.
À sua Junta de freguesia de Sopo 50 mil escudos, para serem aplicados na aquisição de títulos da Dívida Pública Portuguesa, averbados com a cláusula de inalienabilidade, sendo o produto da renda aplicado da seguinte forma: - Metade na distribuição pelos pobres nascidos e residentes na freguesia nos dia 28 de Abril, em homenagem à memória de sua mãe, e 15 de Outubro de cada ano; a outra metade na conservação e substituição da canalização da água das fontes da freguesia que ele mandou construir.
A Alice Fajardo da Silva, 25 apólices da Dívida Pública Brasileira, como reconhecimento dos serviços que prestou à sua terra, em usufruto, as quais por sua morte seriam averbadas em nome da Caixa Escolar Elvira Lebrão, da Escola Higino da Silveira, em Teresópolis.
Aos sobrinhos e sobrinhas, filhos do irmão João deixou 50 apólices da Dívida Pública Brasileira.
A cada um dos sobrinhos, filhos da irmã Maria Inácia e Mariana, residentes em Portugal, deixou 120 mil escudos.
Todos estes legados foram livres de impostos e o remanescente dos seus haveres foi dividido em duas partes iguais, sendo uma parte distribuída igualmente pela Santa Casa da Misericórdia, Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência, Asilo S. Luís para a Velhice Desamparada, Obra de Assistência aos Portugueses Desamparados, tudo isto com sede no Rio de Janeiro.
A outra Metade em parte iguais pelas seguintes instituições, todos com sede também no Rio de Janeiro: Casa dos Expostos, Preventório Dr.ª. Amélia, da Liga Brasileira contra a Tuberculose, Real e Benemérita Caixa de socorro D. Pedro V, Abrigo Teresinha de Jesus, Associação Cristã dos Moços, Hospital Pró-Mater, Casa do Bom Pastor, Casa da Infância e Asilo N.S. da Pompeia, do Internato de Menores.
Assim concluiu este famoso milionário a sua larga obra de Benemerência.
Tais são as notas biográficas mais importantes do egrégio cidadão que no Brasil angariou avultados meios de fortuna, e cuja acção filantrópica atesta aos vindouros exemplos maravilhosos, e dignos da nossa admiração e melhor simpatia”
António Martins Esteves In “ Festas Concelhias de 1957”
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