Manuel Gonçalves

 

 

Artur Leite

 

 

Manuel Gonçalves nasceu em Eirós, freguesia de Quinchães, Fafe. Faleceu a 15 de Julho de 1964 na sua Casa do Penedo, Estado de Alagoas, Brasil, com 94 anos.

 

Emigrou para o Brasil ainda criança. Conseguiu grande fortuna e muitos amigos. Lá longe casou, teve filhos, netos, bisnetos, trinetos e tetranetos (ou tataranetos).

 

Nunca esqueceu a sua terra natal – Quinchães – que visitava com frequência. “Como as andorinhas, eles, mal pressentem a Primavera, logo se predispõem para a travessia do Oceano[1]. Gostava de trazer os seus familiares para lhes mostrar, com orgulho, a terra onde nascera.

 

Visitava o pai e fazia férias nas termas na Curia e em Vidago. Fazia-se acompanhar com a esposa D. Purêsa Gonçalves. Sempre que vinha lembrava-se dos pobres[2].

 

Mandou construir uma escola na Serrinha – Quinchães – que ofereceu ao Estado.

 

 

 

 

Construiu também a sua habitação no lugar de Vila Penedo, na Pica, nos finais da década dos anos vinte, assim chamada por analogia com a cidade Penedo onde vivia no Brasil.

 

Hoje essa habitação, já ampliada, pertence ao Sr Luís Mário Gonçalves Ferreira e esposa Maria Adelaide Castro Leite, segundo primo do benemérito.

 

Este industrial chegou à Vila Penedo na Pica d’Além em Maio de 1935, com sua esposa para merecidas férias. Em Terras de Santa Cruz, Manuel Gonçalves foi uma figura de destaque e de prestígio. Foi um fafense que se fez pela sua acção, pela sua inteligência, e que no Brasil honrou a sua terra.

 

Foi elevado à categoria de “comendador”. Vinha com muita frequência a Portugal, e festejou o seu 87º ano na “Vila Penedo” na Pica, mas com 90 anos de idade já rareava por cá, e o oceano era mais difícil de atravessar. Viria a falecer com 94 ano em 15 de Julho de 1964.

 

 

 

Em 1934 já tinha em mente, e fez saber, que pretendia erigir um edifício de raiz em Quinchães, para lá funcionar uma escola. Esta foi um novo padrão para a instrução de ambos os sexos. Assim perpetuou a sua memória na terra que o viu nascer.

 

A este casal assistia uma enorme vontade de construir um edifício escolar.

 

O desejo era de tal ordem que ainda tiveram de comprar o terreno onde deveria ser instalado o novo edifício. As obras de construção iniciaram-se em Agosto de 1935. Em Novembro já tinha chegado o mobiliário, pago pelos doadores. Foi fornecido por uma firma de Freamunde.

 

A inauguração aconteceu no dia 6 de Dezembro de 1936 num ambiente festivo. Estiveram presentes membros da Câmara, autoridades eclesiásticas e civis, representantes da Inspecção Escolar, familiares do Sr Manuel Gonçalves e da esposa e grande multidão de pessoas da terra e da vizinhança.

 

A modéstia do Sr Manuel Gonçalves recomendava que não estivesse presente no acto da inauguração. Para o substituir passou procuração ao Sr Arcipreste Padre José Novais Rebelo, para assinar a escritura, e para o representar a si e à sua esposa, na solenidade.

 

Anos depois, foi a vez da inauguração da luz eléctrica em Quinchães e Pica. Este acontecimento ocorreu no dia 6 de Novembro de 1938, pelas 15 horas. No edifício da “Escola de Manuel Gonçalves[1]” realizou-se uma sessão solene. Presidiu o Dr António Martins de Freitas, ladeado pelo Dr José de Barros Vasconcelos, pelo arcipreste, pelo presidente da junta, Luís Ribeiro Vieira de Castro etc.

 

O Presidente da Câmara salientou o auxílio do grande benemérito Manuel Gonçalves e de sua esposa D. Pureza Gonçalves.

 

Em 1940 leccionava nesta escola de Quinchães a Srª D. Joaquina Marinho e D. Zilda Guimarães, que promoveram as grandes celebrações para festejar o Plano Centenário em 1940. Nesta festa descerrou-se uma lápide colocada na base do cruzeiro de Santo Amaro com os seguintes dizeres e com estes caracteres “VII CENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA,  III DA RESTAURAÇÃO DE PORTUGAL 1940”. Muito mais tarde deixou de funcionar como escola e hoje é a sede da Junta de Freguesia de Quinchães. 

 

 

Momentos festivos 

 

 

A primeira grande festa teve lugar no dia da inauguração em 6 de Dezembro de 1936, com todo o esplendor, pelas 15 horas. Era um edifício para os dois sexos, doado ao Estado com o respectivo mobiliário.

 

Na escola viam-se os retratos de Sua Excia o Presidente da República, Marechal António Óscar Fragoso Carmona, e do Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, mas faltava o crucifixo.

 

A afixação da fotografia do Presidente da República em todas as salas de aulas tinha sido estabelecida pelo decreto lei nº 22 369 de Maio de 1935, e a decisão de se afixar também uma fotografia do Presidente do Conselho fora decidido pelo Despacho nº 36 de Junho de 1935.

 

As duas fotografias deviam estar devidamente emolduradas e penduradas ao lado do quadro preto existente nas salas. A questão do crucifixo prende-se com uma decisão governamental, exarada na lei 1941, para que a partir do ano lectivo de 1936/37 se devia pendurar na sala de aula, em local de destaque, um crucifixo.

 

Esta era obra do insigne estatuário Teixeira Lopes, seria vendido pela União Gráfica em Lisboa, e o preço era de 120$00. O Cristo era esculpido em bronze sobre uma cruz de pau preto. Assim predominava o “Belo” e o “Santo”.

 

Os doadores não estiveram presentes, por opção, pois quiseram furtar-se às ovações, às entusiásticas honras a que tinham direito. A festa que agora se fez, bem poderia ter sido feita em Agosto anterior quando cá estiveram de férias.

 

Presidiu à cerimónia o Dr António Martins de Freitas, Presidente da Câmara secretariado, pelo Dr José Gonçalves Barros Vasconcelos; Sr Arcipreste José Novais Rebelo; Vereador da Cultura Padre Albertino; Dr Teotónio Silva e Castro; Delegado Escolar Professor António Joaquim Teixeira; Professor António Oliveira; Professora Maria Joaquina Marinho Vieira da Cunha Oliveira; D. Guilhermina de Sousa Loureiro, e ainda professoras de outras localidades.

 

O Delegado, usando da palavra, enalteceu as inteligências saídas daquela terra, nomeando o Dr Teotónio.  Nas cerimónias, o Sr António Oliveira hasteou a bandeira, e a Banda de Revelhe tocou “A Portuguesa”.

 

Os Bombeiros fizeram a continência a este nobre símbolo nacional. Houve muitos foguetes e vivas. Esteve também presente o pai do homenageado.

 

O Arcipreste cortou a fita da entrada da escola. Foi uma comoção geral.

 

Na sequência do que aqui se relata, a Câmara entregou a casa onde funcionava a velha escola , em Casadela, ao seu proprietário.

 

 

 

 Acto de doação ao Estado

 

 Da escritura de doação feita no Cartório Notarial de Fafe no dia 6 de Novembro de 1936, retiraram-se os elementos que se seguem comprovativos da veracidade dos factos e da boa vontade do doador:

 

Data da escritura de doação – 6 de Novembro de 1936,

 

Procurador – Reverendo José Novais Rebelo, pároco de Quinchães,

 

Doador – Manuel Gonçalves e esposa D. Maria Pureza Gonçalves,

 

Morada do doador – Alagoas, Estado da Baía, Estados Unidos do Brasil

 

Representante do Estado, e do Ministério da Educação Nacional – Manuel Joaquim  de Boaventura, Director do Distrito Escolar de Braga,

 

Bem doado ao Estado – Edifício escolar para os dois sexos, e mobília, que mandaram construir a expensas suas num terreno denominado “Bouça de Santo Amaro”  que adquiriram por compra em escritura feita em 25 de Outubro de 1934,

 

Condição da doação – Indicando ser provida  como professora da referida escola, logo que vague o lugar, D. Zilda Almeida Guimarães, residente na cidade do Porto,

 

Doação sem reservas – Transferiu para o Estado todo o direito, acção, domínio e posse que  tinha no prédio doado,

 

Aceitação – O segundo outorgante aceita a doação.

 


 


[1] Este capitalista emprestou 40.000$00 à Câmara em 1939 amortizável em 10 anos ao juro anual de 4%, para obras de electrificação de S.Gens e Quinchães. (Acta da Câmara de 12 de Abril de 1938).