José António Coelho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José António Coelho nasceu em uma pobríssima aldeia do concelho de Pedrógão Grande, na Província da Estre­madura, a 25 de Novembro de 1829.

Seus pais viviam da pequena lavoura e de um negócio ambulante mais pequeno ainda, em que empregavam os intervalos de ócio que lhe deixavam o amanho das suas terras.

Nem havia na aldeia mestre a quem confiassem a edu­cação do filho, nem lhes sobrava para isso meios de for­tuna, que tão escassa e agreste lhes era a eles, pobres trabalhadores de aldeia.

Não obstante estas dificuldades todas, José António Coelho recebeu na idade própria as primeiras noções de leitura e escrita de um professor particular que havia a uma légua de distância, a qual o rapazinho vencia diaria­mente da melhor vontade na ânsia de adquirir alguns co­nhecimentos úteis.

Entretanto, e desde tenra idade, sempre que o pai dei­xava a sua aldeia para empreender alguma excursão às terras em que ia fazer negócio, o pequeno José lá ia também com ele para o acompanhar e ajudar conforme lho permitiam os seus recursos e as suas aptidões.

Nesta vida, sem outras aspirações nem melhores horizontes, passaram os mais belos anos da existência de José António Coelho.

Entrava nos dezoito quando as circunstâncias variaram, vindo quebrar a união destes laços de afectos íntimos em que se prendia a alma do moço aldeão à sua terra e à sua família.

O primeiro acto do drama da existência dele acabava de findar ao sopro fatídico da desgraça que feriu os seus.

O seguinte devia representar-se já noutra cena e nou­tros hemisférios.

As calamidades públicas, que assinalaram o ano de 1848 na historiada pátria, tão repetidamente convulsionada pelas incessantes lutas civis, não pouparam a pobre e hu­milde aldeia do concelho do Pedrógão Grande e entre as vítimas da crise desses tempos calamitosos, foi das mais pronunciadamente assinaladas, o pai de José António Coelho, obrigado a abandonar o seu pequeno negócio, asso­berbado por dívidas que o tornavam por assim dizer inso­lúvel.

Nessa ocasião aflitiva em que uma numerosa família se encontrava de súbito privada de recursos, sem saber para que apelar, sentindo na alma o desânimo a entregá-la quase de braços cruzados nos regaços negros da fome, a negra fome que definha a vítima lentamente antes de a prostrar pela morte, foi, repetimos, nessa ocasião extre­ma, dolorosa, incompreensível mesmo aos que não viram de perto a desgraça e com ela se familiarizaram, que Jo­sé António Coelho tomou a deliberação de ir para o Brasil.

Compreende-se nesta situação o que há de angus­tioso, o que há de cruel na ideia da separação de um filho dos braços de uma mãe e de um pai extremoso, dos açoites pelo infortúnio que torna mais vibrantes as fibras do sentimento!

Compreende-se bem que negra e pavorosa ideia é a dessa separação forçada e o desespero louco que a dita como produto de uma alucinação suprema.

Pobres pais!

Sem fortuna, sem terras e sem filho! O filho mais velho, um filho de 18 anos, a menina dos seus olhos, a companhia do pai, o enlevo da mãe, toda a orgulhosa recordação de um passado de amor, de mocidade, de límpidos horizontes e de alegrias íntimas e despreocupadas das visões de um fu­turo em que nem sempre se pensa quando se ama e quando se é feliz!

E aquele filho era para eles tudo isso!

Todavia a separação tornava-se um decreto do destino, ela era a única solução, ou antes a única esperança que restava a essa família para conjurar as dificuldades que a assoberbavam.

Assim, aquele filho que tomava a nobre resolução de ir ganhar dinheiro para desempenhar seus pais e proporcionar-lhes mais desafogados meios de vida, como tantos outros que nas circunstâncias dele vão para o Brasil, constituíra-se desde esse momento a providência dos seus.

Deixava de ter um talher na mesa comum para ter uma adoração; o seu espírito ficava ali, tão vivo e realmente representado no coração de todos como se presente fosse no corpo que lhe é invólucro.

Esse, recebida a unção das lágrimas da que o gerara, lá vai por esses mundos fora, a pedir trabalho, levando uma alma nova, que é a que lhe dá a compreensão dos deve­res a que se obrigou, e da nobreza de seu propósito, al­ma levantada e sofredora a um tempo, altiva e resigna­da por igual, em que jamais haverá um transporte de júbi­lo íntimo, que não vá reflectir a pálida sombra de uma saudade que não morre e que a ausência da pátria mais aviva e fortifica.

O destino não soube iludir tão generosas aspirações.

Foi justo entre tantas vezes que há sido cruel, despótico e bárbaro.

Não quero dizer com isso que fosse pródigo em seus fa­vores para com ele, degradado voluntário da família, pelo amor imenso dessa mesma família.

José António Coelho, pouco tempo depois de estar no Brasil começou a auxiliar o pai com o produto santo das suas pequenas economias de caixeiro.

Mais tarde, onze anos depois, tendo-se estabelecido em 1859, conseguiu estabelecer uma mesada certa a seus pais a qual lhes garantia decentemente, sem privações, a exis­tência, e punha a velhice, em que eram entrados, ao abri­go das contingências da fortuna.

Dessa mesada ainda hoje participam duas irmãs de Jo­sé António Coelho, que já não têm a fortuna de ver seus pais vivos.

E porque o ídolo desse homem fosse a família, ele quan­do se estabeleceu não se limitou unicamente a garantir-lhes um pedaço de pão, quis à sua pequena fortuna associá-las igualmente.

Nesse propósito mandou ir da terra dois irmãos seus mais novos e logo que pode estabeleceu um deles.

Esse irmão faleceu em 1873 deixando a viúva e 6 filhos, que José António Coelho tomou sob a sua protecção, mandando educar os órfãos, hoje empregados no comércio, e metendo a cunhada, porque enlouquecera, num hospício de alienados, aonde ainda agora permanece a expensas suas.

Por essa época, 1873, já ele havia abandonado o comércio, em que nem sempre fora feliz, para se dedicar a outro género de negócio, que se lhe afigurou mais lucrati­vo, o de empreitadas de estradas de ferro, em que se tor­nou notável, pois, desde 1869 até hoje, tem sido empreiteiro na maior parte das estradas de ferro da Província de S. Paulo, e ainda agora, actualmente, da importante estrada em construção no Rio Grande do Sul, sem querermos falar de outra em que há prestado serviços no Paraná.

Dotado de uma actividade e energia que os anos pare­cem querer avigorar, José António Coelho, assim como se transforma de comerciante em empreiteiro de estra­das férreas, faz-se por igual processo industrial, ou antes cria uma indústria, ressuscita-a, ou para melhor dizer implanta-a.

É nesta metamorfose que o seu génio empreendedor e o seu espírito imaginoso se afirmam à evidência.

Havia nos subúrbios da cidade, em ruínas e ao abandono, um edifício em que funcionara em tempos uma fábrica de curtumes.

Há oito anos que o proprietário da fábrica morrera e com ele a pequena indústria, que mal conseguira implan­tar na cidade.

José António Coelho empreendeu restaurar a fábrica e pô-la a trabalhar.

Fácil tarefa para qualquer outro indivíduo que percebes­se alguma coisa daquele ramo de indústria.

Mas o nosso José António Coelho, já um empreiteiro de estradas, tinha muitas aptidões demonstradas praticamente, para o empreendimento dessas obras, mas, para mon­tar fábricas de curtumes, nenhumas!

E pior do que isso não havia na cidade ninguém que o pudesse auxiliar ou dirigir.

De curtumes em S. Paulo todos sabiam tanto como ele, que era coisa nenhuma, ignorância completa e absoluta.

A diferença é que a todos, com excepção dele José António Coelho, o facto de não entender de curtumes, era coisa indiferente.

Mas a ele não, e por isso aí o vemos à procura de livros que lhe digam alguma coisa do que deseja e precisa saber sobre o assunto.

Neste intuito põem-se os livreiros em movimento, escre­vem aos correspondentes, e os livros desejados começam a aparecer.

Mas, oh! decepção, oh birra quizilenta, esses livros são todos em francês, uma língua que era ao nosso biografado tão desconhecida como os processos de curtume, de que deseja inteirar-se.

Outro qualquer teria desistido perante o impraticável da empresa, ele não.

A circunstância dos livros serem em francês, trouxe-lhe uma outra necessidade e um outro desejo, saber francês, traduzi-los.

Procurar mestres e familiarizar-se até esse ponto com a língua de Lamartine, era processo demorado e ele carecia de resolver logo ali de momento o problema; daí o tem­po é dinheiro e quanto mais se demorasse em preliminares mais perdia.

Muniu-se de dicionários, agarrou-se aos livros e, pala­vra aqui, palavra ali, foi reconstruindo os períodos, conhecendo-lhes o sentido e fazendo uma ideia do que desejava — um trabalho insano, mas em fim um trabalho que se viu.

A fábrica reedificou-se, o maquinismo pôs-se em movi­mento, e tudo isto sob a direcção e vigilância permanente de José António Coelho, graças ao seu dicionário e à sua boa vontade.

E em pouco funcionava a fábrica: um verdadeiro prodí­gio.

Era uma vitória, mas não era ainda um triunfo deci­sivo, porque a sola não era conhecida nem tão pouco a sua boa qualidade a recomendava.

A luta continuava pois, mas sob uma face nova.

Os primeiros anos foram consagrados ao estudo dos diversos processos e ao ensaio do fabrico; mais tarde ao aperfeiçoamento de uns e outros.

Depois foi pouco a pouco desenvolvendo-se o consumo pelo aumento das procuras, e agora a fábrica de José António Coelho é uma das mais importantes do império.

O seu movimento vai aumentando de ano para ano, conseguindo actualmente curtir cerca de mil couros por mês, o que é ainda insuficiente para satisfazer grande parte das encomendas que tem.

Os lucros desta indústria, que José António Coelho res­suscitou, são muito regulares, o que ele próprio não oculta.

O estabelecimento está montado com os maquinismos mais modernos e tem capacidade para maior desenvolvimento de trabalho; emprega diariamente cinquenta e tantos ope­rários, e pode-se afiançar que está a par dos primeiros do seu género de indústria.

José António Coelho gasta mais de trinta contos de reis to­dos os anos na compra de casca das árvores para empre­gar no curtume.

Esta verba importante espera ele em menos de cinco anos economizar em grande parte.

E querem saber porque processos.

Mandando plantar, como ultimamente fez, perto de um milhão de eucaliptos nos terrenos adjacentes à sua fábricaa, os quais lhe prometem a casca suficiente para o seu fabrico.

José António Coelho tinha lido num jornal da Europa que a casca do eucalipto era excelente para curtir.

Ler isto e ensaiar o processo indicado foi obra dum mo­mento; adquirida a confirmação do facto indicado pelas provas práticas obtidas, para logo resolver o empreendimento da grande plantação em que agora está empe­nhado.

Quando a fortuna sorri a homens destes é uma justa compensação do céu.

José António Coelho vai nos cinquenta e cinco anos de idade, mas conserva ainda, como se vê, toda a energia e to­da a boa vontade dos seus primeiros anos.

Nenhum dos revezes da vida, porque os há sofrido a todos com a maior coragem e conformação, conseguiu cra­var uma ruga sequer naquela fronte aberta e agradável, na qual parece ter a imagem do bem impresso o seu cu­nho indelével.

José António Coelho, cujo retrato moral se evidência pe­los actos da sua vida, é uma fisionomia simpática e atraente.

Vê-lo é estimá-lo, estimá-lo é satisfazer um impulso na­tural e irresistível, que nos deixa a consciência cheia de satisfação.

Publicando o seu retrato, seguido destas ligeiras notas da sua vida obscura, obedecemos aos impulsos dessa von­tade instintiva, desejando não privar o leitor do prazer que experimentámos a ver o retrato deste patriota bene­mérito e deste cidadão que nos honra pelas suas quali­dades de espírito e de coração.

 

 

Leite Bastos in Galeria Photographica-Biographica Luzo-Brazileira

Lisboa, 1884.