José António de Sousa Basto

visconde da Trindade

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José António de Sousa Basto, é primeiro visconde da Trindade, primeiro conde do mesmo título, guarda-roupa honorário da Real Câmara, Grã-Cruz de Isabel, a Católica, Grande oficial da Coroa de Itália, Cavaleiro da Torre e Espada, Comendador da Ordem de Cristo, e da de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, de Carlos III, de Isabel, a Católica, de S. Gregório Magno, oficial da Ordem da Rosa do Brasil, e Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, distinções estas que provam bem quanto os altos poderes do Estado têm sabido compreender quanto vale este homem verdadeiramente prestável.

Nasceu em Cabeceiras de Basto, a 19 de Março de 1805, e é filho de Joaquim d'Almeida Bastos e D. Teresa Maria de Sousa Lobo.

Em 1823, tendo apenas 18 anos de idade, embarcou para o Brasil, em busca de fortuna, como tem sucedido a tantos nossos compatriotas ilustres, e ali seguiu a carreira comercial, fundando três anos depois uma sociedade com António Ferreira d'Amorim, natural do Porto, e José Maria do Amaral.

Esta sociedade de grande crédito e importância, du­rou até 1846 sob a firma Amorim & C.ª, época em que se extinguiu, reconstruindo-se nova firma sob o título Amaral & Basto.

Em 1850, isto é, depois de 27 anos de trabalho, actividade, lutas e empreendimentos nas longínquas terras brasileiras, regressou à pátria, esse sonho dou­rado de todos os que vão tentar fortuna em país alheio, chegando a Lisboa a 16 de Julho do mesmo ano.

Em 23 de Agosto retirou-se para o Porto, que avaliando os seus altos merecimentos cívicos, morais e trabalhadores, o elegeu vereador, sendo eleito presidente para o primeiro biénio de 1852 a 1853, reeleito para o biénio de 1854 a 1855, não aceitando a reeleição para o biénio seguinte, depois de ter demonstrado à cidade invicta quanto valia o seu nobre carácter e a força do seu ânimo, em proveito daqueles que o tinham elevado, e que jamais podem esquecer quanto lhe devem.

Em Julho de 1859 voltou ao Rio de Janeiro a fim de liquidar os seus negócios, o que conseguiu com rara actividade, no curto espaço de dois meses, promovendo ali entre os seus amigos uma subscrição que atingiu a avultada soma de vinte contos de réis, destinada a constituir o fundo do Liceu da SS. Trindade, regres­sando de novo à pátria em 13 de Novembro de 1859.

Por decreto de 24 de Julho de 1840 foi feito cavaleiro da Ordem de Cristo em atenção à sua filantrópica protecção aos emigrados, sendo nomeado comendador da mesma ordem por decreto de 3 de Maio de 1847.

Por decreto de 12 de Fevereiro de 1851 recebeu o grau de cavaleiro da Torre e Espada, pois o governo quis assim distinguir-lhe a nobre acção de ter sido um dos 24 portugueses que se cotizaram para armarem, abas­tecerem e equiparem a nau Vasco da Gama, a fim deste navio poder regressar a Portugal.

Em 2 de Maio de 1852 o governo espanhol agraciou-o com a comenda de Isabel a Católica, e em 10 de Novembro do mesmo ano foi elevado a visconde da Trindade, tornando-se assim fidalgo de direito, quem por suas nobres acções já de há muito o era de facto.

Em 15 de Junho de 1853 foi feito fidalgo cavaleiro da Casa Real, a 17 de Janeiro de 1854 Grã Cruz de Isabel a Católica, a 3 de Outubro do mesmo ano comendador de Carlos III, sendo em 15 de Outubro de 1855 nomeado guarda-roupa honorário da Real Câmara.

A 19 de Outubro desse ano, o governo brasileiro agraciou-o com o oficialato da Ordem da Rosa.

A 29 de Julho de 1865 recebeu de Roma a comenda de S. Gregório Magno, que naquele país é muito considerada, e só se concede em condições especiais, e após um detido exame dos méritos do agraciado.

Em 13 de Janeiro do ano seguinte foi agraciado com a comenda da Conceição, sendo pouco depois nomeado grande oficial da Coroa de Itália.

Pelo que deixamos dito, os leitores podem avaliar ao primeiro golpe de vista, quanto o nosso biografado era conhecido e em que estima e alta consideração os governos tinham os seus merecimentos e aptidões.

Passemos agora a enumerar os longos e inolvidáveis serviços por ele prestados a diversas associações de educação e beneficência, assim como em prol do bem público.

Tendo em 1835 sido criados na cidade do Porto pe­los três administradores dos respectivos bairros, três albergues para neles serem recebidas as pessoas neces­sitadas e famintas, o ilustre conde da Trindade susten­tou à sua custa durante três meses a sopa económica nos referidos albergues.

Em 1855 o governo nomeou-o presidente da comissão de vereais, por ocasião da escassez e do elevado preço a que chegou este género, sendo nomeados con­juntamente para esta comissão, o finado António José Antunes Navarro, que depois foi feito conde de Lagoaça, e António Gomes dos Santos.

Na gerência deste cargo a comissão foi autorizada a mandar ir cereais na importância de cem contos, arriscando-se ele e o conde Lagoaça somente, ao prejuízo que desta importante soma pudesse resultar.

Por essa ocasião houve no Porto uma sublevação popular, na qual o ilustre conde arriscando a vida provou a sua coragem, pois na companhia do então governador civil interino, o finado conselheiro José Lourenço Pinto, percorreu toda a cidade, acudindo aos pontos onde era maior o ajuntamento e a exaltação dos ânimos, conseguindo com a sua palavra e respeitabilidade con­ter os amotinados nos seus desvarios, evitando assim desgraçadas consequências.

Em 1862, por intermédio do seu correspondente em Lisboa o finado chefe do partido progressista, conse­lheiro Anselmo José Braamcamp, entregou uma inscrição de 500$00 reis nominais para os asilos da Ajuda e dos Cardais de Jesus.

No mesmo ano o governador civil do Porto, conselheiro Miguel do Canto e Castro recebeu dele 100$00 reis para auxílio dos operários impossibilitados.

Em 1865 governando o Porto o Sr. visconde de S. Januário recebeu dele 1oo$oo reis para custeio da casa de detenção das meretrizes, estabelecida naquela cidade.

A Ordem Terceira da SS. Trindade, que possuía apenas 1.400$00 reis em inscrições, sem algum outro capital ou rendimento, na época em que o ilustre conde entrou para a sua administração, que serviu por mais de vinte anos, quando ele se retirou deixou-a possuidora do capital de setenta e tantos contos fortes.

Nesta mesma ordem deixou estabelecido um hospital, aulas de português, francês, inglês, desenho e escrituração comercial, nas quais cursaram 250 alunos.

No hospital instituiu três lugares reservados a três entrevados que perpetuamente ali devem ser socorridos, em sufrágio das almas de S. S. M. M. as rainhas D. Maria II e D. Estefânia, e por el-rei D. Pedro V, para cujo encargo deu à ordem seis contos de reis em inscrições nominais.

Desde 1857 que exerceu o cargo de presidente da Associação das Meninas Desamparadas, de Campanhã. Quando tomou conta deste piedoso asilo existiam nele 24 crianças, em casa de acanhadas dimensões, mal dis­posta e insalubre pela sua deficiente disposição, sendo o capital existente de oito contos de réis.

Hoje aquele capital eleva-se a mais de cem contos, podendo-se assegurar sem receio de ser desmentido, que a terça parte desta soma a ele se deve; o número de recolhidos passa igualmente de cem, e a casa encontra-se totalmente transformada e adequada pelos mais modernos processos a preencher condignamente a sua missão.

Para os albergues nocturnos instituídos por S. M. El-rei D. Luís I, contribuiu com 500$00 reis.

A mesa da Trindade, em sessão de 27 de Outubro de 1871, propôs e foi unanimemente aprovado, que se man­dasse colocar na moldura do retrato 'este ilustre benfeitor uma lâmina de prata com o seguinte dístico:

Unanimemente proclamado

irmão benemérito e prior perpétuo

desta celestial ordem

em sessão de mesa e junta de 27 de Outubro de 1871.

Findámos com esta ultima distinção a biografia do ilustre conde da Trindade, e repetindo a frase com que abrimos este artigo diremos, que poucas vezes a pena do biógrafo tem ocasião de se levantar tão alto e honrar tão nobremente, como esta em que vimos de apre­sentar ao público um dos mais ilustres, beneméritos e filantrópicos cidadãos do nosso país.

 

Alfredo Gallis in Galeria Photographica-Biographica Luzo-Brazileira (Sexto ano, Número 66)

Lisboa, 1886.

  

Como complemento à biografia do nobre e ilustre Conde da Trindade, publicada no último número deste jornal, temos a acrescentar os seguintes importantes e valiosos dados, que não poderiam de forma alguma ficar no olvido.

Em 25 de Outubro de 1862, S. A. R. o Príncipe Humberto de Sabóia visitou-o em sua casa, por ocasião da sua vinda ao Porto e visitou a casa onde tinha residido Seu Augusto Avô o Rei Carlos Alberto.

Em 2 de Dezembro de 1863, recebeu a visita de Suas Majestades Fidelíssimas, El Rei o Senhor D. Luís I, e a Rainha D. Maria Pia Sua Augusta esposa.

Em 19 de Setembro de 1865 foi visitado pelo falecido e sempre chorado Rei D. Fernando II.

O conde da Trindade é casado com a Ex.ma Sra. D. Josefa Rosa d'Oliveira Amorim, filha de António Fer­reira d'Amorim e de D. Balbina d'Oliveira.

Deste consórcio houve 5 filhos; dois já falecidos — Viscondessa de Moreira de Rei e António de Sousa Bastos; e três actualmente vivos que são, o Visconde da Trindade, Baronesa de Valada (D. Josefina) e Vis­condessa de Lagoaça.

O conde da Trindade habita num sumptuoso pala­cete na Praça de Carlos Alberto, e numa das suas sa­las esplendorosas e que tem o nome do malogrado prín­cipe vêem-se em retábulos dourados, de magnífico tra­balho artístico, colocados nas paredes, as datas memo­ráveis das visitas a sua casa das diferentes pessoas reais.

Com estes dados fica pois completa a biografia do ilustre conde da Trindade, que veio dar uma figura das mais brilhantes a este modesto jornal.

 

Alfredo Gallis in Galeria Photographica-Biographica Luzo-Brazileira (Sexto ano, Número 67)

Lisboa, 1886.

 

Digitalização e transcrição por Isabel Ferreira Alves

Fafe, Outubro de 2008.