O conde de S. Salvador de Matosinhos

 João José dos Reis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O conde de S. Salvador de Matosinhos, João José dos Reis, nasceu em Matosinhos, aos onze dias do mês de Maio de 1820.

O homem que despontava para a vida aos primeiros clarões da aurora da emancipação não podia deixar de vir fadado para a realização de actos em tudo louváveis e relacionados com o esplendor dessa luz radiante que patenteava novos horizontes ao povo faminto de justiça e de liberdade, cansado de ansiar por conforto e protecção.

O nosso biografado deveu a existência a Francisco José dos Reis, que era, segundo parece, capitão de marinha mercante, e a D. Rita Rosa Capuz da Silva Reis. O seu progenitor, segundo rezaram as crónicas esteve ao serviço do império brasileiro, como oficial honorário da armada daquele país, fazendo nessa qualidade a guerra com o Rio da Prata, em que por mais de uma vez arriscou a vida e foi louvado pelos seus actos de bravura, servindo sob as ordens do almirante Jacinto Roque de Sena Pereira.

Terminada a guerra, e obtendo baixa do serviço, veio para o país natal e aqui serviu na armada nacional sob as ordens de D. Pedro IV, a quem dedicou muito afecto e a quem em conselho lembrou o desembarque no conti­nente das tropas libertadoras, contribuindo por tal modo para a frutífera empresa do Mindelo. Entrou depois nas pugnas da cidade invicta, e voltou mais tarde ao Brasil, onde teve o comando do navio Maria I.

Seu filho, o nosso apreciável biografado, entrou logo nos primeiros anos da sua vida na carreira comercial, a que se consagrou com o máximo zelo e dedicação. Oito anos depois do seu início nessa prometedora senda, achava-se estabelecido em sociedade com o major António José do Amaral, que foi também seu sogro, concedendo-lhe a mão de sua filha D. Josefina Maria do Amaral Reis de cuja união teve dois filhos.

Em 1847 enviuvou desta senhora, e veio depois a contrair segundas núpcias com a actual condessa de S. Sal­vador de Matosinhos, D. Henriqueta Januária da Silva Reis, que lhe deu dez filhos.

É o nosso biografado um dos mais abastados proprie­tários do Brasil e Portugal.

Tem exercido muitas e importantes funções e fundado muitas empresas, instituído muitas sociedades e protegido e avigorado grande número de estabelecimentos comerciais, e pios.

A sua fortuna e o seu nome estão de tal modo presas a interesses alheios, principalmente no Brasil, que, se a fatalidade, que Deus tal não permita, o levasse do número dos vivos, a sua falta produziria no Brasil tão grande e im­portante comoção, como se faltasse o próprio Impera­dor, ou mais, relativamente.

Vamos enumerar em seguida aquelas empresas de que sabemos é esteio importante o seu nome, a sua actividade e dedicação.

Vice-director da Companhia Brasileira de navegação a vapor e do Banco Comercial do Rio de Janeiro, presi­dente da assembleia-geral e do conselho fiscal de muitas associações. Presidente há muitos anos, por ter sido re­conduzido no seu lugar, da Sociedade Portuguesa de Be­neficência do Rio de Janeiro.

E notório o amor que o Conde de S. Salvador de Mato­sinhos consagra a esta instituição prestimosa, que tanto honra Portugal e os seus filhos dilectos residentes na capi­tal do Império.

E presidente e sócio honorário das Associações Comerciais do Porto e Lisboa.

Foi director secretário do Banco do Brasil e da Associação Comercial do Rio de Janeiro, na qualidade de representante do comércio português.

Muitos estabelecimentos bancários e companhias de seguros existem no Brasil, que devem à sua iniciativa sem esmorecimentos a vida que têm e prometem conservar. O nosso respeitável biografado foi o principal fundador do Brazilian, Portuguese Bank, depois English Bank of Rio de Janeiro, cuja sede é em Londres e de que existem caixas filiais em Lisboa, Porto e Rio de Janeiro.

Foi também quem criou e estabeleceu as companhias de seguros, Garantia, Confiança e Fidelidade, além da com­panhia Comércio e Lavoura.

Por ocasião de incorporar a companhia Segurança, tomou a iniciativa de propor, e obteve, auxiliado pelos seus colegas, um rateio de 5$000 reis, por acção subscrita, cujo produto total subiu à valiosa quantia de 87.500$000 reis, que foi distribuída em oito quinhões iguais por oito instituições de caridade brasileiras e portuguesas.

Exerceu as funções de membro da Comissão consultiva adjunto ao Consulado Geral de Portugal no Rio de Janeiro, desde a sua instalação até 31 de Dezembro de 1873, sendo louvado em portaria pelos relevantes serviços que nessa qualidade prestou.

Outros serviços de altíssima importância se lhe devem, tais como os de ter sido Presidente fundador das Comissões Centrais portuguesas de socorros a favor das vítimas da febre-amarela, no Rio de Janeiro, e das inundações de 1876, em Portugal.

É sócio benemérito do Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, instituição que lhe merece entranhado afecto.

Acerca deste estabelecimento escreveu o nosso biografado, de Londres para o Porto, a um seu amigo e ex-empregado, uma interessante carta, que apareceu no Primeiro de Janeiro de 28 de Maio último e da qual extraímos os seguintes parágrafos:

A propósito de Camões: tenho grande sentimento de não poder assistir à inauguração do imponente edifício do Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, que se realiza no dia 10 de Junho próximo em comemoração do passamento do grande poeta.

É um dos momentos que mais enobrecem os portugueses residentes no Rio de Janeiro.”

(…)

Como íamos dizendo, o nosso ilustre biografado, é sócio da caixa de socorros D. Pedro V, e da Real Associa­ção dos Albergues Nocturnos de Lisboa e presidente da comissão coleccionadora de donativos a favor da mesma, sócio honorário da Associação Industrial do Rio de Janeiro e da Sociedade Beneficente Lusitana, em Montevideu; sócio correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa e faz parte da comissão instaladora da Secção da mes­ma sociedade no Rio de Janeiro.

Quando o conselheiro Fradesso da Silveira fundou a So­ciedade Auxiliadora da Indústria Fabril em Lisboa, foi ainda o nosso biografado que concorreu poderosamente para essa fundação.

Os feitos exemplaríssimos de João José dos Reis durante toda a sua trabalhosa existência, tão profícuos para a humanidade em geral e especialmente para os seus compatriotas, com honra sua e do país a que pertence, fizeram com que o governo português o distinguisse em diversas datas conferindo-lhe o Grau da Ordem de Nossa Senho­ra da Conceição de Vila Viçosa, título de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, comenda da Ordem de Nosso Se­nhor Jesus Cristo, título de conselho, e títulos de primei­ro visconde e primeiro conde de S. Salvador de Matosinhos.

Como do costume, alguém, por deferência ou gratidão pa­ra com o agraciado, fez lembrar aos governos portugueses a justiça com que lhe seriam conferidas essas graças. Nestas circunstâncias é claro que não foram os intermediários os atendidos; mas o agraciado, pelos seus altos mereci­mentos somente, por que de outro modo o não podia ser tão certa é a sua isenção e a sua modéstia, convicto de residirem em si outros títulos de mor valia, que são os que encerra no coração de ouro, nesse coração que só pulsa de entusiasmo por tudo quanto é grande, digno e bom.

Em nosso entender cumpre ao governo português eleva-lo espontaneamente ao marquesado, visto que para tan­to são as suas eminentes qualidades e os grandes benefí­cios com que sempre se compraz em concorrer a favor dos seus patrícios, da sua terra, e do seu país.

No Brasil, onde é estimado e respeitado, onde tem pra­ticado iguais actos de rasgada filantropia, tem o nosso biografado recebido idênticas demonstrações de justo apreço, como o atestam os graus de cavaleiro e comenda da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, e de cavaleiro, comendador e dignitário da Imperial ordem da Rosa.

Possui mais o conde de S. Salvador de Matosinhos as medalhas de honra da Caixa de Socorros de D. Pedro V e de ouro da Real Associação Humanitária do Porto; e a Ordem Terceira de S. Francisco da Penitência, que lhe tem merecido valioso auxílio, mandou colocar, como prei­to de gratidão, o seu retrato a óleo no consistório, entre outros de beneméritos benfeitores.

Todos quantos conhecem o nosso biografado fazem jus­tiça aos seus nobres sentimentos, à sua provada e inexcedível magnanimidade, à sua incansável iniciativa em prol da instrução do povo, ao seu zelo pelo engrandecimento honroso do nome português, ao amor inquebrantável que sempre tem consagrado à sua terra natal, para cujos me­lhoramentos tem tido sempre aberta a sua bolsa.

Do afecto que lhe consagra ainda há pouco dava irrefragável testemunho nos seguintes parágrafos da carta que acima mencionamos.

Até sexta-feira, 27, se Deus o permitir e se ‘Tamar’ não der em algum rochedo de Vigo, como há dois meses sucedeu ao paque­te do pacífico.

Preciso de repousar em Matosinhos, na minha casa, nas mar­gens do ‘plácido e ameno rio Leça’, como o cantou o nosso Sá de Mi­randa, para ver se assim recupero as forças perdidas, e posso re­gressar ao abençoado Rio de Janeiro, onde como o afilhado sabe, te­nho tudo o que me é mais caro, e negócios e assuntos que recla­mam a minha presença. Não será esta, porém, a ultima vez que vi­site o nosso querido Portugal, se Deus não mandar o contrário. Desejo muito ver depois de terminada, aquela obra colossal do porto de Leixões, em frente ao meu Matosinhos. E porque não há-de ser assim? Meu tio, lavrador, que é o que resta da família em Portugal, e que o amigo bem conhece, está com os seus 86, e rijo como um carvalho. Ao menos, valha-nos esta ilusão.

Pela nossa parte confiamos em que assim sucederá, que Deus se comprazerá em conservar por muitos anos a preciosa vida do Conde de S. Salvador de Matosinhos, permitindo-lhe admirar, como nós também o esperamos fazer, a obra monumental do porto de Leixões.

Assim nós pudéssemos, como o nosso estimabilíssimo biografado, ter o coração e a bolsa postos sempre ao serviço de todos os desprotegidos e de todos os engrande­cimentos da pátria.

Entre as muitas e muito brilhantes qualidades que exornam o conde de S. Salvador de Matosinhos, relevam as de amigo leal, afectuoso e desinteressado.

Temos disso um exemplo na estima com que sempre tem distinguido, conservando-o ao seu lado, e chamando-lhe o seu querido amigo, e seu conselheiro, ao Sr. João Viei­ra da Silva, bem conhecido e bem considerado jornalista, que o tem acompanhado por toda a parte, servindo-lhe de secretário e confidente.

Este apreciável escritor é o representante do País, jor­nal que deve a sua existência ao conde de S. Salvador, que há três anos o fundou no Rio de Janeiro.

Confirmam ainda tudo quanto vimos de expor acerca do nosso distinto e ilustre biografado, as homenagens re­petidas, as sucessivas provas de estima e simpatia, que lhe têm justamente sido dispensadas em Portugal e no Brasil.

A 6 de Outubro do ano passado verificou-se no salão principal do teatro de S. Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro, um grande banquete oferecido ao ilustre com­patriota de que vimos falando, onde lhe foi ofertado, em nome dos seus amigos, um rico álbum apresentado pelo comendador Martins de Pinho.

A essa festa esplêndida concorreu o que há de mais selecto na capital do império, e ao champanhe houve nu­merosos brindes, na máxima parte consagrados ao cava­lheiro em honra de quem se fazia aquele banquete, o qual devia embarcar no dia imediato no paquete Gironde com destino a Portugal.

Efectivamente o conde de S. Salvador de Matosinhos chegou a Lisboa no dia 21 do mesmo mês, indo hospedar-se no palacete do seu velho e particular amigo conde de Penha Longa.

Por essa ocasião foi recebido por Suas Majestades, ministério, alto comércio, e pelos seus numerosos amigos, que todos à porfia timbravam em dar-lhe provas de quan­to estimavam a visita à pátria de tão prestimoso cidadão. Partindo no comboio de 24 chegou ao Porto na manhã de 25, acompanhado pelos Srs. conde de Penha Longa Jaime Victor (correspondente do jornal O País do Rio de Janeiro), Manuel Vieira Borges, José de Sousa Maciel So­brinho, Damião Ferreira Lima Pires e João Vieira da Silva. Esperavam o ilustre titular na gare, numerosas pessoas, amigos e admiradores, e uma deputação da Associação Comercial daquela cidade. Seguindo em trem para Matosinhos, era ali aguardado no adro da igreja, e ape­nas o honrado visitante e a comitiva entraram no templo, subiram ao ar muitas girândolas de foguetes. Às 9 horas cantou-se um Te-Deum a grande instrumental pela Capela Silvestre. Finda a cerimónia, visitou o cemitério da con­fraria e a capela do jazigo de seus pais; entrou na sala das sessões da confraria, onde se pronunciaram vários discursos, que agradeceu; visitou as aulas, onde era esperado pelos alunos e professores, e seguiu para sua casa em que ofereceu um magnífico almoço.

Nestes oito meses da sua permanência entre nós o i­lustre hóspede tem percorrido vários pontos do país, e em toda a parte assinalou a sua passagem distribuindo bizarramente largos benefícios a favor de muitas instituições e de muitos desvalidos.

Abençoada seja a sua generosidade exemplaríssima em que se revela o seu magnânimo coração.

Nesta proveitosa e feliz visita ao seu Portugal, o nosso benemérito biografado deixa o seu nome vinculado a dois grandes padrões de glória, cujos fundamentos lhe aprove lançar: a erecção em Matosinhos de uma estátua a João Gonçalves Zarco, filho daquela terra e descobridor das ilhas da Madeira e Porto Santo, e a fundação de uma creche também ali, a qual deverá ser inaugurada em Julho próximo.

Está designado para o seu regresso ao Brasil o dia 9 do mês de Julho.

Que o ilustre titular tenha uma feliz viagem e vá en­contrar na sua pátria adoptiva todas as venturas e pros­peridades de que é digno e a que tem jus.

Muito teríamos ainda a escrever a seu respeito, mas a falta de espaço obriga-nos a fazer aqui ponto.

Desculpe o ilustre biografado o deficiências do seu obscuro biógrafo.

Sabe sua Exa. que lhe não tecemos louvaminhas e procu­ramos simplesmente prestar-lhe uma homenagem sincera e desinteressada, tão sincera o tão desinteressada quanto é certo que não temos a honra de privar com sua Exa., a quem não nos pejaríamos de dever um favor, mas de quem até agora o não recebemos nem solicitamos.

E muito folgaremos de o saber outra vez em Portugal no gozo da mais invejável saúde e da mais larga prosperidade.

Junho, 1887.

Ayres Diniz in Galeria Photographica-Biographica Luzo-Brazileira – Commercio e Industria (Vol.3, Sétimo ano, Número 93). Lisboa, 1887.

 

Digitalização e transcrição por Isabel Ferreira Alves

Fafe, Outubro de 2008.