António da Silva Monteiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

António da Silva Monteiro, nasceu na freguesia de S. Martinho de Lordelo do Ouro e foi destinado por seus pais à nobre carreira comercial, embarcando para a cidade do Rio de Janeiro onde a sua actividade en­controu um largo campo para brilhantemente se afirmar.

Trabalhando com dedicação e inteligência naquele vasto empório do comércio, dentro de poucos anos ocupava um distinto lugar entre a colónia portuguesa do Brasil, sendo procurado para desempenhar lugares de grande importância, lugares que desempenhou sem­pre com toda a hombridade e zelo. Sócio duma das principais casas da cidade do Rio de Janeiro, habilíssimo nos variados assuntos em que tinha de superin­tender, dotado de uma inteligência que o norteava com segurança e firmeza no caminho que trilhava, conseguiu juntar, pelo esforço do seu braço, a fortuna que possuía, e que tão francamente repartia por todos que lhe imploravam o seu auxílio.

A sua probidade, aliada à deferência e à bondade com que a todos tratava, granjeou-lhe a estima e a consideração dos principais per­sonagens do império, e não foi sem grande mágoa que o viram abandonar aquele país para regressar à pátria, que de longe lhe sorria carinhosamente.

Estabelecendo a sua residência nesta cidade, o nobre conde principiou a interessar-se tanto pelo progresso da terra a que se ufanava de pertencer, que em breve era considerado o primeiro entre os cidadãos portuenses. Assim, vemo-lo vice-presidente do senado e presidente da Associação Comercial, desempenhando com a maior hombridade estes dois elevados e espinhosos car­gos.

Pronto sempre a associar-se a todas as iniciativas úteis, o seu nome acha-se ligado à empresa do Cami­nho de Ferro do Porto à Povoa de Varzim e Famalicão; à tanoaria a vapor; à fábrica de papel de Ruães; à Companhia Aurifícia; à companhia de navegação a vapor; à companhia mineira e metalúrgica do Braçal; aos albergues nocturnos, piedoso instituto fundado por Sua Majestade El-rei o Sr. D. Luís I; à criação e susten­tação de bancos, companhias, agências e empresas de primeira ordem, associando-se a todas com verdadeiro amor e desinteresse, fomentando deste modo a riqueza desta terra trabalhadora, que muito deve à sua inicia­tiva e dedicação.

Foi também director do palácio de Cristal, fundador do Hospital de Crianças, vogal do conselho de benefi­cência do distrito, mezario da Santa Casa da Miseri­córdia, presidente da associação dos bombeiros volun­tários, accionista e sócio de quase todos os estabeleci­mentos bancários e grémios científicos, compreendendo-se entre estes a Sociedade de Instrução, a cujo conselho pertencia.

Quando se tratou do importante assunto dos me­lhoramentos desta cidade, o conde da Silva Monteiro apareceu à frente dos mais entusiastas. A ele, aos seus esforços, à sua actividade, ao seu bom senso prático, se devem, em grande parte, os trabalhos do porto de abrigo de Leixões, melhoramento de primeira ordem para a prosperidade desta terra.

Quando tão importante assunto se ventilava na im­prensa e nos centros comerciais e as opiniões se encon­travam a respeito da proficuidade daquela obra monu­mental, o ilustre titular escreveu no Comércio Portu­guês jornal que proficientemente tratou aquele assunto, diferentes artigos doutrinais expondo neles a sua opinião autorizadíssima e indicando o caminho que de preferência deveria trilhar-se para a realização de tão importante melhoramento.

Nesses artigos, que produziram entre todos os centros comerciais a mais viva impressão, afirmou o nobre conde toda a cultura do seu espírito e toda a rectidão das suas intenções, escla­recendo com argumentos seguros e considerações nota­velmente aduzidas, muitos pontos importantíssimos. Na organização do sindicato Salamanca pugnou tam­bém entre os primeiros, associando-se a esse cometimento com todo o entusiasmo do seu rijo tempera­mento.

E se a energia do conde de Silva Monteiro se mani­festava, sempre que se tratava dum melhoramento, a sua caridade não tinha limites quando era preciso socorrer a desgraça. Por ocasião da epidemia variolosa que espalhou o terror nesta cidade, o nobre titular, à frente dum grupo de cavalheiros, solicitava de porta em porta, na sua freguesia de Miragaia, esmolas para os necessitados, e essa mesma santa missão exerceu quando o rio Douro, no inverno desabrido de 1884, inundou a parte baixa da cidade. Por essa ocasião en­tregou valiosas esmolas ao pároco da freguesia para esse sacerdote as distribuir pelos necessitados, e não contente com isto, ia em pessoa, pelos becos e travessas onde a miséria gemia largas horas de privações, consolar os tristes e os desventurados com o alívio da esmola e o bálsamo da consolação.

Foi ainda o nobre conde o principal promotor da As­sociação de Beneficência da paróquia de Miragaia, per­correndo ele mesmo as ruas pedindo esmola para a realização daquele caritativo pensamento.

Conhecíamos, bem de perto, a grandeza daquela al­ma de justo; as linhas, suaves e meigas, da sua fisionomia simpática, traduziam claramente toda a bonda­de, toda a delicadeza, daquele generosíssimo coração que pulsou sempre por todas as causas justas e nobres; no seu rosto, de uma serenidade de justo, estampara Deus o sinal que concede aos homens de honra e de virtude; havia no seu trato, tão familiar, tão lhano, tão atencioso, tanta delicadeza e sinceridade, que quem falasse com o conde da Silva Monteiro sentia-se imediatamente atraído para ele.

É este o condão dos espíritos escolhidos; mover simpatias e inspirar respeitos.

Só o homem de bem pôde insinuar-se, como o extinto conde se insinuava, e tanto que à roda dele fazia-se um coro imenso de simpatias, e, quando o seu no­me era invocado, não havia ninguém que o não cobrisse de aplausos e de bênçãos.

A vida do conde da Silva Monteiro constitui um belo exemplo das mais engendradas virtudes cívicas. Possuindo uma avultada fortuna, prosseguia modesta­mente na sua faina de negociante, despido das vanglóriass e dos orgulhos que os seus títulos podiam conceder-lhe.

Nunca deixou a sua habitual lhaneza; e, podendo deixar-se seduzir pelas pompas do mundo, conservou-se sempre o mesmo, atencioso para com todos, delicado até ao excesso, popular como poucos, rodeando-se sempre dos prestígios que essas virtudes con­quistam.

Procurado para ocupar os lugares de mais impor­tância social, escondia-se sempre atrás da sua modés­tia, e não foi, sem grande repugnada, que aceitou o viscondado e a vice-presidência do senado portuense. Solicitado a aceitar o diploma de deputado, recusou essa honra, como recusara o pariato, que por diferentes vezes lhe fora oferecido. A sua modéstia excessiva obrigava-o a não sair da humildade em que queria vi­ver; espírito culto, duma orientação clara, preferia a existência tranquila da sua casa e da sua família, e se a empresas importantes se associou, é porque o prestígio do seu nome era necessário à consolidação dessas empresas, e o seu desejo era ser útil e prestável.

Nunca recusou o seu concurso a quem o solicitasse, e é por isso que nesta cidade não há empresa nenhuma a que o seu nome não se ache ligado: — o seu nome, a sua influência e o seu capital, porque todos esses ele­mentos o nobre conde punha à disposição de quantos os requeressem em nome dos interesses desta terra, que muito lhe deve, porque a ela se afeiçoou sincera­mente, cooperando com todo o entusiasmo da sua al­ma de patriota para o seu engrandecimento e pro­gresso.

Alma, como poucas, compassiva e justa, a sua mão valedora remediava muito lar vazio e amparava muito infeliz sem arrimo.

De uma caridade toda cristã, repartia liberalmente a sua avultada fortuna com os desditosos que a miséria perseguia, de modo que a mão esquerda não soubesse os benefícios que a direita prodigalizava. Nunca os jornais deram conta dos seus actos de caridade e de amor do próximo, porque o não consentiria a sua modéstia e a sua própria caridade, porque a caridade que se apre­goa não é a sublime virtude pregada por Jesus, mas sim uma ostentação vã da vaidade humana.

Eis os traços mais salientes da fisionomia moral do nobre conde a cujo retrato esta prosa serve de grosseira moldura: esboçamo-los apenas, que o pincel para traçar tão nobre figura, precisa ser empunhado por mão mais firme do que a nossa. Os lineamentos principais são esses; a história, que se incumba de o glorificar, porque foi um justo, um honesto e um bom.

Pode o homem ter milhões à sua disposição, sentar-se num trono e dominar, brandir uma espada e vencer; se não for honesto e útil, a campa cairá um dia sobre o seu cadáver e sobre o seu nome. (Confúcio)

O conde da Silva Monteiro não desapareceu nas sombras do túmulo, porque foi honesto e útil. Esta ho­menagem prestada no primeiro aniversário da sua morte é uma prova de que o seu nome vive no nosso respeito e na nossa gratidão.

Porto, 1885. Firmino Pereira.

 

Firmino Pereira in Galeria Photographica-Biographica Luzo-Brazileira – Commercio e Industria (Sexto ano, Número 65). Lisboa, 1886.

 

Digitalização e transcrição por Isabel Ferreira Alves

Fafe, Outubro de 2008.