Barão de Ibiapaba

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais um homem ilustre, mais um desses trabalhadores austeros e indefesos, que conquistam palmo a palmo uma posição excepcional e elevada, mais um desses devotados cultores da honra e do trabalho, que são exemplo e ensi­namento dos seus concidadãos, vem hoje enriquecer e ilustrar a galeria do Comércio e Indústria.

É sempre abençoada e digna de respeito a riqueza obtida à custa de muita perseverança em vencer os atritos e dificuldades, que contrariam frequentemente os que preten­dem ascender por si mesmos, honestamente — a riqueza, único produto dos dois grandes factores — o trabalho, essa alavanca do progresso e desenvolvimento do homem e das sociedades, e a probidade que dá a estima pública e sugere o crédito, esse vivido sangue de todos os organismos comerciais!

De tudo isto é exemplo frisante o homem verdadeiramente ilustre e respeitável, cujo retrato temos na nossa frente.

Filho de Felisberto Correia da Cunha e de D. Custodia Maria Ribeiro, nasceu o nosso biografado a 18 de Dezembro de 1828 em Cauhype província do Ceará.

Aos quatro anos perdeu seu pai e aos nove foi para a capital, onde se empregou como caixeiro, na casa comercial de António Vicente Ribeiro e depois em casa de José Correia de Melo.

Revelando logo nos primeiros tempos da sua carreira comercial as notáveis qualidades, que mais tarde haviam de evidenciar-se largamente, alcançou a estima dos seus patrões, e com o produto da mais severa economia e pela confiança no seu carácter e costumes exemplares obteve crédito, que lhe permitiu estabelecer-se passados poucos anos.

Daí por diante seguiu a sua carreira sem retroceder, a passos firmes, tornando-se em pouco tempo a sua casa comercial uma das mais honrosamente conceituadas daquela praça.

Hoje o barão de Ibiapaba possui a primeira fortuna no Ceará, e uma das mais importantes em todo o norte do Brasil.

Durante esse largo período, essa longa e fadigosa subida no mundo comercial, nunca desmentiu uma só vez as suas altas qualidades de homem de negócio, nem falseou sequer levemente os dotes do seu carácter sério, honrado, e pundonoroso.

Sentimos, que nos faltem os devidos apontamentos de muitos actos, que ornamentam essa honrosa carreira comercial e que são outros tantos diplomas a geral benemerên­cia, e profunda simpatia, que cercam esse nome respeitado. Em 1859, perdendo sua mãe, que chamara para a sua companhia, veio pela primeira vez à Europa, onde alargou as suas relações comerciais.

Actualmente a casa do barão de Ibiapaba tornou-se o mais poderoso sustentáculo do comércio cearense em larga escala.

Alma aberta a todos os sentimentos generosos e bons, ninguém se dirige ao seu coração profundamente benfazejo, que não seja satisfeito, tendo sempre a bolsa aberta para todos os actos filantrópicos e tendo concorrido muitas ve­zes com avultadas somas para obras de beneficência.

Foi o fundador e único instituidor do Asilo da Mendicidade da capital.

Chefe político, notável pelo seu tino, e seguro critério ocupou por vezes a cadeira da presidência e entrou em uma lista para senadores.

Foi por diversas vezes presidente da municipalidade e é actualmente presidente da Junta Comercial e de outras associações; coronel da guarda nacional, comendador, e depois agraciado com o título de Barão de Ibiapaba.

Consta-nos que vai ser elevado à dignidade de visconde, e nunca a graça régia foi mais justa e merecida.

Na sua última viagem à Europa em 1882, naufragou no paquete Douro em 1 de Abril desse ano, no golfo de Gascunha, procedendo durante essa catástrofe com a maior coragem e admirável sangue frio.

Regressando ao Brasil, teve dos seus concidadãos a mais entusiástica e comovente recepção, de que há memória na capital do Ceará.

O barão de Ibiapaba é um espírito profundamente liberal, um belo e generoso coração, um cavalheiro de agradável e ameníssimo trato.

Releve-nos ele com a proverbial bondade do seu ânimo a singeleza desta rápida apresentação.

O muito que a falta de apontamentos nos obriga a omitir, supremno com largueza e por uma forma mais eloquente a elevada estima, as gerais simpatias, a profunda admiração e respeito, que engrinaldam, com o mais brilhante galardão, esse nome tão justamente considerado e benquisto.

            

              Salvador Marques in Galeria Photographica-Biographica Luzo-Brazileira

Lisboa, 1884.