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António José da Fonseca Moreira
A morte vai descalvando pouco
e pouco os nossos melhores amigos, e vai-nos reduzindo ao ínfimo da
afectuosidade francamente encontrada em belas almas, lançando-nos num
despovoamento desolador.
Após a morte da Visconde de Morais, de José António de Sousa, do Barão de
Tavares Leite, de Cândido Sotto Mayor, e de outros bons amigos, desaparece
António José da Fonseca Moreira, um dos mais amigos e mais amados, que,
por o ser, aqui lhe queremos render o nosso preito de gratidão,
contristadamente, sentidamente – o da boa cooperação que nos prestou.
Fonseca Moreira, grande alma, grande amigo, dos sinceros e dos mais
desinteressados, era dos que compreendiam o quanto amarga é a publicidade,
para a acarinhar.
Homem bom e generoso, ele sabia repartir pelos pobres, pelas associações,
pelas beneficências, pelas colectividades, o que tão honradamente ganhou
em 81 anos, mandando todos os anos pelo Natal, para a sua terra, avultadas
quantias e distribuindo no Brasil outras talvez ainda superiores.
Patriota, bairrista e humanitário, ele era um admirável benemérito,
daqueles que marcam pelo cunho da sinceridade. Modesto e simples, era,
todavia, inteligente, tinha merecimento e possuía tão raras qualidades de
trabalho que por elas conseguiu elevar-se: e, possuindo a condecoração de
comendador, nunca a usou.
Fonseca Moreira era filho de José António da Fonseca e de D. Joaquina Rosa
Moreira, de Sendim, de Felgueiras, onde nasceu em 23 de Julho de 1848 e
foi para o Rio de Janeiro num navio de vela, aos 14 anos de idade: lá se
fez homem, lá, à custa de um trabalho aturado e de grande força de
vontade, conseguiu fortuna e lá morreu com 95 anos incompletos em 2 de
Julho de 1938.
O saudoso morto era conhecidíssimo em todo o Brasil e em Portugal, onde
tinha amigos que lhe queriam e o estimavam e onde gozava do alto apreço e
consideração em que se tecem os homens de bem, pelo que a sua morte foi
sentidíssima.
Fonseca Moreira, quando de visita à pátria, à família e à terra que lhe
foi berço, dava aqui as suas chegadas a vinha dar-nos provas da sua
afeição, notando nós então nele a grandeza da sua alma e os apreciáveis
dotes do seu coração doiro.
Honrando a Colónia Portuguesa do Brasil, foi um dos seus mais ilustres
membros pela inteligência, pela bondade e pela honradez.
Felgueiras pode orgulhar-se de tão bom filho e deve agora saber honrar-lhe
a memória, levantando um monumento ao seu digno conterrâneo, se bem que
ele já lá tem o Teatro com o seu nome, solenemente inaugurado em 1921.
Fonseca Moreira, em 1868, com o capital de 400$000 apenas, começou a
negociar vendas a dinheiro, lucro de 5%. E foi assim, ele, o primeiro
propagandista economia, no Rio.
Em 1929, por iniciativa dos seus amigos Auspício Ferreira, Joaquim de
Barros Leite e Manuel Sampaio, e, da Câmara, que fez a proposta, foi, pelo
Governo da Nação, proclamado «Benemérito da República». E, já há muito,
era: Negociante matriculado no Rio, irmão da Ordem 3.ª da Penitência,
sócio da Cruz Vermelha Portuguesa, irmão da Misericórdia de Felgueiras,
sócio Benfeitor da Sociedade Portuguesa de Beneficência, sócio fundador e
1.º secretário por aclamação da primeira directoria da S. União dos
Varegistas de Secos e Molhados, sócio da Caixa Beneficente Teatral, sócio
da Associação dos Empregados no Comércio do Rio de Janeiro, Sócio da Caixa
de Socorros D. Pedro V, sócio da Federação Espírita Brasileira, irmão do
Coração de Jesus da Candelária, sócio do Gabinete Português de Leitura,
sócio da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (S.B.A.T.), sócio do
Grémio Republicano Português, sócio do Centro Beneficente Gago Coutinho e
Sacadura Cabral, irmão da Misericórdia do Porto, sócio Benfeitor da Casa
dos Artistas, irmão de N.S. da Candelária, sócio da Sociedade Beneficente
Visconde do Rio Branco, sócio benemérito da Federação Espírita Portuguesa,
sócio da União dos Proprietários, etc., etc.
O prantiado extinto também foi um distinto escritor teatral. Logo aos 17
anos, quando ainda caixeiro, já figurava na lista dos colaboradores do
«jardim Literário», onde publicava poesias, artigos literários, dramas,
etc.
Nas horas de ócio, estudava e escrevia, sendo a sua grande paixão pelas
peças fantásticas. Com ruidoso sucesso, representou-se no Teatro Apolo, do
Rio, em 1924, «A Passagem do Mar Vermelho». E a peça que inaugurou o
Teatro que em Felgueiras tem o seu nome, foi a comédia «Feitiço contra
Feiticeiro» de geral agrado.
Fonseca Moreira desempenhou muitos e honrosos cargos que sobremaneira o
distinguiram e foi um nome glorioso, desses que dignamente atravessam a
vida.
Escreveu e editou muitas peças de teatrais, que lhe consagraram o nome.
António José Moreira Fonseca era tio do nosso velho e considerado amigo
Sr. Dr. Luís Gonzaga da Fonseca Moreira, antigo deputado e presidente da
Câmara de Felgueiras e do distinto cavalheiro que com ele vivia Sr. José
Gonçalo Garrigou da Fonseca Moreira; irmão das Senhoras D. Rosa da Fonseca
Moreira, de Pinheiro e de D. Margarida da Fonseca Moreira, de Sendim; e do
Sr. Álvaro da Fonseca Moreira, de Sendim; tio das senhoras: D. Haidé da
Fonseca Moreira e D. Clara da Fonseca Moreira, filhas do irmão Sr. Álvaro
da Fonseca Moreira; e de D. Margarida Amélia da Fonseca Moreira Novais e
Sousa, filha do falecido irmão José da Fonseca Moreira; e dos Srs. Horácio
da Fonseca Moreira; filho deste irmão; Óscar da Fonseca Moreira e Fernando
da Fonseca Moreira, netos do dito irmão José da Fonseca Moreira; Álvaro da
Fonseca Moreira, João da Fonseca Moreira, Armindo da Fonseca Moreira,
Alberto da Fonseca Moreira, Bernardino Cândido da Fonseca Moreira, Augusto
da Fonseca Moreira e das meninas Rosa da Fonseca Moreira e Maria Olinda da
Fonseca Moreira, filhas do irmão Sr. Álvaro da Fonseca Moreira; António
Renato da Fonseca Moreira, José da Fonseca Moreira, Armando da Fonseca
Moreira e Álvaro da Fonseca Moreira, filhos do finado irmão António da
Fonseca Moreira.
Que descanse em paz a alma desse homem bondoso que dignamente atravessou a
vida trabalhando economizando e praticando o Bem.
Para se avaliar da pureza de alma e dos nobres sentimentos de Fonseca
Moreira, basta abrir o seu testamento, que lá se encontram contemplados
família, amigos, pobres, hospitais, bombeiros, beneficências,
colectividades, instrução, caminhos, templos, águas, etc,. etc. Nele há
esta passagem que jamais esqueceremos: «Deixo ao meu amigo Artur Pinto
Bastos, proprietário do ‘Almanaque de Fafe ’, cinco contos de reis
brasileiros».
A obra de Fonseca Moreira, tanto em vida como na morte, é tão vasta, tão
beneficente e tão humanitária, que a sua memória ficará perdurável través
dos séculos.
O seu corpo jaz embalsamando na sua adorada aldeia natal.
Perante ele, ajoelhamos, respeitosos, em espírito.”
Almanaques ilustrado de Fafe, Fafe, 1939, pp.62 e 62
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