ANDROGENIA NO CULTO DE SÃO MAMEDE

Monteiro, Miguel,(1995),

“Cultos e Ocultos de Monte Longo”,

separata - Minia,

 Braga, ASPA,PP.103-135.

 

Os habitantes de Bastelo, freguesia de Varzeacova, praticam um original e rico culto a São Mamede com origem num tempo em que as crenças correspondiam às necessidades mais simples e urgentes de uma comunidade limitada nos conhecimentos e na compreensão dos fenómenos humanos e naturais.

O leite como alimento essencial à sobrevivência das populações e dos rebanhos assume uma dimensão de um bem divino, estabelecendo-se uma intima relação entre o seres férteis da comunidade.

Com a cristianização destas populações, e perante a presença prolongada das mesma necessidades mantiveram-se os ritos, substituindo-se apenas o objecto mágico.

Do antigo nada se sabe, podendo ser um simples objecto de coloração esbranquiçada ou em forma de mama ou simplesmente um bloco granítico, com um forte valor simbólico e de grande significado social.

Hoje, ao São Mamede, ainda é atribuído o poder de tornar abundante o leite das fêmeas paridas.

As mulheres, ao verificarem depois do parto que não têm leite para amamentarem o seus filhos, recorrem convictamente às virtudes do Santo, esfregando nas suas costas uma fatia de pão. Deste modo o leite torna-se imediatamente farto nos seios maternos.

O mesmo ritual é praticado, quando as cabras demonstram a mesma incapacidade, sendo neste caso esfregado nas costas do santo um pouco de erva que, depois de servida as cabras, provoca a mesma abundância de leite.

A apropriação do efeito mágico faz-se, ingerindo um alimento depois de este ter contactado directamente com o objecto sacralizado.

Este ritual mágico praticado com igual resultado entre os animais e seres humanos evidencia, na mesma ritualização, uma profunda identidade entre os seres férteis da comunidades.

Estaríamos perante o culto pré-cristão da "mamada", dado tratar-se de uma virtude feminina que, com o cristianismo, foi substituído pelo de São Mamede, explicando-se, a escolha de um Santo do sexo masculino, pelo facto de os pastores serem homens.

Outro facto digno de análise é o que se observa na prática do rito propriamente dito, no qual o contacto físico é feito nas costas do Santo e não noutra parte da imagem, conferindo-lhe androginia, isto é, adquire valor simbólico de macho e como fêmea: as costas adquirem uma conotação feminina de fertilidade, por oposição às frentes do Santo que se identificam com funções masculinas e fecundantes.

Este culto à fertilidade está ainda presente na Senhora do Leite, lugar de Crasto, freguesia de Ribeiros, a qual, por ser uma entidade propiciatória feminina, se adequa mais explicitamente à função mágica, conforme as quadras aí cantadas: [...] Nossa Senhora do Leite / Está na sua capela / É uma Senhora tão linda / Rainha da nossa Terra - [...] E na capela do Crasto / Vós ó mães sabeis / Está a senhora do parto / A que sempre recorreis.

Para muitos de nós estes comportamentos são impensáveis e, para alguns, até ridículos. Porém, eles são portadores de um conjunto de dados de natureza social e cultural das comunidades que os praticavam, dando-nos ainda informações preciosas para o conhecimento da função e valor dos símbolos em todas as comunidades.

Estas práticas são organizadoras e estruturantes da comunidade, dividindo-a entre produtores férteis e não férteis, ao mesmo tempo que estabelece a hierarquização dos que cumprem as funções que a comunidade lhes atribui.

Das fêmeas se espera o cumprimento de fertilidades definindo a sua importância dentro da comunidade, sendo as mais respeitadas ou valorizadas as que cumprem as suas expectativas.

Através do reconhecimento por toda a comunidade da função simbólica do rito e da sua prática, a sociedade estabiliza a suas ansiedades e prolonga as perspectivas de sobrevivência.

O culto a São Mamede é conhecido ainda nas freguesias de Cepães e Vinhós, com o estatuto de padroeiro na primeira.

Miguel Monteiro

Mínia - 3.ª Série - Anno II - 1994,

pp. 105 - 136